O conflito no Oriente Médio pelos olhos de uma brasileira
O conflito no Oriente Médio pelos olhos de uma brasileira
Uma temporada de estudos na Universidade de Columbia, em Nova York, acabou sendo determinante para a formação da carreira profissional da brasileira Julia Bacha, diretora de Budrus, um dos filmes selecionados pelo É Tudo Verdade, festival de documentários realizado todos os anos em São Paulo e Rio de Janeiro.
Foi durante as aulas de História na instituição que ela descobriu a paixão pelo Oriente Médio e, a partir de então, o rumo de sua vida mudou. Julia é atualmente uma documentarista especializada na região, cujos filmes tratam principalmente de atitudes de coexistência pacífica entre israelenses e palestinos e protestos não-violentos.

A cineasta brasileira Julia Bacha, ao lado de palestinas colhendo azeitonas na Cisjordânia
O início da relação com o cinema aconteceu num encontro com a diretora egipcioamericana, que a convidou para participar da produção de Central Al Jazeera (Control Room, no título original), documentário sobre a cobertura feita pelo canal de notícias do Qatar durante a invasão estadunidense ao Iraque em 2003.
O longa foi exibido no Festival de Sundance, um dos mais importantes dos Estados Unidos, e teve a maior audiência entre documentários no país. O sucesso do filme fez Julia perceber, definitivamente, que conseguiria atingir mais pessoas com o cinema do que com a academia. Desde então ela já produziu mais dois documentários.
Dor comum
Junto com um grupo de mulheres Julia fundou a ONG Just Vision, que centralizou a produção de seu próximo filme, Ponto de Encontro, resultado de uma imersão de 17 meses no cotidiano palestino. No período ela acompanhou as reuniões do Círculo das Famílias, projeto que reúne parentes de pessoas mortas em decorrência do terrorismo.
“Com essas pessoas aprendi que a dor pode ser transformada em algo positivo. Afinal, se eu sei o quão ruim é sofrer, não vou querer que ninguém mais sofra como eu”, explica a cineasta.
O filme teve efeito instantâneo em alguns dos espectadores. Um caso que marcou Julia foi quando um líder da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, grupo terrorista palestino, ligou para um dos participantes do Círculo das Famílias o parabenizando pelo projeto e demonstrando interesse em partir para a via pacífica. Ele havia visto o documentário na emissora Al Arabiya, assistida por milhões de árabes ao redor do mundo.
O maior reconhecimento veio, porém, do Ministério da Educação de Israel, que tornou obrigatória a exibição de Ponto de Encontro nas escolas israelenses. Hoje, as idéias de não-violência do filme atingem cerca de 10 mil crianças por ano.
Cinema que retrata e encoraja
Budrus, produção mais recente da Just Vision, mostra a história de um palestino que, ao lado da filha de 15 anos, conseguiu unir os grupos Fatah e Hamas, além de israelenses, num protesto pacífico contra a construção de um muro na Cisjordânia. O projeto inicial, idealizado pelo governo israelense, invadia terras palestinas, dividindo plantações e isolando bairros inteiros. Os ativistas deitaram em frente dos tratores, impedindo as obras, e o muro foi transferido para a Green Line, divisão oficial entre os territórios palestino e israelense.
Assista o trailer de Brudus:
A equipe utilizou imagens de 12 fontes diferentes, vindas principalmente de ativistas. A presença das câmeras, além de caracterizar a polifania do longa, assegurou aos manifestantes que, no caso de violação dos direitos humanos, haveria provas contra o exército israelense. Depois de finalizado, o filme foi exibido na cidade de Budrus e a recepção da população local foi extremamente positiva.
“Quando eles se viram na tela, perceberam o quanto aquele protesto foi importante e passaram a planejar outras iniciativas, inclusive no âmbito nacional. Essa mobilização e proliferação de ideais de não-violência é fundamental para realmente chegarmos ao processo de paz”, defende Julia, que diz fazer cinema para falar do que é negligenciado em outros meios.
“O cinema tem muitos papéis, mas para mim ele funciona principalmente para contar histórias que não estejam sendo contadas. Aliás, é um absurdo que haja tanta ignorância na mídia sobre um dos conflitos políticos mais complicados da história da humanidade. Além disso, me preocupo em contá-las bem. Quero que, antes de tudo, o espectador veja o filme pela qualidade estética e narrativa e, então, se quiser se envolver mais, o faça. A própria Just Vision aponta vários caminhos nesse sentido”, conclui.
Budrus será exibido pelo É Tudo Verdade nesta quinta-feira (15/4) às 19h e sábado (17/4) às 13h no CCBB de São Paulo.
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