No Haiti e no mundo, Zilda Arns sempre buscou os “mais pobres entre os pobres"
No Haiti e no mundo, Zilda Arns sempre buscou os “mais pobres entre os pobres"
“Conhece uma mãe normal que abandona seu filho? Claro que não. Vou acompanhar a Pastoral da Criança até morrer”. Foi o que Zilda Arns Neumann me disse, em tom bem-humorado, em entrevista para a revista Ideia Socioambiental em dezembro de 2006. À época, ela se preparava para deixar a coordenação nacional da Pastoral da Criança, organização filantrópica ligada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a qual idealizou e dirigia desde 1983. Na ocasião explicou, no seu sotaque catarinense melódico e decidido, que se sentia muito bem e por isso queria aproveitar a boa saúde aos 72 anos para conhecer melhor os trabalhos internacionais da Pastoral.
Fotos: Pastoral da Criança

Doutora Zilda nasceu na cidade de Forquilhinha, em Santa Catarina, mas fez sua vida em Curitiba, Paraná
“Já temos ações em 16 países e no ano que vem [2007] estamos compromissados com o Haiti, que há três anos vem solicitando a Pastoral da Criança por lá”, contou durante a conversa. Foi assim que a doutora Zilda, como é chamada pelos 240 mil voluntários da sua entidade no Brasil, chegou ao Haiti. Levando em conta o preceito cristão de atingir sempre “os mais pobres entre os pobres”, ela desembarcou no dia 11 de janeiro de 2010 no aeroporto certo. O Haiti é o 149° colocado entre 182 países do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 2009, o que lhe rende o título de nação mais pobre das Américas.
Vanderlúcia da Silva, assessora da Pastoral da Criança Internacional (PCI), explica que o trabalho da organização no país caribenho era recente e consistia, até o presente, em troca de informações. Alguns delegados haviam visitado a Pastoral no Brasil e, em outra ocasião, foi feita uma capacitação na República Dominicana, nação vizinha. “Eles estavam muito animados para começar o trabalho no Haiti, então a doutora Zilda foi para essa viagem de mobilização”, diz.
Quando o terremoto abalou as estruturas da igreja em Porto Príncipe onde a líder falava para 150 pessoas, ela havia acabado de proferir um discurso em espanhol no qual contava um pouco sobre sua história de vida e da Pastoral e sobre as bases e funcionamento do trabalho da entidade. Naturalmente, falou de Deus e de religião, mas especialmente da responsabilidade da Igreja Católica no mundo inteiro, como instituição com poder e abrangência, de ajudar os pobres na prática e trazendo resultados. “Estou convencida de que a solução para a maioria dos problemas sociais está relacionada com a redução urgente das desigualdades sociais, a eliminação da corrupção, a promoção da justiça social, o acesso à saúde e à educação de qualidade, a ajuda mútua financeira e técnica entre as nações”, discursou, pouco antes de o teto atingi-la.
Expansão da solidariedade
Essa foi, afinal, a motivação que levou à criação da Pastoral da Criança Internacional no fim de 2008, quando Zilda Arns já havia deixado a coordenação nacional. Multiplicar o conhecimento, metodologia e knowhow da Pastoral da Criança brasileira, que ainda hoje inspira políticas públicas, chega onde o Estado não consegue e melhora drasticamente os índices de mortalidade infantil, saúde e educação da mulher e das crianças por onde passa.
A fórmula não é secreta. Pelo contrário. A Doutora Zilda, pediatra, sanitarista e gestora, desenvolveu, de um lado, a técnica da “multimistura”, um alimento altamente nutritivo para ser produzido pelos voluntários com restos de comida em geral descartados e também produtos locais. E para fazer a ideia funcionar, criou um sistema descentralizado hoje com 240 mil voluntários, uma rede capilarizada e um sistema de informação eletrônico que permite um feedback para os líderes comunitários, a medição de indicadores, avaliação de resultados e a melhora do atendimento.
O mesmo está sendo feito nos 19 países com atuação da PCI, e o objetivo de Zilda era ampliar essa abrangência. “Eu gostaria de levar para fora a metodologia da Pastoral da Criança para outros países poderem também avançar e trazer os frutos que já temos no Brasil”, falou-me na entrevista de 2006. “Então começamos pouco a pouco, mas que o trabalho se multiplica rapidamente. Em Angola, onde fui durante a guerra civil, capacitei 17 mulheres. Hoje, eles estão cuidando de 51 mil crianças e já têm muito mais voluntários, está espalhado”, lembrou.
Vanderlúcia, assessora da PCI, conta que com a criação da Pastoral Internacional os trabalhos em outros países foram intensificados e Zilda pôde dar mais apoio às ações e aos líderes. “Ela viajou para mobilizar e articular as lideranças locais, ONGs, governo, igreja e comunidade, para que apoiassem o trabalho”, afirma. “Fizemos capacitações nos países com a metodologia da Pastoral levando em conta os problemas e o contexto sócio-político local, com materiais na língua da população.”
Agenda e prêmios
Depois do Haiti, Zilda Arns estava com a agenda internacional cheia até o fim do ano. Em fevereiro visitaria o Uruguai e a Colômbia, em março o México e o Paraguai. Maio seria a vez da Argentina, junho da República Dominicana e, em outubro, viajaria para Angola e Guiné-Bissau. Além desses países, Moçambique, Timor Leste, Honduras, Venezuela, Bolívia, Peru, Panamá, Guatemala, Filipinas e Guiné já possuem atividades da PCI, muitas delas acompanhadas pessoalmente pela líder da entidade durante 2009. “Muitas das nossas ações planejadas para 2010 e 2011 contavam com a presença da Doutora Zilda, mas vamos readequá-las e dar continuidade ao trabalho”, diz Vanderlúcia.

A fundadora da Pastoral visitou crianças em Timor Leste (foto acima) e em outras dezenas de países
Além da presença nas capacitações e mobilização de líderes locais, Zilda divulgava as ações da Pastoral pelo mundo afora, fosse por meio de seminários e eventos, como a Sessão Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas sobre Crianças de maio de 2002 em Nova York, Estados Unidos, ou por prêmios. Em 2006 foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz junto a outras 999 mulheres do mundo, em 2007 recebeu o Woodrow Wilson, da Woodrow Wilson Foundation, e no ano anterior ganhou o Opus Prize, da Opus Prize Foundation. Durante nossa conversa, ela tinha acabado de receber o último. “Ganhei agora o prêmio da Opus Prize e o dediquei para podermos ajudar a consolidar a Pastoral da Criança em outros países”, disse.
Em sua mensagem de condolências pelo falecimento da irmã, o Cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, lamentou o ocorrido, mas demonstrou segurança na força do trabalho construído por Zilda. “Não é hora de perder a esperança. Ela morreu de uma maneira muito bonita, morreu na causa que sempre acreditou”.
Assista a um comercial da Pastoral veiculado na TV:
* Especial para o Opera Mundi.
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