Terça-feira, 12 de maio de 2026
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De mãos dadas, observando o movimento, duas senhoras de 68 anos são reconhecidas no meio da multidão. Sorridentes e esbanjando vitalidade, não recusam nenhum pedido de fotos, beijos e abraços das dezenas de admiradores e curiosos que se aproximam para cumprimentá-las durante a 19ª. Marcha do Orgulho Gay, que reuniu cerca de 100 mil pessoas ontem em Buenos Aires.

Luciana Taddeo



A parada gay de Buenos Aires, que começa na Casa Rosada e vai até o congresso, acontece há 19 anos

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Primeiro casal de mulheres a se casar em território argentino, Norma Castillo e a uruguaia Cachita Arévalo foram um dos principais símbolos e referências da comunidade gay argentina, antes da aprovação pelo senado, em julho deste ano, de uma lei que autoriza o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Juntas há 31 anos, as duas tiveram que entrar com um recurso na justiça para poder se casar e realizaram a cerimônia em abril deste ano, antes da aprovação da lei do matrimônio igualitário. Hoje, mostram contentamento pelo recente direito adquirido pelos homossexuais: “Este avanço é maravilhoso, antes nem podíamos dizer que éramos lésbicas. Saber que a repressão ficou no passado deste país é algo grandioso, que às vezes não consigo acreditar”, afirmou ao Opera Mundi Norma, presidente do primeiro centro de aposentados LBGT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) do país.

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Luciana Taddeo




Norma Castillo e Cachita Arévalose casaram abril deste ano, antes da aprovação da lei do matrimônio igualitário



Assim como ela, muitos celebraram o marco histórico para a comunidade. Cartazes de agradecimento ao ex-presidente Néstor Kirchner e a atual, Cristina, se perdiam em um mar de bandeiras coloridas, perucas, corpos seminus, fantasias e muita, muita maquiagem, durante o trajeto que começou em frente à Casa Rosada, sede do governo, e percorreu a Avenida de Maio até o congresso argentino.

No ano passado, a marcha do orgulho reuniu cerca de 60 mil pessoas e o crescimento da adesão se deve a esta conquista, segundo o secretário da Comunidade Homossexual Argentina (CHA), Marcelo Suntheim: “A sociedade aceitou muito bem esta lei de igualdade entre casais do mesmo sexo ou de sexos diferentes. A aprovação foi resultado de uma discussão nacional de muitos anos, que está permitindo que a sociedade mude a forma de encarar a diversidade e que as pessoas se assumam”, explicou.

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Reivindicações

Apesar do clima de comemoração, os cartazes levantados no meio da multidão não deixavam de lado o caráter reivindicatório, pedindo, de “respeito” e “visibilidade” a novas leis, como a da legalização do aborto e de igualdade de gênero, que facilitaria a tramitação de alteração de nome e sexo de travestis, transexuais e transgêneros no registro civil.

Carla Morales, de 30 anos, era uma das mais entusiasmadas com a causa. Há dois meses, entrou com um pedido na justiça para mudar o nome de seu documento de identidade, onde consta como Carlos Morales. “Não sou homem nem mulher, mas como minha imagem é feminina, prefiro que meu nome seja Carla. O ideal seria que não existisse a opção de sexo na cédula, como H ou M, porque se colocarem um T, eu também sofrerei discriminação”, disse.

Luciana Taddeo



Casal de lésbicas segura cartazes com agradecimentos aos presidentes Néstor e Cristina Kirchner

Carla afirma que prefere o termo transgênero a travesti: “A palavra travesti tem uma conotação social muito forte, geralmente associada à noite, drogas e prostituição, então tiramos este estigma, eu não trabalho na rua”, explicou.

Já Diana Sacayan, coordenadora regional do Movimento Anti-discriminatório de Liberação, que trabalha com projetos educativos para a comunidade LGBT, afirma que não mudará seu gênero na cédula de identidade. “Sou travesti e quero que o estado me reconheça, mas não como mulher. O estado tem que cuidar da gente não só com reconhecimento de nome, mas com políticas públicas mais amplas, que garantam nossa saúde. Eu coloquei silicone e corri o risco de morrer na mesa de cirurgia, como aconteceu com muitas companheiras, porque esta operação é ilegal.”

Carregando o filho no colo durante toda a marcha, Gabriela Bacil, da organização Lesmadres, integrada por mães lésbicas e casais de mulheres que querem ser mães, explica que a sanção da lei também passou a habilitar o registro de uma criança como filho de duas pessoas do mesmo sexo. “Mas isso só acontece com os que nasceram a partir de julho. Nossa luta agora é que os filhos que nasceram antes da aprovação da lei também tenham a possibilidade de ser reconhecidos com estes mesmos direitos”, disse.

“Putos Peronistas”

O estudante de arte, Martin Perez, da organização Putos Peronistas, conta que “saiu do armário” aos 17 anos. “Sou do interior e venho de um contexto muito mais conservador. Por isso, ainda não contei para os meus pais que sou gay, mas venho aqui manifestar meu orgulho”. Aos 22 anos, Martin afirma que o nome da organização, apesar de chocante a princípio, visa eliminar o teor pejorativo da palavra “puto”, que em espanhol significa “gay”.

O estudante trabalha com a inclusão social e conscientização sexual de travestis. Segundo ele, seus pais somente sabem que trabalha em uma organização política, sem mais detalhes. “Fomos ao congresso e à câmara de deputados para expor nossa posição sobre o matrimônio no período em que discutiam a lei. Ver esta vitória e tanta gente reunida aqui hoje mostra muita evolução da consciência política de nossa juventude em relação à última década. Esta marcha é a manifestação do povo”, concluiu.

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Na primeira marcha após lei do casamento gay, argentinos pedem ampliação de direitos

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