Terça-feira, 28 de abril de 2026
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Um bom local para desvendar os habitantes de uma cidade são os cemitérios. Em Culiacán, no estado mexicano de Sinaloa, não é diferente. Nos Jardins de Humaya, cemitério local, há capelas particulares de até três andares, algumas decoradas com mármore rosa, ar-condicionado no interior, fotografias gigantescas dos mortos e reproduções de aviões e caminhões para aqueles que transportavam droga a outras regiões e países. Na capital do narcotráfico mexicano, os criminosos levam para o leito de morte o status adquirido em vida. 

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“Aqui, a família de um chefão do tráfico pode gastar até 800 mil pesos (112 mil reais) com uma capela, 250 mil pesos (35 mil reais) na decoração e 700 mil pesos (98 mil reais) na preparação do corpo”, contou ao Opera Mundi José Angel, diretor da funerária San Martin, a mais importante da cidade.

Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi



As “narcotumbas” de Culiacán chegam a ter três andares e são feitas de mármore e outros materiais caros. Veja mais imagens aqui

“Há casos em que o morto foi enterrado embalsamado, dirigindo uma picape nova. O negócio das funerárias é um dos mais prósperos aqui. Há dias em que preparamos até 35 cadáveres, obviamente de pessoas mortas a tiros. Em alguns casos os rostos estão tão desfigurados que precisamos usar latas de cerveja modeladas para reconstruir parte da face. Depois, colocamos cera e pintamos, até que o rosto se pareça com o da foto do morto. E é melhor não errar com essa gente”, disse José.

Em Culiacán, a violência faz parte do dia a dia. Segundo dados do Serviço Médico Forense mexicano, somente na cidade, de 600 mil habitantes, o número de homicídios quase dobrou a partir de 2008, passando de 697 em 2007 para mais de mil por ano. Nomes temidos como Joaquin “el Chapo” Guzmán, Ismael “el Mayo” Zambada e os irmãos Beltran Leyva – narcotraficantes famosos – desenvolveram na cidade seus negócios ilegais e transformaram a região numa das mais perigosas de todo o México. 

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“A guerra começou quando capturaram Alfredo Beltran Leyva, 'el Mochomo', antigo sócio de 'el Chapo'”, explicou Luis, um fotojornalista local que cobre há anos o narcotráfico e os intermináveis tiroteios. Beltran Leyva foi preso em uma operação da polícia federal em janeiro de 2008. “'El Chapo' foi acusado de trair o ex-aliado e desde então há um embate entre o cartel de Sinaloa, chefiado por 'el Chapo' Guzmán e o cartel dos Beltran Leyva.”

Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi



Infância em meio à violência: crianças observam poça de sangue deixada após assassinato em Culiacán. Veja mais imagens aqui

Na cidade dos cartéis, é fácil perceber a presença do crime organizado. O que chama a atenção à primeira vista nas ruas é a quantidade de picapes de luxo, principalmente nos modelos Chevrolet Cheyenne e Dodge Ram 2500, com os vidros cobertos com insulfilm e sem placas.

“São as favoritas dos gatilleros (pistoleiros)”, conta Luis. “Você os vê passar nesses veículos e sabe quem são. E com eles ninguém se mete. A verdade é que, quando há um tiroteio, a polícia nem sequer intervém, por medo ou porque está vendida aos diversos cartéis. Os homicídios não são investigados. Todo mundo sabe quem mata e quem morre, mas é simplesmente um assunto dos cartéis, os que mandam de verdade. Não existe lei além da deles. E todos obedecem.”

O Boulevard Pedro Infante é uma avenida ampla, decorada com palmeiras. É a área das concessionárias de automóveis: Volvo, Lincoln, Audi, Ford, ficam lado a lado de casas e condomínios de luxo. Entre os carros e lojas exclusivas, notam-se muitas cruzes, decoradas com flores, fotos, campânulas.

Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi



Nas ruas de Culiacán, cruzes lembram aqueles que perderam a vida no narcotráfico. Veja mais imagens aqui



Dezenas de cruzes espalhadas pela cidade lembram os mortos na guerra entre cartéis iniciada no começo de 2008, que provocou um aumento sem precedentes da violência em Sinaloa.

Entre elas, a maior é a de Édgar Guzmán, filho de “ElChapo”, morto em 9 de maio de 2008 em confronto com membros do cartel dos Beltran Leyva, que vingavam a prisão de Alfredo Beltran Leyva. No lugar da matança, em um centro comercial, foram encontradas mais de 1,5 mil cápsulas de balas calibre 7.62, usadas em armas AK-47, ou o “chifre de bode”, fuzil preferido dos narcotraficantes.

“El Chapo”

Joaquin “el Chapo” Guzmán é o narcotraficante mais procurado pelo governo mexicano e o segundo na lista dos mais procurados do FBI, atrás somente do saudita Osama Bin Laden. O governo norte-americano oferece cinco milhões de dólares pelo traficante, foragido desde 2001, quando escapou da prisão após a Justiça mexicana ter autorizado sua extradição aos EUA.

Segundo a revista norte-americana Forbes, nos últimos dois anos, Guzmán ampliou seu controle no México sobre os corredores utilizados para introduzir cocaína e maconha nos EUA. “Muitos dos rivais de Guzmán caíram ou se enfraqueceram devido à sangrenta guerra entre o exército mexicano e os cartéis, que já causou milhares de mortes”, afirmou a publicação, que calcula em um bilhão de dólares a fortuna do criminoso.

Em 2006, o então recém-empossado presidente Felipe Calderón decidiu militarizar o combate ao narcotráfico com a mobilização de 50 mil soldados do Exército. Desde então, mais de 40 mil pessoas morreram em situações ligadas ao crime.

De acordo com dados do Departamento de Estado dos EUA, cerca de 420 mil pessoas estão envolvidas em atividades relacionadas com drogas, com 150 mil delas armadas e de 60% a 90% da cocaína consumida no país sai do México. 

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Na capital do narcotráfico mexicano, sepulturas com ar-condicionado e picapes de luxo nas ruas

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