Mutilados da guerra esperam reintegração à sociedade em El Salvador
Mutilados da guerra esperam reintegração à sociedade em El Salvador
Alfonso Chávez ainda guarda a lembrança dolorosa de quando, em plena adolescência, foi recrutado pelo exército salvadorenho para combater a guerrilha esquerdista que tentava chegar ao poder na guerra civil salvadorenha (1980-1992). Quase duas décadas depois, ele está inválido, sem nenhuma ajuda econômica e com uma família para sustentar.
O presidente Lula chegou na noite de ontem (25) para uma visita oficial a El Salvador, onde, segundo estimativas da Comissão da Verdade das Nações Unidas, 75 mil pessoas perderam a vida, oito mil estão desaparecidas e outras 40 mil mutiladas pela guerra. O Brasil custeará por meio de empréstimos uma série de projetos no empobrecido país.
Leonardo Baldovinos/Opera Mundi

Alfonso: “os governos anteriores não fizeram nada pelos mutilados de guerra”
“Se no passado combatemos, porque hoje eles (o exército), em vez de me estender a mão, fazem o contrário? Quando estava bem de saúde, eu era soldado. Agora que tenho uma deficiência, não valho nada”, disse Alfonso ao Opera Mundi. Ele nasceu no município de San Juan Tepezonte, no departamento central de La Paz, e cresceu na zona rural com a família, que se dedicava à agricultura. No entanto, aos 16 anos, foi recrutado pelas forças armadas.
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Dois anos depois, Alfonso combatia a FMLN (Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional) no departamento (estado) de Chalatenango, no norte do país, região controlada pela guerrilha e onde ocorreram intensos combates.
Alfonso, que pertencia à Quarta Brigada de Infantaria, conta que, ao fim de quase duas horas de confronto com “os rebeldes” esquerdistas, uma rajada de tiros o atingiu e, momentos depois, uma bala destroçou sua perna direita, deixando-o caído no chão, inconsciente.
O soldado recebeu cuidados médicos e uma prótese para poder caminhar. No entanto, depois da assinatura dos Acordos de Paz, em 16 de janeiro de 1992, no México, Alfonso Chávez, como muitos inválidos da guerra, foi esquecido pelo exército e pelo governo, embora a assistência estivesse prevista no pacto.
“É duro enfrentar essa situação. Eu não aceitava, pois não conseguia controlar a prótese. Mas com o tempo, a gente se acostuma”, disse ele.
Cotas pendentes
Mas os milhares de mutilados não só têm de sobreviver sem algum de seus membros, como também o Estado lhes deve dois anos de pensões, relativas a 1993-1995. Israel García, presidente da Alges (Associação de Mutilados de Guerra de El Salvador), explicou ao Opera Mundi que o governo deve ao grupo cerca de 19,5 milhões de dólares em pensões.
Apesar das pressões exercidas pelo grupo durante mais de uma década sobre os governos da direitista Arena (Aliança Republicana Nacionalista), que manteve o poder por 20 anos, as autoridades negaram-se a saldar a dívida. As vítimas optaram por protestar nas ruas continuamente, mostrando suas lesões e cicatrizes aos transeuntes, vestindo apenas roupas íntimas e carregando uma cruz.
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“Os governos anteriores não fizeram nada pelos mutilados de guerra e estamos muito decepcionados. Não ficamos satisfeitos, pois eles foram pessoas más”, afirmou Alfonso.
O protesto mais recente aconteceu em janeiro passado, às vésperas da comemoração dos 18 anos dos Acordos de Paz. Os mutilados ocuparam a Catedral de San Salvador, principal templo do país, para exigir os pagamentos e programas para sua reintegração à sociedade.
Durante a cerimônia de comemoração do tratado de paz, o governo salvadorenho pediu perdão pela primeira vez pelos crimes e violações dos direitos humanos cometidos pelo Estado na guerra civil. O presidente salvadorenho, o esquerdista Mauricio Funes, afirmou que forças militares e paramilitares cometeram graves abusos contra a população civil. “Por tudo o que aconteceu, em nome do Estado salvadorenho, peço perdão”, declarou o presidente.
Funes anunciou a criação de uma comissão para promover a implementação de medidas de reparação das vítimas, assim como um grupo de busca de soldados desaparecidos no conflito. Ele prometeu ainda o pagamento das pensões e programas de inclusão dos mutilados. “Estamos contentes porque, finalmente, um presidente vai nos pagar uma dívida”, disse Chávez, que espera os primeiros pagamentos nos próximos meses.
Funes e a economia
Mauricio Funes, que assumiu as rédeas do país centroamericano em junho de 2009, tornando-se o primeiro presidente esquerdista de sua história, enfrenta problemas financeiros para implementar suas políticas sociais.
Para isso, ele busca o financiamento dos bancos multilaterais e o apoio de países com economias sólidas. Um deles é o Brasil, cujo presidente viajou a El Salvador para uma visita de dois dias. Lula concederá um empréstimo de 500 milhões de dólares a fim de custear várias políticas de Funes para os próximos quatro anos de governo.
Um comunicado da Chancelaria afirmou que El Salvador e Brasil assinarão diversos acordos nas áreas “social, científica, técnica e financeira, esta última relacionada a um importante empréstimo por parte do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)”. O presidente salvadorenho disse que estes programas servirão para gerar empregos, reativar a agricultura e dinamizar a economia.
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