Moradores do bairro 23 de Janeiro são a célula-mãe do chavismo
Moradores do bairro 23 de Janeiro são a célula-mãe do chavismo
Conforme se sobe as escadas da estação Agua Salud do metrô caraquenho, o infernal barulho de motocicletas e buzinas anuncia a chegada a 23 de Enero, bairro a oeste de Caracas. A primeira impressão é de que se trata de mais um bairro popular latino-americano, tomado por casas humildes de alvenaria incrustadas nos morros da localidade. Mas 23 de Enero se destaca pela profunda mobilização popular, anterior à chegada do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao poder, em 1999.
“A diferença principal de 23 de Enero com outros bairros chavistas é exatamente o fato de que, mesmo antes da eleição de Chávez, aqui já havia intensas manifestações políticas de esquerda”, conta Gustavo Borges, líder comunitário e ativista político, enquanto aponta para um grande complexo residencial, construído durante o governo do general Marcos Pérez Jiménez (1952-1958) – o nome do bairro lembra a data da queda do ditador.
“Há dois anos, esse prédio ainda tinha marcas de balas disparadas pela repressão”, continua Borges. De acordo com ele, houve ocasiões em que o exército cercou o bairro com tanques e soldados portando armas de alto calibre: “Só não usaram artilharia aérea”, conta às gargalhadas. Borges se refere ao período conhecido como “Caracazo”, em 1989, quando 23 de Enero teve um papel protagonista de resistência.
Leia mais:
Depois de dois anos difíceis, Venezuela espera superar crise econômica após as eleições
Chávez busca manter maioria na Assembleia Legislativa em eleições parlamentares
Em reta final na Venezuela, Chávez pede vitória arrasadora e campanha incentiva eleitores a votar
Oposição e governo encerram campanha eleitoral pedindo à população que vote
O episódio foi uma explosão social espontânea de três dias em repúdio a um pacote de medidas econômicas apresentado pelo presidente Carlos Andrés Pérez (1974-1979 e 1989-1973), que incluía o aumento dos preços dos transportes públicos e da gasolina. O preço do barril do petróleo – principal produto de exportação venezuelano – havia caído expressivamente nos anos anteriores e para conseguir um empréstimo, Pérez decidiu seguir o pacote: o preço dos bilhetes de transporte aumentaria 30% , mas na prática, chegou a 100%.
A população se revoltou e foi às ruas protestar. Muitos em 23 de Enero morreram, segundo Borges. O total de mortos nunca foi revelado, mas grupos de direitos humanos conseguiram contar cerca de 400 mortos, enquanto centros médicos registraram de mil a 1,5 mil pessoas assassinadas.
No golpe de Estado contra Chávez, em 2002, organizado pela elite venezuelana e meios de comunicação oposicionistas, a ida às ruas de habitantes de 23 de Enero, como de outros bairros humildes como Catia e Petare, foi fundamental para a volta do presidente ao poder. É em 23 de Enero que Chávez vota, em uma escola escondida nas diversas vielas que cortam o bairro.
Caminhando pelas ruas do bairro, problemas como o acúmulo de lixo nas calçadas são flagrantes. Além disso, a principal opção de transporte dentro de 23 de Enero, os ônibus, são mal conservados e pouco confortáveis. No entanto, a satisfação dos moradores com os anos de chavismo é evidente: “Chávez é o melhor presidente que esse país já teve, agradeço todos os dias a Deus por ele existir”, afirma uma simpatizante do presidente, conforme espera ansiosa sua passagem em carreata pela avenida principal de 23 de Enero.
Marina Terra

No dia, véspera do fim da campanha para as eleições parlamentares, centenas de apoiadores aguardavam ansiosamente para saudar o presidente, e assim que Chávez passou, trajando vermelho como a multidão, um simples aceno seu provocou uma histeria coletiva, marcada por gritos de “comandante!” e algumas lágrimas.
Borges confirma o aspecto quase messiânico que o presidente adquiriu entre a população ao longo dos 11 anos de governo. “Um colega me disse que depositava restos de ferro e aço ao lado de um container. Quando lhe perguntei por que não os colocava dentro, como deveria ser, respondeu: ‘Mesmo estando fora, os funcionários tiram os restos de lá, porque se o presidente passa aqui e vê, dá ordens para que o lixo seja coletado imediatamente’. O sentimento geral é esse, que Chávez é onipresente”, afirma. De fato, o presidente desempenha um papel próximo ao de um “vigilante” das questões do governo, e não raramente protagoniza todas as ações ligadas ao Estado.
O candidato do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) do circuito 2 de 12 de Enero à Assembleia Nacional é Robert Serra que, em bem menor grau que o presidente, detém enorme popularidade. Suas propostas políticas pregam a continuidade dos projetos governamentais no bairro. Iniciativas como a Missão Milagre, destinada a realizar cirurgias oftalmológicas gratuitas; Mercal, programa que concede alimentos e outros produtos com desconto e Bairro Adentro, instalações hospitalares de primeiros socorros dentro das comunidades, são apontadas pela população como revolucionárias.
“Bairro Adentro funciona muito bem.Uma conhecida da minha esposa – francesa – chegou à Caracas com dengue e gastou cerca de seis mil bolivares em tratamento, pagos pelo seguro de saúde. Depois, minha esposa também contraiu dengue e foi tratada de graça em uma unidade de Bairro Adentro”, conta Borges.
Segurança
A exemplo de outros locais em Caracas, os muros de 23 de Enero são decorados com murais em homenagem a Chávez, ao herói libertador Simon Bolívar e a outras figuras da esquerda, como Che Guevara e também a organização argentina Mães da Praça de Maio. “Sou tupamaro e apoio Chávez. Aqui, ninguém gosta daqueles ‘esquálidos’. Mas tome cuidado, há muitos ‘malandros’ no bairro. Comigo não tem problema, porque sou rápido com a pistola”, relata um morador entre risos. O MRT (Movimento Revolucionários Tupamaro), agrupação de extrema esquerda, começou suas atividades em 23 de Enero após a repressão em 1989 e hoje apóia o PSUV, apesar de não estar mais ativa no bairro.
Marina Terra

O problema da violência na Venezuela, um dos principais temas da campanha para as eleições parlamentares, é interpretado da seguinte forma por Borges: “Aqui há violência, mas não há insegurança. Existem problemas e incidentes, mas ninguém se tranca em casa à noite nos bairros de Caracas.”
De acordo com o instituto de pesquisa Datanalisis, a violência era a principal preocupação de 85% da população venezuelana em 2009, sendo que 80% das pessoas entrevistadas pertencia às camadas mais pobres. O governo parou de divulgar estatísticas anuais de homicídios em 2005, mas o Ministério da Justiça informou em 2008 que a média no país era de 152 por semana, ou seja, quase 7,9 mil por ano. Na média, eram 64,2 assassinatos para cada 100 mil habitantes. No mesmo ano, o Brasil tinha 51,6 e El Salvador, o mais perigoso no ranking de países latino-americanos, 92,3. Os dados são do brasileiro Instituto Sangari, que usou como fonte principal o Sistema de Informação Estatística da OMS (Organização Mundial de Saúde), com dados de 2002 a 2006.
“É preciso lembrar que a polícia tem grande influência nesse contexto, pois possui um histórico de repressão”, diz Borges. De fato, um em cada cinco assassinatos na Venezuela é cometido por policiais. Uma das maiores críticas feitas a Chávez é a de que ele demorou para iniciar uma reforma do setor de segurança, confiando que a melhora na distribuição de renda naturalmente diminuiria a violência. Algo que não aconteceu.
Desde dezembro de 2009 está em curso o projeto-piloto da Polícia Nacional Bolivariana na favela de Catia, onde a criminalidade caiu 80%, segundo dados oficiais. Há planos de estender a experiência a outras localidades na Venezuela.
“O que acontece é que todos tratam de buscar empecilhos para o governo do presidente Hugo Chávez, mas jamais conseguirão derrubá-lo. O povo não deixará”, afirma com entusiasmo uma senhora de idade, conforme tenta embarcar em um dos trens da estação Agua Salud.
Siga o Opera Mundi no Twitter
NULL
NULL
NULL























