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O ano de 2010 marcou a vida de 33 trabalhadores que ficaram presos por mais de dois meses nas profundezas do deserto do Atacama, após o desabamento em uma mina de cobre e ouro no norte do Chile. Após uma operação de resgate que atraiu a atenção de familiares, políticos, jornalistas e espectadores de todo o mundo, a vida de muitos deles mudou.

O boliviano Carlos Mamani, de 25 anos, único estrangeiro entre as vítimas, trabalhava na mina San José havia apenas cinco dias quando aconteceu o acidente. O Opera Mundi esteve em sua casa em Copiapó, no Chile, na última noite do ano, quando comemorou a chegada de 2011 e a despedida de 2010 – ano do qual nunca se esquecerá.

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Com uma garrafa de champanhe na mão, o boliviano comemorou o fim do ano em sua atual casa. Erguida com paredes de papelão e madeira, a residência fica em um terreno ocupado na região periférica mais pobre de Copiapó, onde vivem muitos imigrantes, que fica a cerca de 45 quilômetros da mina.

Luciana Taddeo/Opera Mundi

 

Com a família, Carlos inaugura a casa nova e agradece à Pachamama pela conquista



Localizada na base de um dos morros que contornam a cidade, a casa de Carlos é a última da íngreme subida de terra que dá acesso ao terreno ocupado. Verónica, sua esposa de apenas 21 anos, abre a porta e segue por um labirinto de cercas e lençóis que dividem sua casa da outra de seu pai, Johnny Quispe, também boliviano e ex-trabalhador da San José.

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Carlos conseguiu emprego na mina por recomendação do sogro, que também estava no local na hora do desmoronamento, dirigindo um caminhão que transportava água e que, por uma questão de segundos, conseguiu escapar. Sentando em uma sala com paredes de madeira e papelão cobertas de propagandas, ele descreve o barulho das pedras se desprendendo das rochas e a crescente nuvem de poeira que ocupava a galeria por onde conseguiu fugir.

“Eu sou o mineiro 34”, afirma o sogro, com certa amargura, levantando uma cerveja à frente de outras latinhas já vazias.

Ceia de ano novo

Enquanto Johnny Quispe falava, as mulheres da família preparavam bandejas com pedaços de frango, carne, linguiça, batata e banana, em um forno de pedra instalado no quintal da casa.

Luciana Taddeo/Opera Mundi



Carlos, que conseguiu emprego na mina por recomendação do sogro, comemora reveillon com a família

À meia noite, após abraços e desejos de feliz ano novo, toda a família – inclusive a filhinha de um ano, Emily, e uma dezena de parentes – se reuniu na entrada da casa, de onde se podia ver a cidade iluminada, para assistir aos fogos de artifício e à queima de grandes bonecos nas ruas, como manda a tradição na região. O réveillon foi também uma despedida, já que o mineiro pretende se mudar para uma nova casa recém-comprada, ainda na primeira semana de janeiro.

“Eu tinha três desejos: um filho, uma casa e um carro”, contou Carlos ao Opera Mundi. “Ao fim de 2010, dois deles já estão realizados: tenho uma filhinha linda e consegui comprar uma casa”.

Contraste

Conhecido no Chile como “o mineiro esquecido”, Carlos Mamani não seguiu os passos da maioria dos seus companheiros que viveram o mesmo acidente, e que aproveitaram a notoriedade recebida com o resgate, televisionado em quase todo o mundo, e viajaram por vários países, participando de eventos e aceitando comodidades oferecidas em troca de entrevistas.

Edison Peña, por exemplo, foi convidado do programa de entrevistas do norte-americano David Letterman e, no sábado (1º/1), esteve no aniversário de nascimento do cantor Elvis Presley, em Memphis, nos Estados Unidos, chegando em um Cadillac 1956 cor-de-rosa. Em compensação, Mamani evitou entrevistas e exposição nas primeiras semanas após o resgate.

“Acho que cometi um erro ao fechar as portas para a imprensa”, afirmou o boliviano à imprensa local.

Mudança

Consciente do contraste entre as regalias oferecidas a outros mineiros e sua situação em uma casa construída precariamente em uma região perigosa, sem saneamento básico nem água potável, Mamani chegou a pedir à prefeitura de Copiapó um terreno para construir uma casa, segundo o jornal chileno Las Últimas Noticias.

“A única coisa que me ofereceram foram casas de emergência, construídas com madeira”, afirmou o boliviano na época.

Luciana Taddeo/Opera Mundi

 

No último dia do ano, Carlos se despede da casa com paredes de papelão e comemora a conquista



Em dezembro, ele conquistou a possibilidade de oferecer uma vida melhor à família. A realização se deu após uma campanha iniciada pelo milionário chileno Leonardo Farkas, para arrecadar 1 milhão de dólares para cada uma das vítimas do desabamento na mina.

Gratidão

Durante os meses que antecederam o resgate dos 33 mineiros, Farkas doou 5 milhões de pesos chilenos (equivalente a mais de 10 mil dólares) a cada uma das famílias que esperavam no acampamento Esperanza, junto à mina. Em agradecimento, Mamani convidou Farkas para ser o padrinho de sua filha. Graças à doação, o mineiro irá para um bairro mais cômodo e com melhores condições de vida, também em Copiapó.

Por volta das 2h da madrugada, Carlos Mamani e Verónica para inaugurar a casa nova. Com uma tesoura, cortou uma fita com estampas natalinas e entrou na casa, que pintou e reformou com as próprias mãos. Os convidados jogaram champanhe e cerveja no chão, em agradecimento a Pachamama, a “Mãe Natureza” dos povos andinos.

“Que meus sonhos continuem se realizando”, pediu o mineiro sobrevivente no primeiro dia do ano.

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Mineiro sobrevivente comemora fim do ano em que ficou soterrado no Chile

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