Segunda-feira, 6 de abril de 2026
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Três meses após as eleições legislativas mexicanas, que consagraram a volta do PRI (Partido Revolucionário Institucional) ao poder após 71 anos, as principais formações políticas já estão tentando definir suas estratégias para eleger o presidente em 2012. O conservador PAN (Partido Ação Nacional), de Felipe Calderón, saiu enfraquecido da batalha eleitoral, tal como o PRD (Partido da Revolução Democrática), que representa a esquerda mexicana.

Em entrevista ao Opera Mundi, o economista, deputado federal e coordenador da bancada do PRD no Congresso, criticou a política econômica e social de Calderón, assegurando que o México precisa de uma mudança de modelo. Ele considera que os movimentos sociais, que aumentaram sua atuação com o crescimento da pobreza no país, podem constituir a base de recuperação do PRD, cujo candidato Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO) era o grande favorito nas eleições presidenciais de 2006.

No entanto, as esperanças foram frustradas com a eleição do conservador Calderón, após um processo eleitoral conturbado. O PRD ainda considera que houve fraude. Alejandro Encinas se diz uma vítima. Candidato para o cargo de presidente executivo do PRD em 2008, ele teve sua eleição finalmente cancelada.

Qual é sua avaliação da situação econômica mexicana?

O México afundou-se na pior crise dos últimos oitentas anos. Segundo os últimos números, o PIB (Produto Interno Bruto) recuou mais de 10% durante os últimos doze meses. Desde o começo do ano, 850 mil empregos formais foram destruídos e calcula-se que serão cerca de um milhão até o final de 2009. Mais de cinco milhões de mexicanos estão sem trabalho nenhum. Hoje, mais de 55 milhões de pessoas são consideradas pobres e não há nenhuma expectativa que esse círculo da miséria seja rompido. Doze milhões de pessoas trabalham no setor informal, que é cada vez mais importante. Isso pode gerar fortes tensões sociais.

Qual avaliação o senhor faz das medidas governamentais contra a crise?

Durante o governo de Calderón, cinco milhões de pessoas tornaram-se pobres. E as últimas medidas, que consistem na elevação dos impostos, devem piorar a situação. Desde 2000, o poder aquisitivo da população caiu 47%! Mas não é só o governo de Calderón, é todo o modelo econômico que está errado. Hoje, 10 famílias concentram uma renda de 100 bilhões de dólares, ou a renda somada de 11 milhões de pessoas no país. O empresário Carlos Slim encabeça sozinho uma fortuna de 60 bilhões de dólares. Enquanto isso, a agricultura esta abandonada. Temos cerca de sete milhões de jovens entre 15 a 29 anos que não trabalham, não estudam, não fazem nada. As remessas do exterior estão caindo a um ritmo de 18%: passaram de 24 bilhões de dólares por ano a 18 bilhões, e uma grande parte deste dinheiro estava antes destinada às famílias pobres dos imigrantes. Isso gera uma ruptura do tecido social muito preocupante, como um risco crescente de instabilidade.

Calderón fez da batalha contra o narcotráfico o eixo de sua política. Qual é a sua avaliação?

É uma política totalmente derrotada. Vivemos em um clima de violência inédito. Desde a posse de Calderón, mais de 13 mil pessoas foram assassinadas em nome da guerra do tráfico. Ou seja, temos uma média de 14 execuções por dia! Isso demonstra que a política de combate ao crime do governo não funciona. O presidente mandou milhares de soldados às ruas e obteve da justiça um endurecimento das penas nas cadeias, mas isso não resolve nada.

Por que a presença militar não consegue acabar com o tráfico?

O governo pode conseguir desmantelar alguns cartéis, mas outros nascem para ocupar o território abandonado. O problema principal é que ninguém presta atenção ao poder econômico, ou seja, à enorme indústria de lavagem de dinheiro. Basta caminhar dos bairros ricos da cidade do México para ver o problema. A avenida Mazarick tem mais lojas de luxo que qualquer capital européia. No bairro de Santa Fé, que nos chamamos de nova Manhattan, há milhares de apartamentos vazios. É só lavagem de dinheiro.

Em 2000, o México viveu uma grande efervescência com o final da era do PRI, que tinha durado 71 anos. Em 2006, a esquerda esperava eleger Andrés Manuel Lopez Obrador também com muito entusiasmo. Hoje, parece que a desilusão é geral no panorama político…

Podemos dizer que toda a vida política esta em franca deterioração no México. O nosso partido, o PRD, perdeu muito durante as ultimas eleições por causa de conflitos internos, mas foi um fracasso também para o PAN, do presidente Calderón, que demonstrou durante os três primeiros anos de seu mandato incapacidade para governar. O único partido que se sai bem é o PRI, que capitaliza sobre a crise política, econômica e moral. No final das contas, uma parte da população prefere uma estabilidade com corrupção e autoritarismo a uma política caótica, sem perspectiva de crescimento e com um aumento constante da violência.

A apatia se estende ao terreno social?

Pelo contrário. Está surgindo uma nova onda de conflitos sociais, incentivada pelo setor rural, pelas comunidades indígenas e pelos pobres das cidades, que são aqueles que sofrem mais com a crise. As corporações organizadas também protestam, para a defesa dos direitos trabalhistas, que o governo quer fragilizar, ou por exemplo, contra a alta do preço da gasolina. Todos os dias há um bloqueio de estrada ou uma manifestação.

Qual é a resposta do governo?

Do ponto de vista político, não faz nada. Concretamente, estamos retornando à uma época de repressão dos movimentos sociais, facilitada pela presença ampla do Exército em zonas onde não deveria estar. Por exemplo, os soldados pretendem fazer uma operação contra a pirataria, e aproveitam para levar alguns líderes sociais.

Qual é a conseqüência da presença ampla do Exército?

É muito grave. Primeiro, porque é uma medida ilegal. Segundo, de acordo com a Constituição mexicana, as Forças Armadas devem garantir a integridade da soberania nacional. O combate ao crime é uma responsabilidade civil. Não tem nenhuma ambigüidade em relação à separação das tarefas. Hoje, temos no país inteiro mais de 55 mil soldados que estão fazendo o trabalho do poder civil. Em estados como Guerrero Michoacan, Chihuahua e Baja Califórnia, eles tomam literalmente o poder. Ou seja, instalam soldados dentro do palácio do governo, contra a vontade do governador, ocupam as delegacias da polícia municipal e recuperam suas armas etc. A pergunta é “como fazer para que os soldados regressem aos cartéis?”. Apesar do fato que eles não estão ganhando a guerra contra o tráfico, não podem voltar derrotados, seria um desastre para a imagem das Forças Armadas. O resultado disso é que eles viraram uma força política com que se deve contar. Aliás, já estamos vendo alguns generais com um verdadeiro poder territorial. Sem falar do risco de que uma parte dos soldados comece a atuar diretamente no tráfico de droga.

Quais são as suas propostas para evitar que o México afunde em uma crise ainda maior?

Existem duas necessidades. A primeira é realizar uma reforma política, para que o regime seja menos presidencialista. Temos que dar mais autonomia aos municípios e aos governos de estados. A segunda é mudar profundamente o modelo econômico. O nosso sistema está esgotado. Todos os recursos do Estado dependiam do petróleo, que está acabando, das remessas, que estão diminuindo, e do turismo, que sofreu muito com o surgimento da gripe A. Desde a assinatura do tratado de livre-comércio do Nafta, com os Estados Unidos e Canadá, a dependência do México em relação à economia norte-americana aumentou de maneira espetacular, o que é perigoso em épocas de recessão como a de agora. Mas a situação é ainda pior: o Nafta acabou com a agricultura mexicana, e provocou um aumento da pobreza. Devemos ter um modelo econômico que se concentre na dinamização do mercado interno, já que temos uma população de mais de 100 milhões de pessoas.

A eleição de Barack Obama pode mudar esta relação?

Obama significa uma muadnaça de geração e de cultura, sem dúvida. Mas os Estados Unidos não têm amigos, só interesses, e isso não mudará.

A dependência econômica em relação aos Estados Unidos se estende ao terreno político?

Totalmente. Basta ver a política externa do México para ver que perdemos toda a autonomia deste ponto de vista. Antes de 2000, apesar da política autoritária do PRI dentro do país, o México tinha uma política externa digna, diversificada e independente dos Estados Unidos. Nunca, por exemplo, rompemos com Cuba e tínhamos relações fortes com o resto da América Latina. Quando chegou o presidente Vicente Fox, em 2000, entramos numa era de frivolidade. Agora passamos à submissão completa aos interesses de Washington. Os países sul-americanos deixaram de nos considerar como latino-americanos.

A subordinação é política, econômica, comercial e inclusive no terreno da defesa. Quando se comprovou que havia dois mexicanos no campo das Farc – bombardeado no Equador pelas Forças Armadas colombianas – o governo nem defendeu seus cidadãos, os tratou como terroristas.

A esquerda mexicana compensou este movimento?

Infelizmente, não. O PRD priorizou as relações com Washington. Abandonamos a América Latina, mas também nossos 24 milhões de mexicanos nos Estados Unidos, com quem poderíamos construir algo para influenciar a política da Casa Branca. Agora, há setores do PRD que até criticam o governo quando este faz um gesto favorável em relação a Cuba. Incrível.

Por que o PRD perdeu as eleições?

Nosso partido esta passando por uma crise muito profunda. A primeira explicação de nossa derrota é que muitos de nossos governos, sejam municipais ou regionais, fracassaram. Não conseguiram demonstrar que eram melhores do que um governo PRI ou PAN. A segunda explicação é que nossa estrutura está totalmente esgotada pela quantidade de conflitos internos. O PRD virou um aparato partidário, com batalhas internas e uma relação escassa com a sociedade.

Hoje, uma parte do partido, que nós representamos com André Manuel Lopez Obrador está em contradição com a cúpula atual. Não temos um discurso político claro. A cúpula atual quer buscar votos ao centro e tem propostas políticas sem sabor nem cor. Pensamos o oposto, que devemos reafirmar nossas raízes na esquerda. O povo não quer moderação, quer uma mudança profunda do modelo de desenvolvimento do país.

Muitos militantes de esquerda ficaram decepcionados pela atuação do partido em 2006, quando Lopes Obrador decidiu ocupar o Paseo da Reforma, uma das principais avenidas da Cidade do México, para forçar uma recontagem total dos votos. Essa medida, que durou mais de dois meses, provocou desemprego na capital. O senhor acha que foi um erro?

Acho que foi uma atitude responsável. Deve-se lembrar que o movimento social estava muito irritado pela fraude e muitos eram a favor de uma confrontação violenta. Ocupar o Paseo da Reforma era uma forma de resistência civil pacífica, que contribuiu muito para a paz social. Na época, eu era chefe do governo da cidade, substituindo Lopez Obrador, que era candidato presidencial, e me lembro bem que esta manifestação não paralisou a cidade, apenas o comércio naquele bairro. O efeito da gripe, por exemplo, foi bem pior.

O grupo de Lopez Obrador perdeu a direção do PRD. Qual é a sua estratégia para ganhar a eleição de 2012 nessas condições?

Perdemos a direção do partido após uma fraude interna. Eu fui eleito e minha eleição foi cancelada. Esperamos recuperar o partido. Hoje não temos o aparato, mas temos algo mais importante: movimentos sociais organizados. Lopez Obrador montou uma estrutura, o movimento em defesa do petróleo, da economia popular e da soberania, que já reúne 2,5 milhões de afiliados. A partir desse grupo, nossa estratégia é elaborar uma nova frente esquerdista com o PRD, mas também com o nosso PT (Partido dos Trabalhadores) e vários movimentos sociais. Assim teríamos figuras capazes de disputar e ganhar a eleição de 2012. O próprio Lopez Obrador, o prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, Amália Garcia.

O mal-estar social ajuda na estruturação do movimento?

Até certo ponto, sim. Se conseguirmos articular o mal-estar para construir uma proposta política, claro. Mas se os conflitos sociais endurecerem, vamos perder terreno. A esquerda sempre perde em uma situação de explosão social, porque os reflexos conservadores da população voltam.

Se sua estratégia de recuperação da direção do partido fracassar, qual seria a próxima etapa? Criar um novo partido?

Infelizmente, é impossível. A lei proíbe a criação de novos partidos até 2012. Nesse caso, teríamos que deixar o PRD, nos afiliarmos a outro partido, como o PT, e formar essa frente de esquerda que já mencionei. Não é o ideal, mas temos ainda três anos antes da próxima eleição presidencial.  *Texto e fotos

"Mexicanos querem uma mudança profunda do modelo de desenvolvimento"

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