Sábado, 4 de abril de 2026
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Órfãos de massacre na terra indígena Awá

O problema na terra Awá, onde dezenas de indígenas têm sido mortos e outros tantos fogem para não terem o mesmo destino na guerra entre o exército colombiano e a guerrilha, não começou no ano passado. “O massacre é resultado direto desta dinâmica de conflito que estamos vivendo aqui em Nariño [estado no sul da Colômbia]”, resume o defensor público Álvaro Raul Vallejos.

Existem cerca de 30 mil awá em 37 reservas situadas entre a cordilheira dos Andes, a fronteira com o Equador ao sul e a costa pacífica. O território é cortado ao meio pela estrada Pasto-Tumaco, que liga todo o sul do país ao litoral. Seguindo o modo de vida tradicional, as famílias vivem isoladas em casas de madeira sobre palafitas, a até uma hora de distância de outras famílias.

O cenário bucólico passa por mudanças desde o começo desta década, como resultado de uma estratégia do governo.

“É paradoxal, mas como o Plano Colômbia se concentrou na região amazônica, a leste do nosso estado, isso gerou uma pressão dos cultivadores e dos trabalhadores da coca até outros lugares, especialmente até Nariño”, diz o assessor de paz do governo estadual, Zavier Hernandez. Segundo ele, a produção de coca no estado saltou de 2 mil hectares em 1999 para cerca de 20 mil hoje em dia – 20% do total produzido no país.

O isolamento dos awá – conhecidos como “o povo do silêncio” – facilitou a entrada de grupos armados. A coca é cultivada principalmente nos limites da terra indígena por colonos vindos de outras partes do país, mas também, em alguns casos, dentro das reservas. Cerca de 10% dos awá seriam cultivadores de coca, segundo Hernandez.

Mesmo dentre os refugiados, não é difícil encontrar quem admita plantar ou já ter plantado coca. “Nós tínhamos muito, dava três quilos a cada três meses. Quando não tinha gasolina, vendíamos só as folhas de coca. Quando tinha, fazíamos a pasta [primeira etapa na produção de cocaína]. Era dinheiro para comprar comida só, não somos ricos”, diz uma awá. Segundo uma liderança, uma família que produz coca consegue tirar em média 600 reais a cada colheita.

Assim como muitos camponeses, o que empurra os awá para o olho do conflito é a pobreza estrutural da região. O estado de Nariño tem 60% da população com necessidades básicas insatisfeitas. “Mas nas zonas onde estão os atores armados, na cordilheira ocidental, o nível de necessidades básicas insatisfeitas é ainda maior, chega a 65%, e na costa é de 76%”, diz Vallejos.

Atrás da guerrilha veio a força nacional, que tem ampliado significativamente o poder de fogo no estado. Nariño é uma das áreas prioritárias para a etapa atual do financiamento norte-americano do Plano Colômbia, que já despejou 5 bilhões de dólares na luta contra as drogas no país. O investimento fez diferença. Há dez anos, 23 municípios não contavam com força pública nenhuma. Hoje em dia, todos têm policiais.

A intenção de recuperar o controle da região tem sido clara, para Zavier Hernandez. “Há cinco anos, tínhamos 6 mil homens entre exército e polícia no estado. Hoje temos 17 mil, e em cinco anos a ideia é chegar a 27 mil. Isso também se reflete na criação de estruturas militares novas. Nariño, por exemplo, não tinha sua propria brigada e agora tem. Além disso, estão criando quatro novos batalhões”.

Para o Ministério do Interior e Justiça, a tática é a única possível para solucionar o conflito. “Sabemos que ali existe um território inóspito, amplo, sem vias de acesso fáceis, sem estradas. Não é um controle fácil e por isso é preciso permitir a chegada do exército para tirar a guerrilha. Somente com a segurança democrática, pode-se resolver o problema”, diz Pedro Posada, diretor para assuntos indígenas do Ministério do Interior e Justiça.

 

Posada se refere à política implementada pelo governo de Álvaro Uribe para desarmar grupos armados ilegais, baseada num aumento das atividades e da presença dos órgãos de segurança no território nacional, aliada à participação da sociedade.

A estratégia conta com o apoio do governo estadual e de grande parte da população, que hoje em dia pode viajar nas estradas sem medo de ser atacada por guerrilheiros. “Queríamos que não houvesse a necessidade de recorrer à força, mas é muito difícil haver uma solução pacífica”, diz o chefe de governo do estado, Fabio Trujillo.

Mas, para os indígenas, é difícil simpatizar com uma estratégia que nos últimos anos transformou seu território em um verdadeiro campo de batalha. No meio do fogo cruzado, os awá convivem com agressões de todos os lados.

Fogo cruzado

Aqueles que permaneceram em Toruga ña-Telembi, onde um massacre vitimou 11 indígenas em fevereiro, vivem uma siutação alarmante. Boa parte está confinada por minas terrestres ou por ameaças. O líder Juan Egardo Paí, que não retorna ao local há seis meses, conta que é difícil conseguir se comunicar com os familiares que ficaram por lá. “De vez em quando, eles levam um celular, mas é muito perigoso porque podem ser mortos por informantes. Há risco de toparem com minas, eles estão com medo”.

Segundo Alvaro Raul Vallejos, é comum o uso de minas terrestres para controlar o território. “A guerrilha usa as minas porque isso dificulta o ingresso de operações militares, mas também porque mantém a população cerceada, e de alguma forma serve como escudo humano”.

Somente este ano, 12 civis foram afetados por minas no estado, com duas mortes. “Nariño é um dos estados com mais altos níveis de minas do país, e a maior parte das vítimas são civis, porque os explosivos estão sendo colocados nas comunidades”.

A situação não é melhor para os refugiados. “Aqui não podemos trabalhar, não temos roupa e nem dinheiro. Quero voltar para minha terra, mas tenho medo”, diz Guilherme de Cortez (foto abaixo), sentado à frente de um dos barracos da sede da Unipa (Unidade Indígena do Povo Awá).

 

O fato de estarem à beira de uma estrada municipal não traz tranquilidade aos refugiados. À noite, paramilitares armados e com roupas civis controlam a estrada, forçando um toque informal de recolher.

Órfãos da terra-mãe

Outra ameaça é mais difusa: a aculturação, já que a identidade indígena é profundamente ligada à terra e ao modo de vida tradicional. Muitos refugiados são forçados a viver na periferia das cidades. “Para nós, o problema é que a terra fique vazia. Me dá pena porque nós dizemos que a nossa terra é nossa mãe, e eu me sinto como se tivesse ficado órfão”, diz Juan Egardo Paí.

 

De outro lado, há diversas denúncias de abusos por parte das forças armadas, como as prisões arbitrárias. Segundo a Unipa, há cerca de 30 indígenas presos por rebelião – a maior parte, indevidamente.

 

Foi o que aconteceu com o coordenador da guarda indígena Francisco Javier Cortes Guanga em outubro de 2006. Ele almoçava na casa de uma conhecida na reserva Piguambi Palangala quando chegaram alguns soldados, depois de um confronto com as Farc. “Nos acusaram de guerrilheiros, nos atiraram ao chão e começaram a bater com fuzil. Pisavam, davam socos, faziam de tudo. A tortura continuou durante horas”.

 

Embora negassem qualquer participação, Guanga e três awás ficaram presos durante nove meses enquanto aguardavam o julgamento. O pedido de habeas corpus foi negado duas vezes, até que eles foram soltos por falta de provas. “Por isso que digo: não confio em ninguém, seja soldado, guerrilha ou paraco [paramilitar]”.

 

Pedro Posada , do Ministério do Interior e Justiça, nega que o problema seja estrutural. “Obviamente quando tropas ficam oito dias na selva, um controle absoluto é impossível, então pode haver denúncias específicas, que devem ser investigadas e punidas”.

Falsos positivos

Um escândalo recente que atingiu o governo também tem vitimado os awás, e pode estar na raiz do mais recente massacre, que vitimou 12 indígenas no dia 26 de agosto. É o caso dos “falsos positivos”. Civis são assassinados para serem contabilizados como guerrilheiros, inflando os números do exército.

Os anônimos – camponeses, trabalhadores rurais – são executados, vestidos com roupas militares e registrados como mortos em combate. Algumas vezes, há colaboração de grupos paramilitares. Segundo a organização Movimento de Vítimas de Crimes de Estado, já foram denunciados mais de 1600 casos em todo o país.

Um deles envolveu o awá Gonzalo Rodríguez Guanga, assassinado em 23 de maio deste ano. Segundo o relato de sua esposa Sixta Tulia García, única testemunha do crime, eles saíam da reserva Gran Rosario por volta das 8h quando foram abordados por um grupo trajando uniforme militar e passamontanhas que lhes cobriam os rostos.

Eles teriam prendido Gonzalo e o levado a cerca de 20 metros de distância da esposa, que diz ter escutado tiros. Um dos encapuzados a teria segurado pelo cabelo e ordenado que caminhasse para a estrada para encontrar o corpo do marido, a cabeça destroçada por balas.

Dias depois, um informe oficial do Batalhão Contra-Guerrilha Nº 23 do exército afirmou que Gonzalo Rodriguez foi morto durante uma operação tática porque foi apontado por um “guia” como membro das Farc. “O guia indicou a Gonzalo Rodriguez, que é cabeça da frente 29 das Farc. De imediato se dá a captura e se dizem os direitos do preso, junto com sua esposa, e logo os separam; se retém a arma que ele trazia e o prendem. Em um descuido dos militares, o sujeito empreende uma fuga até o lugar onde a arma havia sido jogada, a apanha e sai correndo, começando a disparar, sendo dado baixa pela tropa”, diz o documento.

A descrição quase cinematográfica é considerada incongruente pelo defensor público Álvaro Vallejos. “A versão da esposa que estava presente é que ele não era guerrilheiro, e o capturaram sem nenhuma ordem judicial. Segundo ela, mataram-no em uma execução extrajudicial. Isso também nos preocupa porque deve haver outros casos que não estão sendo reportados para as autoridades por medo”, diz ele.

Com base no testemunho da viúva, a Unipa denunciou o fato à imprensa, à defensoria pública e também ao relator especial da ONU para direitos indígenas, James Anaya.

Três meses depois, Sixta Tulia García foi assassinada a tiros durante a madrugada na reserva de Gran Rosario, junto com toda a família.

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* Texto e fotos.

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