Mapa do Facebook mostra relacionamentos globais marcados por fronteiras políticas e culturais
Mapa do Facebook mostra relacionamentos globais marcados por fronteiras políticas e culturais
O mapa-múndi que um funcionário do Facebook criou esta semana, mostrando as conexões entre os 500 milhões de usuários da rede social, revela que as relações sociais – inclusive políticas e culturais – continuam definindo as virtuais, só que em alcance global, segundo especialistas em comunicação em redes ouvidos pelo Opera Mundi.
Reprodução
Mapa elaborado por estagiário do Facebook mostra áreas escuras onde a rede não alcança, como a China
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Interessado em verificar como as fronteiras dos países condicionam as amizades, o engenheiro de sistemas Paul Butler, que é estagiário da empresa de Mark Zuckerberg, destacou com luzes sobre um fundo azul escuro as relações virtuais estabelecidas por meio da ferramenta em todo o mundo.
“O que despertou a minha curiosidade foi o caráter local da amizade. Eu estava interessado em ver como a geografia e as fronteiras políticas afetavam onde as pessoas viviam em relação aos seus amigos. Eu queria uma visualização que mostrasse quais as cidades tinham muitas amizades entre elas”, justificou Butler em seu próprio perfil no Facebook.
No mapa, fica claro que os Estados Unidos e a Europa são as regiões onde mais internautas acessam o Facebook. Já China, Rússia e África Central são as zonas mais escuras, justamente onde o site tem menor presença.
“As zonas mais iluminadas estão na Costa Leste e no núcleo da Europa, com outras áreas bem iluminadas na Oceania (Nova Zelândia e sudeste da Austrália), na Indonésia e na Índia. A China mal aparece. O Leste Europeu e a Rússa ficam bem obscuros”, observa o professor Henrique Antoun, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Ele chama a atenção, porém, para o fato de que a falta de zonas iluminadas na China (com exceção de Hong Kong e Macau, a “zonas econômicas especiais”) não significa uma ausência do país nas redes sociais, muito menos na internet.
“Duvido muito que a China esteja desconectada. Porque mesmo não tendo tradição de TI como a Índia, a China é o maior produtor de bens do mundo. É a maior população conectada do planeta”, explica Antoun.
NASA

Mapa de 2007 feito pela NASA ressalta luzes das cidades à noite, indicando concentração demográfica
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Segundo Antoun, em 2008, a China tinha 298 milhões de usuários online, um número maior que toda a população dos EUA. Para efeito de comparação, o Brasil tinha 72 milhões de usuários na mesma época. A Índia, que aparece brilhante no mapa do Facebook, tinha 51 milhões de pessoas – uma porcentagem muito abaixo da população total, que é de 1,2 bilhão de pessoas.
“Isso pode ser também efeito de proteção [contra invasões eletrônicas], porque a China pode ser obscura em deixar vazar informação, mas não em produzi-la” , diz o professor.
Fluxos desiguais
Quanto às linhas curvas entre os continentes – que, na prática, representam o fluxo de informação entre diferentes regiões do mundo – o tráfego de dados ainda é concentrado nas zonas mais ricas, e o fluxo Sul-Sul é muito mais fraco, acentuando a mesma desigualdade que já era detectada nas pesquisas em comunicação das décadas de 1970 e 1980.
“Todo o continente da América tem um foco de luz violento, resultado dos links com os Estados Unidos. É possível notar um fluxo de informações acentuado do Brasil com a Europa, sobretudo as áreas ocidentais europeias. E o Brasil tem ainda um leve foco para Angola”, comenta Antoun.
No entanto, o pesquisador ressalta que o desenho geral da comunicação internacional vem mudando. Ele relembra que, nos anos 1990, um mapa semelhante tentou representar a world wide web, então nascente.
“Na época, o tráfego de dados com formato parecido ao de uma aranha: o corpo estava nos EUA e na Europa e as pernas se estendiam pelos continentes. De lá para cá, não é mais essa imagem aracnídea. O núcleo forte estende suas patas agora na direção do mundo todo”, explica.
Já para a coordenadora do Nupef (Núcleo de Pesquisas, Estudos e Formação), Graciela Selaimen, a presença do Facebook é extremamente intensa em todo o mundo, mesmo com o mapa mostrando áreas de sombra onde a ferramenta não é utilizada. Essas áreas não correspondem exatamente à concentração demográfica, já que, por exemplo, excluem a China e o Irã, países densamente povoados.
“O alcance da rede social é impressionante,”, diz ela, ao Opera Mundi.
Aspectos regionais
Para Graciela, as áreas sombrias já eram esperadas. Além dos filtros ao Facebook na China, o que dificulta o acesso à ferramenta na África são os problemas estruturais da região, que não tem ampla conectividade à internet, e onde o custo de acesso e dos equipamentos é alto. Na Rússia e no próprio Brasil, a pouca expressividade do Facebook se deve à penetração por outras redes sociais predominantes, o V Kontakte e o Orkut, respectivamente. Além disso, também a China também tem uma rede social que não é o Facebook: o QQ.
“Exatamente por isso, uma relação direta entre conectividade e acesso à internet não pode ser estabelecida. Há elementos como preferências do usuário, proibições governamentais, concorrência e fatores culturais que refletem na presença maior ou menor do Facebook no mapa”, explica a coordenadora do Nupef.
Many Eyes/Reprodução (CC)

Outro mapa mostra quais são os sites de relacionamento mais usados em cada país
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Da mesma forma, uma análise socioeconômica a partir do mapa não é adequada, segundo Graciela. “Fazer isso é dar muito poder para uma das milhões de ferramentas que possibilitam a interação social”, diz.
A coordenadora do Nupef argumenta que as questões socioeconômicas vão “além da internet”, e que não se pode avaliar nenhum destes pontos a partir de uma rede social utilizada essencialmente pela elite da população de todos os países, como fica explícito no Brasil, onde a maioria dos acessos à rede é feita no sudeste, região com maior renda per capita do país.
Influência cultural
Uma análise sobre os aspectos culturais, porém, pode ser feita a partir do mapa, que, para Graciela Selaimen reflete exatamente as heranças históricas e preferências de cada população.
“A interação que ultrapassa fronteiras ilustra a capacidade e a compatibilidade entre internautas de todos os cantos do mundo, que se intensifica entre povos que de alguma forma se identificam”, argumenta.
No mapa, nota-se uma maior interconexão dos brasileiros com os europeus do que com os norte-americanos, principais usuários do Facebook.
“Isso acontece provavelmente por uma questão de identidade e pelo contexto histórico em que a cultura brasileira se construiu”, argumenta ela.
“Somos uma mistura de uma colonização portuguesa com uma série de influências de imigrantes italianos, espanhóis e outros que vieram para cá. Talvez por isso tendemos a nos comunicar com pessoas que de alguma forma sejam mais próximas a nós e a essa realidade. As relações se dão a partir das possibilidades apresentadas pela ferramenta, mas a escolha destas relações são feitas a partir de experiências e escolhas pessoais, o que fica nítido no mapa”, completa.
O mesmo acontece entre Brasil e Angola: um raio de luz ligando os dois países é nítido de uma forma que não se repete com nenhum outro país africano. “É uma questão linguística, histórica e cultural”, diz Graciela.
Henrique Antoun concorda. “Essa luz é das redes sociais, mais especificamente do Facebook. Com esse mapa, dá para ver somente isso: o quanto o Facebook brilha no mundo. As zonas de escuridão são essas em que a presença do Facebook não é acentuada, e não onde há poucos usuários de internet”, pondera o pesquisador da UFRJ.
Entretanto, mais que mero mapa de “amigos adicionados”, a imagem pode revelar o poder de alcance de interesses político-econômicos, sob a forma de um site de relacionamentos.
“O que esse mapa revela é o alcance da rede de extração forçada de informação que os Departamentos de Defesa e de Estado conseguem via Facebook”, aponta Antoun, que conduz pesquisa sobre democracia na cibercultura. “É importante ter essa ideia precisa, sobretudo agora que o Facebook, junto com o twitter, a Amazon, o Mastercard e o PayPal se revelaram como instrumentos do poder norte-americano, ao suspenderem a conta dos grupos Anonym e Payback, que estavam fazendo ataques em defesa do Wikileaks”.
Rede anti-social
Para Antoun, a rede de Zuckerberg não é uma simples interface para relacionamentos afetivos, mas também obedece interesses específicos da inteligência e do poder econômico, principalmente nos EUA. Segundo o professor, “supermagnatas exemplares” como Zuckerberg não surgem do nada: “são exatamente aquilo q a doutrina de segurança mundial, a agenda do conservadorismo norte-americano, quer como direção do mundo”.
“O Facebook nem é uma rede social de verdade. É uma rede puramente de comunicação, uma teia publicitária que transforma toda sua população de usuários em garotos-propagada gratuitos, sem nenhum direito, porque quando fazem algo que os contraria, suspendem essas contas. É uma uma anti-social network”, afirma.
De acordo com ele, autor do livro Web 2.0: participação e vigilância na era da comunicação distribuída, o Facebook foi usado no início da década para promover as chamadas “revoluções coloridas” nas áreas em que o Departamento de Estado queria mudanças de governo – Geórgia, Ucrânia, Quirguízia.
“Quando as revoluções interessam, eles fazem de tudo para alimentar a revolta. Mas, quando as coisas saem do script, fazem de tudo pra coibir e perseguir a mesma ferramenta, suspendendo usuários e cassando contas. Suspender a comunicação é de uma violência única. Cadê a rede social nisso?”, questiona.
Metodologia
Em seu próprio perfil no site, Paul Butler, autor do mapa, publicou uma nota na terça-feira (14/12) em que detalhou a motivação e o processo de manipulação dos dados para a elaboração da imagem.
“Comecei pegando uma amostra de cerca de 10 milhões de pares de amigos do nosso estoque de dados. Combinei esses dados com a cidade atual de cada usuário e somei o número de amigos entre cada par de cidades. Então fundi os dados com a latitude e a longitude de cada cidade. Defini pesos para cada par de cidades como uma função da distância euclidiana entre eles e o número de amigos entre eles. Então tracei linhas entre os pares, por peso, de modo que os pares de cidades com mais amizade entre elas foram desenhados em cima dos outros. Usei uma gradação de cores do preto ao azul até o branco, com a cor de cada linha, dependendo de seu peso”, explicou o estagiário do Facebook.
Segundo ele, depois de alguns minutos de processamento, a imagem revelou um mapa altamente detalhado do mundo, evidenciando não só os continentes, como algumas fronteiras internacionais – tudo por meio do mapeamento de amigos “adicionados”.
“O que realmente me impressionou, porém, foi saber que as linhas não representavam litorais ou rios ou fronteiras políticas, mas verdadeiras relações humanas. Cada linha pode representar uma amizade feita durante a viagem, um parente no exterior, ou um antigo colega de faculdade que se afastou por forças da vida”, escreveu Butler.
Princípio da proximidade
No entanto, para a professora Sonia Aguiar, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe, a metodologia de Butler talvez desse resultados bem diferentes se fosse aplicada ao Orkut – cujos usuários brasileiros, segundo ela, muitas vezes inventam as cidades de onde supostamente estariam conectados.
“Fake data, mapa distorcido”, ressalta Sonia, que também é pesquisadora do grupo de pesquisas interinstitucional Geografias da Comunicação. “O que Butler quis indicar é que, apesar da globalização dos sistemas de comunicação, o princípio da proximidade ainda continua tendo um peso significativo na comunicação interpessoal”.
A professora lembra, porém, que o método escolhido poderia mostrar que há usuários mais globalmente conectados do que outros, diferenciados da “massa” de usuários conectados localmente ou regionalmente, o que contraria o caráter de “transnacionalidade” do Facebook.
“O sistema pode ser global, mas há fortes indicadores de que as redes sociais da vida cotidiana ainda continuam sendo locais ou, no máximo, regionais”, conclui Sonia.
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