Terça-feira, 7 de abril de 2026
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A entrada da Venezuela no Mercosul continua sem previsão definida, após mais uma reunião sobre o tema na Comissão de Relações Exteriores do Senado nesta terça-feira (27). Enquanto o governo espera, na quinta-feira (29), votar e aprovar na comissão a entrada do país no bloco e talvez levar o assunto ao plenário do Senado ainda no mesmo dia, vários senadores – principalmente da oposição – falam em adiar a votação, para discutir melhor o assunto.

A discussão sobre a democracia na Venezuela, e se o país infringiria ou não a cláusula democrática do Mercosul, dominou os debates da reunião de hoje na comissão. O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos principais líderes da oposição ao presidente Hugo Chávez, participou da reunião no Senado e defendeu a aprovação da entrada da Venezuela no bloco regional, mudando o posicionamento que havia manifestado ao Senado brasileiro por meio de carta, em junho.

Para Ledezma, o Estado venezuelano não deve ser penalizado por eventuais divergências dos senadores com o governo Chávez. “Não é a questão de deixar Chávez entrar no Mercosul, mas sim a Venezuela. Governos são provisórios; temos que pensar no Estado, e a integração com o Mercosul seria muito benéfica para o nosso país”, afirmou. Ele disse acreditar, inclusive, que a entrada no bloco poderia ajudar muito a promover a democracia na Venezuela. Para Ledezma, isso ocorreria com a garantia de que, nesse processo de entrada, a Venezuela respeite todos os protocolos e tratados vigentes no Mercosul, especialmente referentes à democracia e a direitos humanos.

A maior parte dos senadores que se manifestaram na reunião se disse favorável à entrada da Venezuela no Mercosul, embora com várias ressalvas ao governo Chávez, em posição semelhante à de Ledezma. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) afirmou que, “apesar do Lula e do Chávez”, é favorável à participação da Venezuela no Mercosul. “Na verdade, aceitando a Venezuela, estamos indo contra o Chávez e a favor da democracia e da integração”, disse.

Já o senador Renato Casagrande (PSB-ES) destacou alguns avanços do atual governo venezuelano. “A Venezuela viveu problemas sérios antes do Chávez. Acho que ele cumpriu um papel importante, de dar atenção especial à população mais pobre. Mas radicalizou o processo de consultas à população e, na minha opinião, passou do ponto. Uma pré-condição para a democracia é também a alternância do poder”, avalia.

Casagrande afirmou concordar com a posição de Ledezma, de que o país tem problemas e que a integração pode ajudar a resolvê-los. “Não me incomodo em atrasar a votação aqui no Senado para discutir mais, mas sou favorável à entrada” disse. Outros senadores se manifestaram na mesma linha, destacando que seria um erro histórico rejeitar a entrada da Venezuela no bloco e que isso levaria a um isolamento maior do país vizinho.

Antes da audiência, o presidente da Federação de Câmaras de Comércio Venezuela-Brasil, José Francisco Marcondes, defendeu o ingresso venezuelano no Mercosul. Para ele, um veto representaria “uma rejeição a todo o projeto de integração regional”, segundo a agência de notícias espanhola EFE.

Segundo Marcondes, a integração “não pode ser vista a partir de um ângulo político, pois isso cria uma polarização desnecessária” que prejudica o clima para os negócios.

Convite para visita

A importância de levar adiante o processo de integração regional e ampliar o tamanho e a força do Mercosul foi destacada por todos os senadores. No entanto, a oposição destaca os possíveis problemas que a entrada da Venezuela poderia trazer. O relator do processo na Comissão de Relações Exteriores, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), afirma que “não é contra a Venezuela, mas a história mostra que não podemos nos omitir de verificar o respeito aos princípios da democracia e dos direitos humanos em nome de uma visão de curto prazo, apenas comercial”. O relatório que apresentou recomenda o voto contrário à adesão venezuelana ao bloco.

Já o presidente da comissão, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), desconfia do argumento de que, ao entrar no bloco regional, a Venezuela estaria concordando e, portanto, obrigada a respeitar as cláusulas de democracia e de defesa dos direitos humanos do Mercosul. “A questão é ver se o Chávez vai cumprir o que dizem os tratados”, desafiou.

Na reunião, o prefeito Ledezma fez um convite para que alguns senadores visitem o país e verifiquem pessoalmente a situação no país. Alguns apoiaram a idéia da visita e já queriam definir a questão na reunião de hoje. No entanto, Azeredo deixou para decidir tudo no dia 29. “Vamos colocar o relatório em votação na quinta-feira, como prometido. Mas, se a maioria da comissão decidir adiar a votação novamente e fazer essa visita proposta pelo prefeito de Caracas, assim será”, disse. Ele afirmou que ainda espera a apresentação do voto em separado do senador Romero Jucá (PMDB-RR), favorável à inserção da Venezuela no Mercosul.

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) avalia que o governo tem maioria para aprovar na Comissão de Relações Exteriores a entrada da Venezuela. Segundo Suplicy, o assunto poderia ir ao plenário ainda na tarde de quinta-feira com um pedido de urgência, caso seja mesmo votado pela manhã na comissão, mas talvez seja melhor esperar para a próxima semana, já que alguns senadores governistas estão em viagem esta semana. “A liderança do governo tem que fazer as contas para definir”, completou.

Maioria dos senadores brasileiros em comissão defende entrada da Venezuela no Mercosul

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