Sábado, 16 de maio de 2026
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O presidente francês, Emmanuel Macron, lançou nesta segunda-feira (09/05) no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, a ideia de uma “comunidade política europeia” aberta a países que hoje não fazem parte do bloco, como é o caso da Ucrânia, ou que o abandonaram, como o Reino Unido. O chanceler alemão, Olaf Scholz, condiderou a proposta “muito interessante”. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também defende mudanças, mas a iniciativa francesa encontra resistência de vários parceiros.

Reeleito para um segundo mandato de cinco anos, Macron e a presidente da Comissão Europeia defenderam um bloco mais “independente” e “eficaz”. Considerando que o processo de adesão à UE é longo e complexo, Macron propôs a criação de uma “comunidade política europeia” que permitiria a “nações europeias democráticas, que aderem à nossa base de valores, encontrar um novo espaço de política, segurança e cooperação em matéria de energia, transportes, investimentos, infraestrutura e circulação de pessoas”, defendeu o líder francês em Estrasburgo, antes de seguir para um encontro, em Berlim, com o chanceler alemão, Olaf Schoz. Já na capital alemã, Scholz afirmou ao lado de Macron que considerava essa proposta de “comunidade política muito interessante”. 

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“Aderir (à nova instância política) não prejudicaria uma futura entrada na União Europeia propriamente dita”, explicou Macron. A nova estrutura “também não seria fechada aqueles que deixaram a UE”, acrescentou o chefe de Estado francês, referindo-se ao Reino Unido, que abandonou o bloco europeu na sequência do referendo do Brexit.

Ursula von der Leyen se mostrou disposta a reformar o bloco, inclusive “alterando os tratados se necessário”, principalmente para abandonar a votação por unanimidade em certas áreas, que é uma fonte frequente de impasse, como é o caso, atualmente, do embargo ao petróleo russo, ou para dar à Europa “um papel mais importante” na saúde e na defesa.

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“Teremos que reformar nossos textos, isso é óbvio”, enfatizou a presidente do Executivo europeu. “Uma das maneiras de fazer isso é convocar uma convenção para revisar os tratados”, prosseguiu a dirigente alemã. “É uma proposta do Parlamento Europeu e eu a aprovo”, endossou Macron, que fez seu primeiro discurso sobre a Europa desde a reeleição, em 24 de abril.

Tais mudanças fazem parte das cerca de 300 medidas propostas pela Conferência sobre o Futuro da Europa, uma vasta consulta pública nascida de uma sugestão do presidente francês. “Este projeto de paz, estabilidade, prosperidade – e vou acrescentar a ele, hoje, justiça social e ambição ecológica –, é um projeto que devemos continuar a completar, para tornar mais democrático, mais unido e soberano”, defendeu Macron.

Como a França detém a presidência rotativa do Conselho da UE até o final do primeiro semestre, Macron quer que a questão seja abordada “com a ousadia e a liberdade necessárias”, com os líderes dos 27 estados-membros, no encontro de cúpula agendado para 23 e 24 de junho.

Metade dos países europeus rejeita proposta de Macron

Treze países já indicaram sua oposição a tais mudanças. “Não somos a favor de tentativas mal pensadas e prematuras de lançamento desse processo”, escreveram, entre outros, Polônia, Romênia, Finlândia e Suécia, em uma declaração conjunta.

“Devemos melhorar constantemente o funcionamento de nossa democracia”, disse Von der Leyen, que também esteve em Estrasburgo no Dia da Europa, celebrado em 9 de maio.

Em seu pronunciamento, Macron reiterou o apoio dos 27 países do bloco à Ucrânia, país confrontado à invasão da Rússia. Em Moscou, durante o desfile militar que celebrou a derrota do nazismo em 1945, o presidente russo, Vladimir Putin, declarou que o seu Exército defende “a pátria” na Ucrânia.

Treze países europeus indicaram oposição às mudanças propostas alegando ' tentativas mal pensadas e prematuras'

Wikimedia Commons

Reeleito para um segundo mandato de cinco anos, Macron e a presidente da Comissão Europeia defenderam um bloco mais "independente" e "eficaz

“Membro do coração”

“Por sua luta e coragem, a Ucrânia já é um membro de coração da nossa Europa, da nossa família, da nossa União”, disse o presidente francês. “Se lhe concedermos o status de candidata amanhã, sabemos perfeitamente que o processo para a adesão levaria (…) provavelmente várias décadas”, explicou Macron, para reforçar a sua ideia de criação de uma “comunidade política” no continente.

A cerimônia no Parlamento de Estrasburgo teve um significado especial nesses dias de comemoração da vitória dos aliados contra a Alemanha nazista, em 1945. A data foi marcada por um grande desfile militar, esta manhã, na Praça Vermelha, em Moscou.

“Demos duas faces muito diferentes para este 9 de maio”, declarou Macron, ao lado de Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, e da presidente da Comissão Europeia.

“De um lado, havia o desejo de mostrar força, intimidação e um discurso resolutamente bélico; e aqui, de forma ampla, uma associação de cidadãos, parlamentares nacionais e europeus para um projeto e para pensarmos o nosso futuro”, continuou. “O projeto europeu nasceu da guerra, não devemos esquecer disso, e nem do nosso desejo de não repeti-la”, finalizou.

Em Estrasburgo, Macron ainda declarou que para acabar com a guerra na Ucrânia, a paz terá de ser construída sem “humilhar” a Rússia. “Amanhã, teremos de construir a paz, não esqueçamos disso”, ponderou. “Isso não será feito com negação e nem com a exclusão de um ou de outro, e nem com humilhação”, afirmou, citando que a Ucrânia e a Rússia deverão estar ao redor da mesa de negociação.  

Numa visita surpresa a Odessa, nesta segunda-feira, o presidente do Conselho Europeu, o belga Charles Michel, transmitiu uma forte mensagem de apoio aos ucranianos.

França e Alemanha, um duo no motor da Europa

No fim da tarde, Macron viajou para Berlim, em sua primeira viagem ao exterior desde a posse, no sábado (08/05). Macron foi recebido pelo chanceler Olaf Scholz para uma reunião presencial e um jantar de trabalho.

A união política entre as autoridades francesas e alemãs tem sido, tradicionalmente, uma das forças motrizes da Europa. O relacionamento entre Macron e Scholz ainda está em fase inicial, e a reunião de trabalho desta segunda-feira, em Berlim, é uma oportunidade para os dois líderes aprofundarem a cooperação.

Scholz diz ter achado “muito interessante” a ideia de Macron de construir uma “comunidade política europeia” que pudesse acomodar países como Ucrânia e Reino Unido. “Quero dizer expressamente que esta é uma proposta muito interessante”, disse o líder alemão entrevista coletiva conjunta com o presidente francês.

Menos de seis meses após a sua eleição na Alemanha, Scholz é cada vez mais criticado internamente. Ele é acusado de indecisão em relação à Rússia e procrastinação no apoio à Ucrânia. Na França, Macron acaba de ser reeleito numa votação marcada pelo aumento do descontentamento da opinião pública. O presidente não tem certeza se conseguirá manter a maioria na Assembleia dos Deputados, nas eleições legislativas de junho.

Um ponto em comum entre os dois líderes é que ambos colocaram o fortalecimento da soberania europeia no centro de suas prioridades para o futuro. E eles precisarão um do outro para conseguir isso. “Scholz difere de Merkel na medida em que o novo governo entendeu muito melhor que a Alemanha deve ter um papel de liderança, com a França, na União Europeia”, analisa Stefan Seidendorf, vice-diretor do Instituto Franco-Alemão de Ludwigsburg.

Em Berlim, Macron disse já saber o nome do futuro primeiro-ministro para suceder Jean Castex. “Sim, mas não vou dizer aqui, nem agora, claro”, sublinhou o presidente francês, em uma coletiva de imprensa, respondendo ao questionamento de um jornalista.