Macron defende reforma da Previdência na véspera de votação de moções de censura contra o governo
Na Assembleia de deputados, duas moções de censura contra o governo serão votadas nesta segunda-feira (20/03)
A França inicia a semana sob forte tensão. Na Assembleia de deputados, duas moções de censura contra o governo serão votadas nesta segunda-feira (20/03), embora as chances de queda do executivo sejam poucas. O presidente francês, Emmanuel Macron, expressou neste domingo (19/03) seu desejo que a impopular reforma da Previdência “possa alcançar a meta de seu caminho democrático”.
Em comunicado, o Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa, indicou que o texto do contestado projeto de lei é resultado de “meses de negociações políticas e sociais, e mais de 170 horas de debate” na Assembleia de deputados e no Senado do país. Na nota, Macron também afirma que o governo está mobilizado para “proteger” parlamentares ameaçados por defenderem a reforma da Previdência.
Para tentar acalmar a revolta das ruas, pesos pesados de Macron também multiplicaram as aparições nas mídias neste domingo. O ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, afirmou ao jornal Le Parisien que não acredita que haverá votos suficientes para derrubar o governo, mas a votação das moções “será o momento da verdade”. “A reforma da Previdência vale, sim ou não, a queda do governo e a desordem política? A resposta é claramente não”, reiterou.
Mesmo tom do lado do ministro francês do Trabalho, Olivier Dussopt, um dos maiores defensores do projeto de lei que inflama a opinião pública há meses. Em entrevista ao Journal du Dimanche, ele afirmou que haverá “um antes e um depois” da imposição da reforma por decreto, por meio do controverso artigo 49.3 da Constituição do país. No entanto, “temos que continuar avançando”, estima.
Já Aurore Bergé, chefe dos deputados do partido governista Renascimento na Assembleia francesa, reconhece que a passagem à força do projeto de lei é mal vista pela população e será preciso “refazer os laços” com os franceses. “O que quer que aconteça, depois de segunda-feira, vamos passar a outra coisa”, prevê.
Na esquerda, a oposição tenta se projetar para os próximos dias, com o objetivo de não deixar a mobilização contra a reforma da Previdência diminuir. “A luta vai continuar qualquer que seja o resultado”, assegurou Jean-Luc Mélenchon, presidente do partido da esquerda radical França Insubmissa, em entrevista à rádio RTL.
Segundo a imprensa francesa, a imposição da reforma sem o voto dos deputados, na última quinta-feira (16/03), foi uma decisão de Macron. O chefe de Estado teria resolvido colocar seu governo à prova ao perceber que faltariam dois votos para que o texto pudesse ser adotado na Assembleia. O líder viu sua popularidade cair recentemente a 28%, o nível mais baixo desde 2019, devido à insistência de modificar o sistema previdenciário do país.
O governo afirma que a reforma, que prevê passar a idade da aposentadoria de 62 para 64 anos, é necessária para evitar aprofundar o déficit nas próximas décadas, já que a França enfrenta um envelhecimento da população. No entanto, a oposição alega que a mudança impõe uma carga injusta para trabalhadores com baixos salários, mulheres e pessoas com empregos que resultam no desgaste físico.
Fim de semana de mobilização
A França foi palco de um fim de semana de revolta. Em todo o país, manifestantes ocuparam as ruas exigindo a revogação da reforma. No sábado (18/03), o governo proibiu aglomerações na Praça da Concórdia, próxima à Assembleia de deputados, no centro de Paris. Manifestantes se concentraram no local por duas noites consecutivas desde que a primeira-ministra francesa, Elisabeth Borne, anunciou a decisão, na última quinta-feira (16/03), de recorrer ao artigo 49.3 da Constituição para a adoção forçada da reforma da Previdência.

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Em comunicado, Palácio do Eliseu indicou que texto do contestado projeto de lei é resultado de ‘meses de negociações políticas e sociais’
Revoltados, manifestantes começaram a se dirigir à Praça da Itália, tradicional local de protestos no 13° distrito de Paris. No início da noite, alguns militantes montaram barricadas, queimaram lixeiras e as forças de segurança foram acionadas. Após confrontos, policiais utilizaram bombas de gás lacrimogênio e jatos d’água para dispersar a multidão. Quase 200 pessoas foram detidas.
Violências entre manifestantes e a polícia também foram registradas em Nantes, no oeste da França. Outras cidades – como Bordeaux, no oeste, Lyon, no centro-leste, e Marselha, no sul – também realizaram atos contra a reforma da Previdência.
No final da tarde deste domingo, centenas de manifestantes se reuniram de forma espontânea no bairro Les Halles, no centro de Paris. No início da noite, as ruas ao redor do local foram tomadas pelas forças de segurança.
“O governo não quis conversar conosco, ele é responsável por esse impasse. A sequência de protestos é a única forma de pressionar. As ruas estão se expressando e se queimamos coisas é para nos fazer ouvir”, disse o manifestante Pierre Simon, de 24 anos.
Centrais sindicais convocam atos para a semana
As maiores centrais sindicais tentam mobilizar os franceses para um novo dia de greve nacional nesta quinta-feira, 23 de março. Várias categorias, como empregados de refinarias e agentes de limpeza pública, estão paralisados há dias. Apesar das “requisições”, medida que obriga funcionários a saírem da greve para desempenhar suas funções, poucos garis voltaram ao trabalho e cerca de dez toneladas de lixo se acumulam pelas ruas da capital francesa.
A mobilização também continuará no setor ferroviário: quatro a cada cinco trens de alta velocidade (TGV) e dois terços dos regionais não circularão nesta segunda-feira. Apenas 40% dos trens que fazem a ligação entre as cidades da periferia e Paris funcionarão.
A Direção Geral da Aviação Civil também pediu que as companhias aéreas reduzam seus programas de voo. Os aeroportos mais afetados serão os de Paris-Orly, e o de Marselha, no sul da França.
“Passamos de um sentimento de sermos desprezados a um sentimento de raiva”, afirmou o secretário-geral da Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT), Laurent Berger, em entrevista ao jornal Libération neste domingo. “A revolta e o ódio que aumentam devem servir para nos mobilizarmos dentro da calma, evitando que sejamos instrumentalizados politicamente”, ponderou.























