Quarta-feira, 8 de abril de 2026
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Quando o ex-presidente da Polônia Lech Wałęsa (foto acima) empurrou a primeira peça do dominó de isopor que representava o Muro de Berlim, na tarde de hoje (9), de alguma forma recriou literalmente os eventos de 1989, quando sua ascensão ao poder gerou um verdadeiro efeito dominó entre os regimes socialistas do Leste Europeu, derrubando um a um.

Wałęsa, então líder do sindicato anticomunista polonês Solidariedade, faz parte de uma geração de estadistas que contribuíram para o fim da Guerra Fria (1945-1989), quando o mundo esteve dividido em dois campos rivais, liderados por Estados Unidos e União Soviética. Assim como ele, também estiveram em Berlim para relembrar o evento outros personagens que, embora hoje um tanto esquecidos, foram protagonistas daquele momento histórico, há duas décadas.

Mikhail Gorbachev, secretário-geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) e, depois, presidente da URSS, disse que “o caminho para o fim da Guerra Fria certamente não foi fácil, nem universalmente bem recebido na época”, lembrando a resistência de diversos setores à restauração do capitalismo nos países do Leste. “Mas é justamente por esta razão que suas lições permanecem relevantes”, argumentou o criador da Perestroika e da Glasnost, reformas que a acabariam detonando a desintegração de seu país.

Em artigo publicado hoje no Times de Londres, Gorbachev relacionou o risco de hecatombe nuclear, que perdurou por quase toda a Guerra Fria (1945-1989), à atual mudança climática, classificando ambos como “duas ameaças planetárias”. O ex-premiê soviético aproveitou a lembrança dos fatos de 20 anos atrás para defender uma ação maior das lideranças mundiais e da sociedade civil contra os danos ao meio ambiente.

“Em 1989, foram implementadas mudanças incríveis que eram consideradas impossíveis poucos anos antes. Mas isso não foi por acaso. As mudanças ecoaram as esperanças da época e os líderes reagiram”, escreveu.

Pessimismo

Gorbachev, que hoje lidera a ONG ambientalista Cruz Verde, também lamentou a falta de coordenação entre os diferentes países para enfrentar problemas como o aquecimento global e as desigualdades econômicas.

“Derrubamos o muro com a convicção de que as futuras gerações poderiam resolver os desafios juntas. Hoje, olhando para o golfo abissal entre os ricos e os pobres, a irresponsibilidade que causou a crise financeira global, e as respostas fracas e divididas para a mudança climática, eu me sinto pessimista. A oportunidade de construir um mundo mais seguro, mais justo e mais unido foi em boa parte desperdiçada”, lamentou.

Vladimir Putin, ex-presidente e hoje primeiro-ministro da Rússia (Estado sucessor da União Soviética), morava na Alemanha Oriental na época da derrubada do muro, trabalhando como agente da KGB (o serviço de espionagem soviético). Em entrevista a uma emissora de TV russa, Putin relembrou aquela época e justificou os laços sentimentais e políticos que mantém com os alemães.

“Passei vários anos da minha vida lá. Não foram os piores anos, diria até que foram bons. Há um certo sentimento nostálgico nessa ligação. Mas podemos ver a forma como a República Federal [da Alemanha] se desenvolve, e estamos contentes por construir fortes relações em uma base completamente diferente. Isso, obviamente, deixa qualquer tipo de nostalgia para trás”, conta Putin, que é fluente em alemão.

Longe da Europa

Já a atual chanceler da Alemanha unificada, Angela Merkel, presidiu as cerimônias de celebração em Berlim, culminando com um discurso no Portal de Brandemburgo (onde se concentraram as manifestações anti-Muro, há 20 anos). Mais cedo, a primeira-ministra afirmou que a reunificação alemã “ainda não está completa”, por causa das fortes desigualdades econômicas, sociais e até culturais entre os lados ocidental e oriental do país.

“O dia de hoje, há 20 anos, foi um marco feliz na história da Alemanha. Celebramos a coragem e a vontade inabalável de milhares de pessoas na Alemanha Oriental, mas também celebramos as transformações de nossos amigos no Leste Europeu que prepararam a queda do muro”, afirmou Merkel, lembrando o Solidariedade de Wałęsa e o movimento democrático na antiga Tchecoslováquia.

Rainer Jensen/EFE



Gorbachev e Putin se cumprimentam no alto do palanque em Berlim

O atual presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, elogiou a transformação global desde o fim da Guerra Fria, mas – segundo a agência russa TASS – queixou-se que os russos ainda não são plenamente tratados como europeus, apesar de há quase 20 anos terem aderido ao modelo ocidental de capitalismo e democracia.

“A transição para um novo mundo multipolar hoje é muito importante para a maioria dos países, na Europa e no mundo. Espero que todos nós rejeitemos as barreiras de separação que nos dividiam antes. Hoje, caros amigos, gostaríamos de trabalhar sobre esta agenda com vocês. Vamos pensar nas nossas crianças, no nosso futuro, na nossa Europa em comum. É muito importante para os russos”, disse Medvedev aos anfitriões alemães.

Líderes de 1989 e de hoje avaliam os últimos 20 anos

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