Segunda-feira, 4 de maio de 2026
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Os violentos confrontos na Líbia entre dois grandes grupos armados na segunda (14/08) e terça-feira (15/08) deixaram pelo menos 55 mortos e 146 feridos nos subúrbios da capital Trípoli, de acordo com um relatório provisório do centro médico de emergência local.

O centro afirma que 234 famílias, além de dezenas de médicos e enfermeiros estrangeiros, foram retirados de áreas ao sul de Trípoli, onde as milícias Brigada 444 e a Força al-Radaa se enfrentaram. Três hospitais de campanha e cerca de 60 ambulâncias foram mobilizados para resgatar os feridos e retirar civis.

Os combates com armas pesadas e automáticas começaram depois que o coronel Mahmoud Hamza, comandante da Brigada 444, foi preso na segunda-feira pela Força al-Radaa. Nenhuma explicação foi fornecida para sua prisão.

Na noite de terça-feira (15/08), o “conselho social”, formado por notáveis e personalidades influentes da localidade de Soug el-Joumaa, reduto da Força Al-Radaa a sudeste de Trípoli, anunciou um acordo com o chefe de Governo com sede em Trípoli, Abdelhamid Dbeibah, para transferir o coronel Hamza para uma “zona neutra”.

Em um comunicado lido na televisão, o conselho afirmou que daria início a um cessar-fogo, o que permitiu o retorno à calma durante a noite de terça para esta quarta-feira (16/08).

A mídia local informa que o coronel Hamza estava na sede da “Autoridade de Apoio à Estabilidade” (SSA), outro grupo armado influente em Trípoli.

Aparente normalidade

Os voos comerciais da capital, temporariamente desviados para o aeroporto da cidade Misrata, a 200 km a leste, foram retomados na manhã desta quarta-feira, de acordo com o serviço de informação do Aeroporto de Mitiga, o único aeroporto civil de Trípoli.

Apesar do retorno a uma aparente normalidade, o clima de tensão continua evidente na capital. Os dois grupos se enfrentaram na noite de segunda-feira até a noite de terça-feira nos subúrbios do sudeste, e tiros indiscriminados atingiram áreas residenciais.

A Brigada 444 e a Força al-Radaa estão entre as facções armadas mais poderosas de Trípoli, onde fica um dos dois governos que disputam o poder na Líbia.

O país mergulhou no caos desde a queda do regime de Muammar Kadafi, em 2011, alimentado por uma proliferação de milícias com as mais diversas motivações.

‘Compensar os cidadãos’

Acompanhado por seu ministro do Interior, Imed Trabelsi, o primeiro-ministro Dbeibah passou a noite em Ain Zara, uma das áreas mais afetadas pelos confrontos nos subúrbios ao sul de Trípoli.

Combates começaram depois que o coronel Mahmoud Hamza, comandante da Brigada 444, foi preso pela Força al-Radaa

Wikimedia Commons

Combates teriam acontecido em subúrbios de Trípoli, capital do país

Caminhando pelas ruas escuras deste bairro, Dbeibah deu instruções para “limpar os escombros” e identificar os “danos materiais para compensar os cidadãos”, informou a assessoria de imprensa do governo.

O Ministério do Interior, por sua vez, instalou um dispositivo de segurança para supervisionar o cessar-fogo, mobilizando forças nas áreas sob maiores tensões.

Mas, para o especialista em Líbia Jalel Harchaoui, “qualquer que seja a sequência dos acontecimentos, os últimos três anos foram perdidos” por diplomatas e pessoas com poder de decisão. Em sua opinião, “Trípoli é um território ainda mais dominado pelas milícias do que antes” e mesmo que “Dbeibah continue no poder, os acontecimentos mostram que ele não controla” a situação.

Governos rivais

A Líbia é governada por dois governos rivais: o de Dbeibah, instalado em Trípoli (oeste) e reconhecido pela ONU, e outro no Oriente, apoiado pelo poderoso marechal Khalifa Haftar.

Na terça-feira, a missão da ONU na Líbia, assim como as embaixadas americana, britânica, francesa, italiana e europeia, pediram a “redução imediata da escalada” de violência e que se “preserve o progresso feito nos últimos anos na área de segurança”.

“Depois dos violentos confrontos em Trípoli, vemos os habituais discursos e lamentações. Nada mudará até que haja consequências” para os responsáveis, lamentou Hanan Saleh, integrante da ONG Human Rights Watch.

A Brigada 444, sediada no sul de Trípoli, depende do Ministério da Defesa e é considerada a mais disciplinada dos grupos armados do oeste. A Força al-Radaa é uma milícia poderosa que atua como uma “polícia” em Trípoli. Alegando ser independente do governo, a facção controla o centro e o leste de Trípoli, assim como o Aeroporto de Mitiga e uma prisão.

No final de maio, confrontos entre os dois grupos, inclusive em ruas movimentadas do centro da cidade, deixaram diversos feridos. Em julho e agosto de 2022, confrontos entre a al-Radaa e outros grupos causaram cerca de 50 mortes em Trípoli.