Sábado, 25 de abril de 2026
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No início do século XXI, a Polônia que repugnou o passado socialista para aderir integralmente ao Ocidente, entrando na OTAN e na União Europeia, teve um rosto que simbolizou a mudança. Ou, melhor: dois. Ou, melhor ainda, dois rostos idênticos: o de Lech Kaczyński e seu irmão gêmeo Jarosław Kaczyński. De 2004, quando o país ingressou na UE, até 2007, quando o euroceticismo de ambos foi derrotado nas urnas pelo liberal Donald Tusk, Lech e seu irmão foram, ao mesmo tempo, artífices de uma política conservadora que resistia às exigências pró-mercado do bloco (prejudiciais principalmente aos agricultores), mas dava à Polônia o papel de exportadora de mão-de-obra barata para os países da Europa Ocidental.

Mas Kaczyński, morto neste sábado em um acidente aéreo na Rússia, tinha suavizado nos últimos tempos seu perfil de eurocético, que chegou a abalar a União Europeia na segunda metade da década.

Lech Kaczyński se tornou presidente em 2005, após uma bem-sucedida campanha junto com Jarosław. Em dupla, os dois irmãos governaram a Polônia de 2005 a 2007. Juntos, um na chefia do Estado e o outro no governo, os irmãos repartiram a cúpula do poder na Polônia.

Político experiente na luta pela democracia, mas pouco articulado e com fama de rústico, Lech Kaczyński havia suavizado o tom nos últimos anos, desde que seu irmão deixou o cargo de primeiro-ministro, ao ser derrotado por Tusk.

Jarosław é considerado o autêntico artífice e a versão mais radical do partido Lei e Justiça (PiS), com o qual Lech chegou à presidência no segundo turno das eleições de 23 de novembro de 2005. Seu adversário, na ocasião, foi o próprio Donald Tusk. Lech representava a via do “Estado forte”, de tônica nacionalista, frente a um Tusk conciliador e pró-europeu. Já Jarosław desempenhava a função de dirigente do partido.

Seu próprio nome, Lech, é uma homenagem ao mítico fundador da nação polonesa – que, com os irmãos Czech (dos tchecos e eslovacos) e Rus (dos russos, bielorrussos e ucranianos), teria dado origem aos povos eslavos.

Ator de cinema

Nascidos em 18 de junho em Varsóvia, os gêmeos Lech e Jarosław estrearam no cinema, antes da política. Aos 12 anos, foram alçados ao estrelato como personagens principais do filme “Os dois que roubaram a lua”, baseado num conto popular. A história sobre dois irmãos que decidem roubar a lua foi rodada em 1962, pelo diretor Jan Batory e, durante anos, foi o filme infantil de maior sucesso na Polônia. Mas, entre esse episódio curioso e a chegada ao poder, houve uma longa trajetória.

Lech começou como membro do comitê de defesa dos operários criado em 1976 para ajudar os trabalhadores expulsos pelo regime socialista após as greves de Radom e Ursus. O comitê arrecadava recursos para pagar os advogados dos operários presos e ajudar suas famílias em dificuldades financeiras.

Quando surgiu o sindicato Solidariedade, após as grandes greves do verão de 1980, Lech Kaczyński uniu-se ao protesto e chegou à vice-presidência da organização. Após a proclamação da lei marcial pelo general Wojciech Jaruzelski, Lech Kaczyński, assim como milhares de poloneses, continuou a luta contra o socialismo na clandestinidade organizando protestos, colaborando na impressão e distribuição de panfletos.

Em 1989, por ordem de Jaruzelski, os representantes do poder começaram a negociar a transição com os representantes da oposição democrática, liderados por Lech Wałesa, Kaczyński foi um dos negociadores mais ativos no capítulo relacionado ao restabelecimento da legalidade do sindicato Solidariedade.

Vida no governo

Com a eleição de Wałesa como presidente, em 1990, Kaczyński ocupou a chefia do Escritório de Segurança Nacional, adjunto à presidência, e mais tarde foi presidente da Câmara Suprema de Controle (tribunal de contas polonês).

Em 1999, foi nomeado ministro da Justiça pelo então primeiro-ministro, Jerzy Buzek, e em 2001 tornou-se prefeito de Varsóvia, cargo que o alçou a conquista de seu principal objetivo, a Chefia do Estado. Em sua campanha presidencial, ressaltou seus vínculos com a Polônia tradicional e católica confirmada por sua atitude intolerante. Como prefeito da capital polonesa, proibiu passeatas de orgulho gay.

Depois da ratificação do Tratado de Lisboa, protagonizou uma dura queda-de-braço com a chanceler Angela Merkel, durante a Presidência rotativa alemã da UE, até que finalmente assinou o tratado, em 10 de outubro de 2009 em Varsóvia.

Ceticismo

Com o passar dos anos na Presidência e a saída de seu gêmeo do primeiro ministério, Kaczyński suavizou nos últimos tempos seu perfil com relação à UE e à vizinha Alemanha, salvo pontuais discordâncias pelas nunca totalmente superadas diferenças históricas.

Kaczyński morreu quando seguia para uma cerimônia em homenagem às vítimas da batalha de Katyn, um confronto com a União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Aos 60 anos, perdeu a vida na companhia da mulher, Maria, e uma delegação polonesa de altos representantes nas proximidades do aeroporto russo de Smolensk, onde seriam realizadas as comemorações em memória dos soldados poloneses mortos no episódio, há 70 anos.

O casal Lech e Maria Kaczyński deixa uma filha, Marta.

Kaczyński, o rosto que sintetizou a nova Polônia

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