Justiça com as próprias mãos no México: vídeo revela espancamento e estupro de garotos
Justiça com as próprias mãos no México: vídeo revela espancamento e estupro de garotos
“Meu nome é Edgar Eduardo e estudo no Isic [escola técnica de informática]. Como andei entrando na casa dos outros, vão me violentar”.
Segue-se um soco na cara, iluminada por uma lanterna. Edgar grita e chora. Em seguida, é forçado a beijar outro garoto. Assim começa a gravação que vazou na última sexta-feira no portal YouTube, na qual cinco menores de idade são espancados, torturados e estuprados por supostos policiais no estado de Nayarit, no oeste do México.
Os mesmos maus-tratos são dispensados aos quatro colegas de Edgar, sentados no chão, com as mãos amarradas às costas. No quarto, ouve-se vozes de outras pessoas, que se presume que também sejam policiais. Pelo menos um deles aponta uma arma de grosso calibre para a cabeça de um dos jovens.
Acusados de serem rateros (termo equivalente a “trombadinhas” no México), os rapazes foram estuprados, torturados, espancados e abandonados nus na rua. Tudo foi gravado e carregado no YouTube por um grupo ainda não identificado. A imprensa mexicana supõe que sejam policiais locais, mas também há a possibilidade de se tratar de uma quadrilha de traficantes.
O vídeo ficou disponível na internet durante poucas horas, com o título “Rateros em Nayarit” (Trombadinhas em Nayarit), e documenta a violência física e psicológica cometida contra os cinco jovens. O arquivo agora está nas mãos da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos de Nayarit.
“Não se devem abandonar os mecanismos legais projetados para garantir a segurança jurídica e os direitos fundamentais das pessoas”, disse o presidente do órgão, Huicot Rivas Álvarez.
Dois dias antes, na comunidade de San Mateo Capuluac, no estado do México, moradores lincharam um casal acusado de ter roubado 15 cabritos. A intervenção da polícia estatal socorreu os dois jovens pouco antes de serem mortos.
Pelas próprias mãos
O nível de violência e de “justiça extrajudicial” vem subindo rapidamente no México, um dos países mais afetados pela crise econômica, que vive uma escalada de crimes relacionados ao narcotráfico. À medida em que crescem as estatísticas de assaltos e assassinatos, aumentam as reações de milícias de civis ou de policiais que fazem “justiça” pelas próprias mãos.
“Abrir a porta para a justiça com próprias mãos significaria uma enorme regressão para estágios de incivilização e barbárie. Em um Estado democrático de direito, o crime jamais deve ser combatido por meio de outro crime”, alerta Rivas Álvarez.
O presidente da Comissão de Justiça, César Camacho Quiroz (do PRI, partido que esteve no poder por 70 anos no país), afirma que o problema da insegurança no México não se resolve elevando as penas, e sim erradicando a impunidade, pois atualmente só dois de cada dez crimes são denunciados.
“A verdadeira ameaça para os criminosos está no combate à impunidade”, disse. Para Camacho, se o poder executivo não conseguir controlar a situação econômica e a injustiça social no país, “dentro de poucas semanas pode ocorrer um grave conflito social”.
Clique aqui para assistir ao vídeo, que foi retirado do YouTube.
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