Intervenção na Líbia une Sarkozy e opositores na França
Intervenção na Líbia une Sarkozy e opositores na França
Serge Dassault pode ficar feliz: por três dias, todos os jornais franceses destacaram, na primeira página, fotos dos Mirage e dos Rafale, os aviões de guerra que a sua empresa vendeu ao Estado francês – e que ele tenta vender há anos para as Forças Armadas brasileiras – para parabenizar a intervenção armada contra as tropas do líder líbio Muamar Kadafi. A decisão, do presidente francês, Nicolas Sarkozy, há dez dias, de reconhecer oficialmente o governo rebelde de Benghazi contra o regime de Kadafi, tinha provocado uma avalanche de críticas. Sarkozy não respeitou um fundamento do direito internacional, segundo o qual a França pode reconhecer um Estado, mas não um governo.
No entanto, as coisas mudaram na sexta-feira, quando Alain Juppé, o recém-empossado ministro das Relações Exteriores, voltou para a França de Nova York, onde obteve uma resolução do Conselho de Segurança pavimentando o caminho para os ataques aéreos na Líbia. O prefeito da cidade de Bordeaux, percebido como um porta-voz da direita tradicional e respeitável – contra os políticos midiáticos em torno de Sarkozy – foi recebido como um herói, e convenceu a maior parte do mundo político francês. Quase toda a imprensa comemorou o fato de que a França “encabeçava” a “coalizão militar do Ocidente” contra Kadafi. O principal argumento é o de evitar de se chegar tarde demais, como na época do massacre de Srebrenica.
Da esquerda para a direita, os políticos seguiram o governo: não só a UMP (União por um Movimento Popular), partido do presidente, mas também o Novo Centro, o Partido Socialista, os Verdes e o Partido da Esquerda. Apesar de estarem convencidos de que esta é uma manobra política de Sarkozy, os socialistas se alinharam. “O PS congratula a resolução aprovada pelo Conselho de Segurança, e solicita a sua aplicação imediata”, disse a secretária-geral do partido, Martine Aubry. “Mas quero reiterar que já tínhamos falado desta solução no final de fevereiro”. Mesma opinião do lado dos Verdes. “Nós não gostamos da guerra. Mas trata-se de uma necessidade de intervir”, afirmou Yves Cochet. “A França tem feito bem”, acrescentou. Mesmo os críticos mais severos contra Sarkozy, como o esquerdista Jean-Luc Melanchon, presidente do Partido da Esquerda, saudou a decisão francesa. Desta forma, ele divide a extrema-esquerda.
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O PCF (Partido Comunista Francês) é, de fato, o único que denunciou “o risco de escalada, provocando uma lógica de guerra, com conseqüências perigosas”. Ele conta somente com o apoio do partido trotskista Lutte Ouvrière (Luta Operária). “Milhares de mortes de civis causadas pela intervenção imperialista no Iraque e no Afeganistão estão lá para nos lembrar que é sempre o povo que paga o preço mais elevado das operações militares”, disse Nathalie Artaud, a porta-voz do partido.
O acordo quase geral da classe política francesa tem outra consequência: a crítica à posição dos países emergentes, incluindo Brasil, Índia, China e Rússia. “Mais uma vez, é a” família ocidental ” – os EUA, França e Reino Unido – que está na vanguarda”, declara, em um editorial, o jornal Le Monde. “O mundo emergente não está à altura. As chamadas potências do novo século não querem correr riscos”, lamenta o jornal. Em outro artigo, o Le Monde critica a passividade da Alemanha, que se absteve de votar, dizendo que, desta forma, Berlim não era coerente com suas ambições internacionais, incluindo seu desejo de ter um assento permanente no Conselho de Segurança.
Esta unanimidade levanta muitas questões, como observa Francis Bonnet, o redator-chefe do site internet Mediapart. Ele lembra a ambiguidade da resolução da ONU que, em seu parágrafo 4 º, autoriza “os Estados-membros a tomar as medidas necessárias”. Em teoria, qualquer força estrangeira de ocupação é proibida, mas a interpretação da resolução “abre novos e improváveis horizontes. É oficialmente, dizem os proponentes do presente texto, a luz verde para ataques aéreos. Isso pode significar muito mais”.
Bonnet lembra que ninguém, seja a opinião pública, o governo ou os militares, tem a verdadeira noção de um cenário de guerra até ser diretamente confrontado com ele. Ele lembra que Índia se absteve em razão da falta de informações críveis sobre a situação lá. De fato, qual é a verdadeira força de Kadafi? Quantos morreram desde o início da revolta? O que acontece realmente lá em Trípoli e no oeste? O que é este famoso “Conselho de Transição” instalado em Benghazi, imediatamente reconhecido por Sarkozy para o espanto de seus parceiros europeus?
A intervenção militar, liderada pela França “em nome da democracia”, tem pelo menos conseguido restabelecer internamente a diplomacia francesa, vítima de erros graves de Paris em relação ao Egito e à Tunísia. No entanto, continua sendo um passo perigoso em direção ao desconhecido, com a complacência da classe política francesa.
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