Sábado, 11 de abril de 2026
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A venda de órgãos pela internet, que tem se proliferado no Brasil nos últimos anos com o maior acesso à rede, chegou a uma nova trincheira: os sites de notícias. Portais que publicam reportagens sobre tráfico ou venda de órgãos recebem dezenas de comentários ou e-mails de pessoas de todo o país oferecendo órgãos para venda.

São, na maioria, pessoas desesperadas para pagar dívidas ou obter dinheiro para sobreviver, que aproveitam qualquer espaço possível para propagandear seus rins, fígado ou medula. Foi o que fez o desempregado Rogério*, de 21 anos, após ler reportagem no Opera Mundi sobre a venda de órgãos pela rede na Espanha.

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Tentando utilizar o espaço dedicado aos comentários, ele anunciou “vendo rim figado perfeita saúde tenho e-mail”. O comentário acabou não sendo publicado, mas Rogério topou contar sua história à reportagem.

 

“Estou desempregado desde agosto do ano passado, quando terminou meu contrato temporário em uma usina de cana-de-acúcar”, diz o técnico em telecomunicações, que mora em Barrinhas, interior de São Paulo. “Eu montava caldeiras para a usina, mas depois do contrato, fiquei sem trabalho. Agora estou em aperto financeiro”.

 

Rogério diz que teve a ideia dos anúncios quando navegava na internet. Leu histórias de pessoas que doaram os órgãos e resolveu arriscar. Postou em vários sites, mas até agora não teve resposta. “Ainda não sei quanto quero, vai depender do comprador. Só quero um dinheirinho para me sustentar por alguns meses”.

 

Vender órgãos é crime, segundo a lei 9.434, que, no artigo 15, prevê pena de três a oito anos e multa. A mesma pena vale pra quem intermedia ou facilita o comércio. Mas para a Polícia Federal, a venda pela internet não é considerada crime eletrônico, apenas mais um meio de cometê-lo.

 

Mesmo sabendo que vender órgãos é ilegal, Cláudio*, de 24 anos, preferiu arriscar e anunciar na internet. “Não estou roubando nem matando, ué”, diz ele.

“Estou vendendo, sim”

 

Além de listas de discussões (há centenas delas), ele usou dois sites noticiosos para tentar vender um rim e a medula. Procurado pela reportagem, foi direto. “Estou vendendo sim. Se tiver quem compre, eu vendo mesmo. Tem, não? Que pena!”.

 

Cláudio contou que através da internet foi procurado por um possível comprador, mas não aceitou a oferta de vender sua medula por 12 mil reais – considerou baixa demais. “Não fumo, boa saúde”, diz seu anúncio na rede.

 

Ele diz que deve cerca de 35 mil reais por causa da falência da uma loja de roupas em Juiz de Fora, Minas Gerais. Além de pagar a dívida, pretende cursar uma faculdade com o dinheiro que ganhar. Vende sua medula por 30 mil. Pelo rim, que “vale mais”, pede 130 mil.

“Moro com meus pais, mas tá todo mundo desempregado ou no seguro-desemprego”, lamenta. “Por isso dei uma busca no Google e anunciei nos sites que apareceram. Você acha rápido um montão de listas e notícias. A internet é o celeiro do diabo”.

 

A jornalista Andréa Dip, do jornal Folha Universal, conta que depois de fazer uma reportagem sobre venda de órgãos na internet, passou a ser procurada por internautas querendo vender. “São pessoas que estão precisando muito de dinheiro. Mãe solteira que precisa sustentar os filhos, pai de família desempregado há não sei quantos anos, outro com filho doente…”

 

A decisão do jornal foi não respoder às cartas dos leitores. Mesmo assim, Dip não se viu livre dos “vendedores”. “Postei a matéria no meu blog e todo dia tem gente anunciando. Fico até pensando que as pessaos leram a matéria e acharam um bom negócio, o que é um absurdo. As pessoas fazem por puro desespero. Quem vende é sempre pobre e quem compra é sempre rico, então não deixa de ser uma exploração”.

Para não incentivar

 

Ela conta que procura apagar todos os comentários assim que aparecem no seu site, para evitar incentivar esse comércio. Mas, mesmo assim, todo dia surgem novas pessoas tentando conseguir dinheiro com a venda de partes do próprio corpo.  

 

“Pode esperar que depois da sua matéria vai ter um monte de gente anunciando órgãos no seu site também”, completa.

Já existe, mas como em Opera Mundi os comentários precisam ser aprovados antes de irem ao ar, a equipe de redação optou por não liberá-los, exatamente para não incentivar tal procedimento, e também por considerar que esse tipo de comentário em nada contribui com as discussões acerca dos temas editoriais abordados.

* Nomes fictícios.

Internautas usam sites noticiosos para comércio de órgãos

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