Indigenismo: o lado obscuro da história mexicana
Indigenismo: o lado obscuro da história mexicana
Sobre a construção do México se assentam as culturas pré-hispânicas e a espanhola, os dois grandes pilares sem os quais seria inconcebível a existência de uma nação de 107 milhões de habitantes. O país nasceu em 1821, onze anos depois de ter iniciado o movimento insurgente que lhe daria a independência do domínio espanhol, mas foi a partir da mistura do sangue indígena com o sangue espanhol que se formou a essência da mexicanidade.
Existente até hoje, o sentimento de orgulho pátrio pelas culturas pré-hispânicas faz dos teotihuacanos, mayas, olmecas e mexicas serem vistos como criadores de grandes visões universais e possuidores de talentos no campo das artes, da construção e da guerra. Ano após ano, milhares de mexicanos participam dos equinócios de primavera nas pirâmides criadas por seus ancestrais para cumprir algo que se assemelha aos antigos rituais mesoamericanos, para orgulhar-se de seu passado. Atualmente, porém o mesmo não acontece com os indígenas, que foram escravizados desde a conquista espanhola até este ano de aniversários e celebrações.
Quando os espanhóis chegaram à Tenochtitlan – a capital do estado mexicano – encontraram-se com uma das maiores e mais prósperas cidades de sua época. Fundada em 1325, a cidade havia deixado de ser um assentamento para ser uma imponente cidade construída sobre um lago. O mais poderoso império mesoamericano regia o destino de várias nações norte-americanas por alianças ou submissão. Seu poderio militar sobrepunha-se a qualquer outro dentro de seus territórios.
Efe
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Foi justamente o domínio que os mexicanos exerciam sobre outras culturas o que determinou em grande medida o triunfo do conquistador espanhol Hernán Cortés para derrotar Tenochtitlan, em 1521, e assim poder fundar uma Nova Espanha. Um punhado de europeus com armas e cavalos – até então inexistentes em terras americanas – foram insuficientes contra os milhares de soldados e tribos guerreiras mexicanas. O estrategista espanhol, que prometeu liberdade e conseguiu aliados(que mais tarde trairia), pensou encontrar os pontos fracos de seu inimigo e aproveitar o ódio provocado pelos mexicas para terminar com o império governado pelo então Imperador Moctezuma.
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De nada valeram as alianças que os indígenas fizeram para ajudar Cortes a derrotar o império mexica, tampouco valeu sua força de trabalho sem a qual o império espanhol nunca teria visto sua época dourada. Mesmo assim, aos indígenas nunca foi concedido o direito de participar da construção do Estado. Pouco lhes foi permitido durante a colônia, no sistema de castas, por exemplo, eles estavam no escalão mais baixo. As damas da sociedade provavam com certo constrangimento facial a corporação que tinham verdadeira ascendência espanhola a ponto da cor da pele e dos olhos ser determinante naquela sociedade racista.
A Revolução
Trezentos anos mais tarde, formaram-se as fileiras do movimento insurgente que terminaria na guerra da Independência contra a coroa espanhola.
O que se conhece como o grito de independência do México viria 100 anos mais tarde. Em 20 de novembro de 1910 a revolução mexicana teve início e, uma vez mais, os indígenas lutaram contra os abusos de que eram vitimas. Obrigados pelos fazendeiros para quem trabalhavam a comprar em suas próprias tendas, com dinheiro de seus miseráveis soldos, artigos de primeira necessidade a preços exorbitantes, os índios eram submetidos a jornadas de trabalho estafantes, o que fez do campo mexicano passar a ser essencialmente composto por camponeses de origem indígena.
Porém, apesar da importância da participação indígena também neste processo, poucas foram as mudanças efetivas na vida destes povos. No novo país, o espanhol se impôs como idioma obrigatório deixando de lado as línguas indígenas. O mesmo aconteceu com as organizações comunitárias pautadas por usos e costumes dessas populações.
Composta por movimentos e forças coexistentes, como a dos indígenas, a revolução mexicana tornou-se possível, entre outros fatores, pela luta proposta por um homem jovem de traços mestiços, pele morena e olhar penetrante. Emiliano Zapata, que posteriormente se tornou o caudilho do sul, reivindicava por terra e liberdade para os desprotegidos.
Porém, ao final do conflito armado a divisão de terras não se deu como o esperado pelos que lutaram durante o conflito, mas sim em menor escala. Ejidos foram criados e o trabalho comunitário permitiu uma integração maior dos camponeses, enquanto que com os indígenas o desenvolvimento e a inclusão ocorreram em passos muito mais lentos.
Impasses e negociações
Em 1 de janeiro de 1994, quando o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) pediu publicamente o cumprimento dos direitos das comunidades indígenas, uma nova tentativa de resgate desta população ganhava força. “O surgimento do EZLN é um momento muito importante para nós e tem a ver com a luta pela dignidade indígena. Foi o grito desesperado dos povos indígenas do sul do México, já que a historia não fez justiça”, disse o escritor indígena Mardonio Carballo
O EZLN apresentou ao governo mexicano três propostas mínimas: a defesa dos direitos coletivos e individuais negados historicamente aos povos indígenas, a construção de um novo modelo de nação que inclua a democracia, a liberdade e a justiça como princípios fundamentais de uma nova forma de fazer política, e o tecido de uma rede de resistências e rebeldias em nome da humanidade e contra o neo-liberalismo. Entretanto, apesar da formalização das reivindicações, até hoje permanecem evidentes as consequências da colonização e exlusão indígena.
“Os indígenas têm sido relegados porque a construção do Estado se fez a partir de uma concepção social e econômica baseada em cânones e preceitos europeus, nos quais não entram em certas praticas econômicas produtivas dos povos indígenas. Sendo assim, a pobreza se estabeleceu de forma abrupta novos povos indígenas, já que o modelo que tínhamos de produção e economia não era compatível com o modelo imposto e que posteriormente foi assumido pela maioria dos que integram o México”, explica Carballo.
Foi apenas em fevereiro de 1996, depois de dois anos de negociações, que o governo do México e o EZLN firmaram o Acordo de San Andrés. No documento, a autoridade mexicana se comprometeu a modificar a constituição do país para garantir direitos, incluindo autonomia, aos povos indígenas e atender suas demandas por justiça e igualdade. “O governo federal firmou estes acordos, mas eles nunca foram cumpridos”, afirma Carballo.
Retomada
Atualmente no México existem 10 milhões de indígenas que falam 63 línguas e tentam coexistir em uma sociedade racista que, tal como o Estado, lhes negou direitos que têm a ver com o idioma, a autonomia e as práticas culturais.
“No México veneramos o índio morto e desprezamos o índio vivo, quer dizer, dizemos com orgulho do nosso passado indígena, as pirâmides e as culturas, mas não vemos os indígenas de hoje justamente porque eles não puderam se incorporar à sociedade e nem puderam ter uma melhor forma de vida”, aponta o historiador e escritor mexicano Alejandro Rosas.
Atualmente, a ideia de pensar em uma nova negociação que reconheça os direitos das comunidades indígenas se torna pouco palpável. “Não vamos poder reconhecer o outro pois não reconhecemos que somos iguais, mas sim distintos. O México mantém um profundo racismo, procura seus 20% de sangue europeu e esquece que duas gerações anteriores estão o avô e o bisavô indígena”, disse Carballo.
Antes de mais nada, explica o escritor, a sociedade e o Estado mexicano têm que reconhecer que houve um insulto dos povos indígenas e estes, por sua vez, terão que agrupar-se em uma força maior que trabalhe seu sentido de dignidade e pertencimento. “Teríamos que começar por reconhecer as diferenças e os perigos porque do contrário nunca vamos poder sentar para dialogar”, explicou Rosas.
Para ele, a incorporação dessas comunidades a sociedade mexicana deve ser viabilizada desde que cumpra as demandas para uma real integração social. “Teríamos que integrá-los de uma maneira paulatina, dando-lhes hospitais, luz elétrica, educação, infra-estrutura para que assim a própria sociedade indígena possa se organizar a ponto de serem considerados e considerar-se cidadãos” explica Rosas.
Carballo, por sua vez, explica que as comunidades indígenas nunca pediram um tratamento diferente e a autonomia pela qual reivindicam não está relacionada a fronteiras geopolíticas. “Não acreditamos nos guetos, o problema é que nossas vozes não são escutadas e temos este direito”, disse.
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