Sexta-feira, 3 de abril de 2026
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Pouco mais de um mês depois da visita do relator da ONU para direitos indígenas, James Anaya, à Colômbia, os indíos Awa denunciam mais um massacre. Por volta das 5 da manhã de ontem (26), 12 indígenas teriam sido assassinados dentro da reserva Gran Rosario, no município de Tumaco, departamento (estado) de Nariño, no sul do país.

Segundo comunicado da organização Unipa (Unidade Indígena do Povo Awa), as vítimas – todas da mesma família – foram atacadas enquanto dormiam na sua casa de madeira, dentro da reserva, a cerca de duas horas da estrada estadual, a pé. Teriam sido assassinadas a tiros por um grupo de homens usando uniformes militares e capuzes.

“É incompreensível que apesar da presença e intervenção de organismos e instituições nacionais e internacionais, os atores armados continuam violando os direitos fundamentais, o direito internacional humanitário e as mínimas condições de vida das nossas comunidades”, diz o comunicado da Unipa.

Entre as vítimas, estava Tulia García, que acusava o exército colombiano pelo assassinato de seu marido Gonzalo Rodríguez, em 23 de maio deste ano. A Unipa acredita que há relação entre os fatos e que o massacre teria sido efetuado por um grupo paramilitar. As Forças Armadas não se pronunciaram.

A perícia de investigação já visitou o local do massacre, mas ainda não há conclusões. O governo de Nariño oferece 130 milhões de pesos (cerca de 130 mil reais) como recompensa a quem tiver informações sobre o crime.

“Relatos preliminares sugerem que membros das Forças Armadas podem ter massacrado essas pessoas, com o intuito de eliminar e intimidar testemunhas de atrocidades,” disse José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch, em comunicado divulgado pela organização. “O governo precisa assegurar que haja uma investigação séria desse crime horrível”.

Fontes oficiais teriam informado à Human Rights Watch que Gonzalo Rodríguez foi morto por membros do batalhão 23 dos paramilitares, que teriam dito à promotoria que ele era membro das Farc e foi morto porque tentou escapar. Segundo a imprensa, Tulia García viu homens armados prenderem Rodríguez em 23 de agosto e depois encontrou o corpo numa beira de estrada, com a cabeça crivada de balas. Ela acusou as Forças Armadas de executar seu marido extrajudicialmente.

Segundo a HRW, fontes confiáveis informam que o massacre de ontem ocorreu na casa de García. Homens armados teriam matado seus dois filhos (uma menina de 6 anos e um menino de 5), outra mulher, um bebê de seis meses, três jovens de 12, 17 e 18 anos e dois homens. Dos três feridos, um é filho do governador da reserva Gran Rosario.

Acusação

Grupos paramilitares vêm ameaçando os Awa desde o ano passado. Em uma série de cartas enviadas desde abril de 2008, a Unipa é acusada de colaborar com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Em uma delas, a força paramilitar Águias Negras ameaça: “Seus líderes já caíram, faltam vocês, guerrilheiros filhos da p… De agora em diante, as surpresas serão para vocês”.

Segundo as lideranças, os Awa têm sido vítimas da guerra entre as Farc e o governo. Seu território tem sido repetidamente invadido por diferentes grupos armados, que acabam envolvendo os índios na guerra. “Queremos que nem a força pública nem nenhum grupo armado fique no nosso território”, diz o líder Apolinar Pascal. “Os Awa estão com medo, estamos acostumados a viver na nossa terra e ouvir ruídos das árvores, dos pássaros, e é um problema ficar ouvindo tiros por causa da guerra”.

Este não foi o primeiro massacre. Em fevereiro deste ano, 11 Awa foram assassinados a facadas na reserva Tortugaña-Telembi. As Farc assumiram a autoria do crime e acusaram os índios de serem colaboradores do exército, em meio ao acirramento das batalhas dentro da terra indígena.

A série de eventos violentos tem levado a deslocamentos massivos. Em julho, a reportagem de Opera Mundi visitou um abrigo para refugiados na terra indígena Awa. Cerca de 150 pessoas dividiam galpões de madeira em situação precária. Além do massacre de fevereiro na reserva Tortugaña-Telembi, outras violações também estavam levando os índios a abandonarem sua terra. A foto abaixo mostra uma família refugiada.

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“Eu saí por medo depois que meu irmão de 14 anos foi levado pela guerrilha”, conta Guilherme de Cortez, refugiado no abrigo da sede da Unipa, na reserva Gran Sabalo. “Ele estava trabalhando na minha terra, quando chegaram 4 guerrilheiros e levaram meu irmão à força. Me deixaram ir embora, e nunca mais soubemos dele. Fiquei com medo, não consegui continuar ali”.

Risco de desaparecimento

Guilherme contou à reportagem que pretendia voltar à sua terra, mas ainda estava inseguro. “Estou aqui há seis meses com minha mulher e meus filhos. Aqui (no abrigo) estamos mal porque não há comida boa, e não temos roupa… Quero voltar à minha terra, onde tem água, banana, mandioca, a minha casa”, lamentava.

Dos 77 indígenas assassinados na Colômbia este ano, 38 pertencem à comunidade Awa. Existem cerca de 30 mil Awa em 37 reservas no estado de Nariño. A região é estratégica porque fica entre a cordilheira dos Andes e a costa pacífica, tendo a fronteira com o Equador ao sul. Grande parte do tráfico de cocaína passa por rotas dentro desse território.

Em janeiro deste ano, a Corte Constitucional Colombiana julgou que o Povo Awa é uma etnia seriamente ameaçada de extermínio físico por causa da guerra. Outros 33 povos nativos colombianos correm o risco de desaparecer por causa do conflito.

* Texto e foto.

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