Sexta-feira, 24 de abril de 2026
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A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Oriente Médio esta semana gerou não só polêmicas e alfinetadas, mas também levantou esperanças de futuras ações e negociações com (e entre) autoridades palestinas para avançar no processo de paz com os israelenses.

Em meio a um cenário extremamente conflituoso, o presidente brasileiro defendeu a paz, diálogos com Israel, a criação de um Estado Palestino e o fim dos bloqueios contra a região, colocando o Brasil a disposição para eventuais mediações e futuros acordos comerciais.

“Vamos fazer tudo que estiver a nosso alcance para ajudar o povo palestino” disse Lula durante uma das cerimônias.

As palavras do presidente, mesmo não propondo nenhuma ação efetiva, preocuparam alguns e ao mesmo tempo reascenderam a esperança de outros. Mesmo assim, nem os mais otimistas conseguem abstrair as complicações que vêm atreladas a qualquer relação estabelecida com a Palestina, o que não se limita apenas aos conflitos com Israel e as sanções norte-americanas.

“A organização das próprias autoridades palestinas é comprometida. A divisão e a constante tensão entre os grupos do Hamas e Fatah impedem que um governo nacional seja criado e consequentemente se fortaleça para enfrentar e solucionar as questões internas e externas que afetam a região”, disse ao Opera Mundi o pesquisador Azzam Tamimi, diretor do Instituto do Pensamento Político Islâmico, em Londres.

A rivalidade entre as partes começou nos territórios ocupados na década de 1980, quando palestinos ligados ao movimento fundamentalista egípcio Irmandade Muçulmana criaram o Hamas, que entre os principais objetivos contesta a supremacia da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e prega a destruição de Israel.

“São dois pontos de vista completamente contraditórios e projetos opostos. Enquanto o Hamas quer libertar radicalmente a Palestina e garantir o retorno dos palestinos a seus lares, o Fatah, que foi criado originalmente com o mesmo intuito, agora acredita que é impossível que isso seja feito, portanto, defende que os palestinos se contentem com o que os israelenses estão dispostos a ceder a eles”, explica Tamimi.

Na opinião do pesquisador essas diferenças são os principais obstáculos para que líderes internacionais acessem a Palestina e tomem medidas em prol do povo. “É evidente que Israel dificulta e impede a realização de iniciativas exteriores pró Palestina, mas a organização de um estado nacional estável fortaleceria o país, o que também faria a diferença em termos internacionais”, completa.

Tamimi defende a necessidade de um governo com maior representatividade, porém não acredita em uma possível união bem sucedida entre Farah e Hamas.

“Diante da situação que estamos hoje eu não vejo isso acontecendo. Há muitas pessoas ao redor do mundo que apostam nessa união, mas a situação é muito mais complexa. Hoje existem palestinos que se tornaram sionistas e trabalham exclusivamente por interesses pessoais, há também líderes do Fatah que não trabalham efetivamente pela causa, esses são exemplos do porque a fusão não funcionaria”, argumenta.

Atritos

Em fevereiro de 2007, as duas partes tentaram chegar a um consenso com o Acordo de Meca, que previa o fim dos embargos econômicos impostos pelo Ocidente em razão das posições radicais do Hamas, e a criação de um governo de união nacional. Porém, os atritos superaram qualquer tipo de iniciativa nesse sentido.

“Os israelenses sabem muito bem que Mahmud Abbas [líder do Fatah] não representa todos os palestinos, sabem que o povo não deposita confiança nele e não se sente representado. Isso é extremamente benéfico para Israel, que além de deter controle da situação, vê o povo palestino fragmentado e entrando em conflito com seus semelhantes”, explica Tamimi.

O financiamento do Fatah por organizações européias e norte-americanas complica ainda mais a situação, já que desta forma “não é mais possível distinguir a liderança do Fatah e os interesses dos financiadores, fazendo com que a organização perca ainda mais credibilidade”, explica.

Reestruturação

Em razão de todos esses fatores, além do constante conflito com Israel, Tamimi considera praticamente inviável que haja ações efetivas na região antes de uma reestruturação local.

“A conjuntura formada durante décadas na Palestina dificulta as ações até mesmo de pessoas com vontade, como o presidente Lula. É impressionantemente difícil estabelecer relações mais íntimas, bilaterais com a Palestina sem que as questões internas sejam resolvidas, re-arranjadas e organizadas de forma que o governo funcione de verdade”, conclui. 

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Impasses internos inviabilizam ações para paz na Terra Santa, diz especialista

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