Hobsbawn: economias devem combinar elementos do socialismo e do capitalismo
Hobsbawn: economias devem combinar elementos do socialismo e do capitalismo
O socialismo teve seu fim com a queda da União Soviética e o capitalismo, com o colapso do sistema financeiro mundial em 2008. Antes antagônicas, hoje as duas experiências ideológicas devem ser combinadas para que se busque um caminho de recuperação econômica. Essa é a opinião do historiador britânico Eric Hobsbawn, um dos principais participantes do Fórum Político Mundial. Realizado nos dias 9 e 10 de outubro, em Bosco Marengo, Itália, o evento teve como tema “20 anos Depois: Os Mundos Além do Muro”. Em entrevista ao Opera Mundi, Hobsbawn defendeu a volta da busca do Estado de bem-estar social. “Acredito que o propósito da economia não deveria ser o lucro, mas o bem-estar de todas as pessoas, assim como a legitimação dependente de sua gente, não do poder”.
Como está o mundo 20 anos após a queda do Muro de Berlim?
Esses últimos vinte anos foram palco de uma guerra entre religiões e ideologias seculares. Seguindo razões históricas, mas lógicas, foram dominados pela oposição entre dois e somente dois tipos de economias, que se excluíam mutuamente. O socialismo, que se identificou com as economias soviéticas, e o capitalismo, que cobriu todas as demais.
A fundamental oposição entre os sistemas é que um quer eliminar tudo o que é privado e outro, tudo que é público.
Agora, as novas economias modernas precisam combinar o público com o privado, ambas as definições de socialismo e capitalismo. A planificação de um Estado do tipo soviético não sobreviveu aos anos 1980, o “fundamentalismo de mercado” ao estilo anglo-americano entrou em colapso em 2008. O século 21 deve reconsiderar seus problemas em bases mais realistas.
Como o senhor define a atual crise econômica?
A crise que estamos enfrentando é a mais grave desde os anos 1930 e ninguém sabe ao certo quais serão seus efeitos. Os impactos do último ano já foram catastróficos.
A única coisa que está clara é que a maior parte da economia mundial migrou das velhas nações Norte-Atlânticas às do Sul e às do Sudeste Asiático. De todas as formas, definir a economia de amanhã é um dos últimos problemas. A diferença crucial entre os sistemas econômicos está nem tanto em sua estrutura, mas nas prioridades morais e sociais.
Esse deveria ser o tema principal das discussões e está acima de qualquer forma de economia emergente também.
Quais são os possíveis cenários?
Vejo dois problemas cruciais: o primeiro, é que o fim do comunismo significou o imediato fim de alguns valores, práticas sociais, que por gerações estiveram vivas. Precisamos nos dar conta que desde o choque se produziu um terremoto social no sentido de rompimento social e de desorientação, que todavia permanece.
Serão necessárias várias décadas até que encontremos uma via estável, em que possa ser possível viver nessa nova era. Alguns elementos de rompimento social, de corrupção institucionalizada e de crime precisarão de ainda mais tempo para serem erradicados.
Que tipo de valores deveriam ser adotados?
Ambas as economias mencionadas foram subordinadas à tirania do PIB (Produto Interno Bruto) e também subordinaram o Estado de bem-estar social e sua justiça social. Tudo foi sacrificado em nome do crescimento econômico. Com isso, foi destruído o sistema de segurança social, de valores e de responsabilidades do serviço público. Agora, acredito que o propósito da economia não deveria ser o lucro, mas o bem estar de todas as pessoas, assim como a legitimação dependente de sua gente, não do poder. O crescimento econômico não é um fim, mas sim um meio para uma sociedade boa, humana e justa.
Não importa como chamamos os regimes que perseguem essa meta, e sim como e com quais prioridades vamos combinar os elementos do público e privado em nossas economias mistas. Acredito que estas serão as questões-chave no século 21.
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