Quinta-feira, 23 de abril de 2026
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O panorama é perverso: análises de economistas e dirigentes de
organizações campesinas mostram que a ajuda internacional, motivada
pelos desastres naturais, aumenta o grau de dependência das importações
e não permite o fortalecimento da produção agrícola haitiana, conforme
explicou em entrevista ao
Opera Mundi José Luis Patrola, professor de História, membro do MST (Movimento
Sem-Terra) e coordenador do programa de cooperação entre a Via
Campesina do Brasil e organizações camponesas do Haiti. Segundo
Patrola, até os anos 1990, os camponeses eram responsáveis pela
produção de 80% dos alimentos demandados pela sociedade. Hoje, produzem
somente 45%.

Qual foi a reação das pessoas após o
governo haitiano pedir para que todos que tivessem parentes fora de
Porto Príncipe saíssem da capital?

A concentração de gente na região de Porto Príncipe é enorme. Como o
terremoto atingiu principalmente essa zona, houve uma mudança radical
na vida de todos. Centenas de milhares de pessoas que perderam as casas
ou que estavam em uma situação difícil antes do terremoto montaram
enormes acampamentos em todas as praças da região metropolitana, em
especial a Cham de Mas,
localizada em frente ao palácio nacional. Outra parte migrou
massivamente para as zonas rurais fugindo do terror e à procura de
comida, moradia, água e o mínimo de abrigo. Estima-se que de 600 mil a
um milhão de pessoas abandonaram Porto Príncipe. Em resumo, mais de 250
mil pessoas morreram no terremoto e um milhão migrou em busca de outras
zonas. Um desastre sem precedentes.

Como é a situação socioeconômica no campo haitiano?

A área rural haitiana, que acolhe mais de 65% da população e é
responsável por grande parte da economia, é muito pobre. As poucas
terras férteis do país são dividas entre muitos camponeses. Cerca de
75% do território é montanhoso. Por uma série de fatores ligados à
abertura comercial, o campo haitiano tem sofrido bastante. Atualmente,
mais de 55% dos alimentos consumidos no país são importados. No
entanto, as organizações camponesas temem a invasão de sementes
híbridas e transgênicas como medida de combate à fome.

Quais são os principais produtos cultivados no Haiti?

Até os anos 1990 os camponeses haitianos eram responsáveis pela
produção de 80% dos alimentos demandados pela sociedade. Da produção de
leite, legumes e grãos, até gêneros industrializados, existia uma
economia agrícola razoável. Depois da abertura comercial e as
importações, o sustento dos agricultores acabou. Hoje em dia, apesar de
os camponeses cumprirem um papel importante na economia nacional, há
uma crise, agravada pela degradação das terras e a erosão do solo.
Esses problemas surgiram pelo desmatamento desenfreado, motivado pelo
consumo de carvão vegetal como combustível.

Os camponeses conseguem se sustentar com a produção?

A precariedade do sistema de transporte e as dificuldades em
comercializar seus produtos provocaram o aumento da pobreza. Os
camponeses são a categoria mais pobre e explorada da sociedade. Muitas
vezes se alimentam mal e destroem as florestas, por causa do carvão,
que acaba sendo a única maneira de gerar renda.

A doação de alimentos por estrangeiros tem qual efeito na produção local?

Análises de economistas e de dirigentes das organizações campesinas
mostram que a ajuda internacional, motivada pelos desastres naturais,
aumenta o grau de dependência das importações e não permite o
fortalecimento da produção nacional. É verdade que, em  momentos de
crise, a ajuda humanitária é importante. No entanto, ela precisa ser
transformada em ajuda estrutural no médio e no longo prazo. O Haiti é
um país que sofre muito pela ausência de soberania econômica, política
e alimentar. O terremoto comprovou uma vez mais essa terrível realidade.

Apesar de ser um país ainda bastante
rural, a representatividade política das massas rurais é fraca. Isso
pode mudar depois do terremoto?

Toda a sociedade haitiana está se transformando desde o terremoto. Até
onde chegará esse grau de transformação “espontâneo” é uma incógnita.
Existe uma elite política que concentra suas preocupações nos processos
eleitorais. As últimas eleições tiveram uma participação de apenas 8%
dos eleitores. Há uma descrença generalizada na política tradicional. A
população não se preocupa com o processo eleitoral, pois não há
esperança de mudança. Os políticos oportunistas se aproveitam dessa
circunstância para favorecer seus interesses pessoais. Existe uma
frente camponesa que poderá representar uma alternativa ao povo
haitiano de maneira geral. Os rastros do terremoto poderão marcar uma
nova década para as forças sociais que pautam um projeto de mudanças
para o Haiti. Existem sinais de unidade.

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