Grupo rebelde paraguaio sequestra pecuarista e pede vacas para comunidades carentes
Grupo rebelde paraguaio sequestra pecuarista e pede vacas para comunidades carentes
O pecuarista Fidel Zavala, de 46 anos, foi sequestrado no Paraguai há três meses. Ele foi levado de sua fazenda no norte do país, perto da fronteira com o Mato Grosso do Sul, na região do Rio Apa. O chamado Exército do Povo Paraguaio (EPP), um grupo radical de esquerda que garante empreender uma campanha armada para “salvar o país”, assumiu a responsabilidade pelo sequestro. Os órgãos de segurança acreditam que o pecuarista está em poder dos captores em uma região de mata entre os departamentos de Concepción e San Pedro, parte mais pobre do território paraguaio.
Assim que se completaram três meses de sequestro, o EPP lançou uma campanha midiática pouco usual. Como parte das condições para a libertação de Fidel, a família Zavala foi obrigada a entregar como “cortesia” 30 vacas abatidas e cortadas a comunidades carentes, como reservas indígenas do interior e moradores de uma das villas (como as favelas do Brasil, mas perto do Rio Paraguai) de Assunção, a capital do país.
EFE (12/01/2010)

Açougueiros no populoso bairro de Chacaritas, em Assunção, distribuem carne às pessoas
A entrega da carne foi coordenada pelo irmão do sequestrado, que, em contato com a imprensa, insistiu que o gesto foi uma “cortesia do EPP”.
Diego Zavala, irmão do sequestrado, confirmou há alguns dias ter recebido uma prova de que Fidel está vivo. Em entrevista coletiva antes de anunciar a entrega da carne, ele pediu pela terceira vez ao governo que retirasse uma missão de segurança da zona do sequestro, para que pudesse continuar as negociações com o EPP. O governo recusou o pedido, argumentando que não pode render-se à chantagem de um grupo que deseja uma zona livre.
O grupo
O EPP foi criado há alguns anos e seu principal método de ação, até agora, se baseou nos sequestros, embora o grupo tenha lançado também um ataque a uma unidade militar. O governo reconheceu a existência da organização e a qualificou de “grupo de delinquentes”. Ontem (15) um carregamento de 450 fuzis de origem israelense comprados da Colômbia chegou ao Paraguai exclusivamente para combater o grupo.
Vários sequestros são atribuídos ao EPP, mas os mais conhecidos são o de María Edith de Debernardi, levada em 16 de novembro de 2001 e libertada depois do pagamento do resgate em janeiro de 2002; o da jovem Cecilia Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas (1998-1999), sequestrada em 21 de setembro de 2004 e encontrada morta em 16 de fevereiro de 2005; e o último, antes de Fidel Zavala – o sequestro do pecuarista Luis Alberto Lindstron, levado em 31 de julho de 2008 e libertado mediante pagamento de resgate dois meses depois.
A Justiça já condenou algumas pessoas e processa outras que considera responsáveis por estes sequestros, todas supostas integrantes do EPP. Dos condenados, dois reivindicam a luta armada e não negam ser membros do grupo. Alcides Oviedo e Carmen Villalba, marido e mulher condenados pelo sequestro de María Edith de Debernardi, são considerados líderes do grupo. Eles estão em prisões de segurança máxima em Assunção.
A Justiça também pede ao Brasil a extradição de outros dois supostos líderes do EPP, Anuncio Martí e Juan Arrom, procurados pelo sequestro de María Edith, que obtiveram asilo político e hoje vivem escondidos em solo brasileiro.
No estilo de Robin Hood
O sequestro de Zavala é o mais longo do Paraguai. E se tornou o mais incomum, por causa das exigências que o chamado EPP fez à família do refém. Na segunda-feira, dia 11, os Zavala anunciaram que iriam entregar 30 vacas abatidas e cortadas a comunidades carentes, por “cortesia” do EPP. Embora isso não tenha sido admitido publicamente, tratou-se de uma exigência do grupo, cumprida à risca. O governo, que não pode deter a ação, qualificou o incidente como “um insulto do EPP à família Zavala e à cidadania” e anunciou mais iniciativas para perseguir os sequestradores.
Na terça-feira, dia 12, a família Zavala cumpriu a promessa. Entregou quilos de carne a uma comunidade pobre de Assunção e a dois assentamentos indígenas do departamento de Concepción. Um grupo indígena se recusou a receber o “presente” do EPP.
Políticos de todos os partidos coincidiram em qualificar a chantagem de “lamentável”, mas o deputado Elvis Balbuena, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA, no poder com o presidente Fernando Lugo), foi um pouco mais longe. Disse que a estratégia do EPP no estilo de Robin Hood não seria favorável para as pretensões do grupo e que se indignava com “tanta baixeza dos que se dizem integrantes do EPP”.
“Não acredito que lhes seja favorável essa atitude de querer fazer o papel de Robin Hood e roubar dos ricos para dar aos pobres”, afirmou Balbuena.
No estilo de Robin Hood ou não, a carne foi entregue e o ato, apresentado como “cortesia” do EPP. Sobre a eventual libertação do pecuarista Fidel Zavala, pouco se fala. Tampouco se diz se algum resgate foi pago (foram pedidos 5 milhões de dólares).
Em meio à polêmica, a família confirmou ter recebido uma prova de vida, o que motivou a esperança de um regresso em breve. Por enquanto, a “cortesia” do EPP com o gado dos Zavala continua inspirando intenso debate no Paraguai. Fidel continua desaparecido.
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