Governo Lula divide opiniões na esquerda latino-americana
Governo Lula divide opiniões na esquerda latino-americana
Cerca de 600 representantes de 54 partidos e organizações progressistas e de esquerda da América Latina se reuniram em Buenos Aires, na última semana, para a realização da 16ª. edição do Foro de São Paulo. O evento, historicamente liderado pelo Partido dos Trabalhadores, estabelece resoluções para a região, geradas por consenso após debates e discussões. As impressões acerca da passagem de Luiz Inácio Lula da Silva pela presidência, no entanto, não são unânimes entre os membros oficiais do evento.
Para Luis Villacís Maldonado, dirigente nacional do Movimento Popular Democrático (MPD) do Equador, o mandatário não correspondeu às expectativas da esquerda e não mudou a estrutura política do país. “Lula atuou sob os ditames do Fundo Monetário Internacional, de acordo com os desígnios do imperialismo norte-americano, baseado em um projeto político que não tem nada a ver nem com o socialismo”, declarou em entrevista a Opera Mundi. “Tínhamos a perspectiva de uma postura revolucionária, mas vemos neste governo a continuação dos problemas capitalistas e não a representação da esquerda”.
A opinião coincide com a do porta-voz do Partido Comunista Marxista Leninista (PCML) do Equador, Oswaldo Palácios. “A situação dos trabalhadores e dos milhões de pobres não teve uma solução firme e real”, afirma. “O governo brasileiro desenvolveu políticas assistencialistas sem mudanças profundas, radicais, que certamente muitos setores da sociedade brasileira empobrecida, explorada e desempregada esperavam do seu governo”.
Contrária aos argumentos equatorianos, a coordenadora de Relações Internacionais da Frente Nacional de Resistência Popular de Honduras (FNRP), Betty Matamoros, acredita que os brasileiros sentiram as transformações fomentadas pelo projeto político atual. “Às vezes queremos que as mudanças se dêem rapidamente, mas sabemos que é difícil”, pondera. “O Brasil, agora, é um símbolo para a América Latina, com um crescimento que não é visto em outros países, o que para nós tem um significado que muitos dos próprios brasileiros não valorizam.”
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Na opinião de Gino Straforini, do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), do Chile, afirma que exigir de Lula uma “postura revolucionária” é ir além de seus compromissos de governo. “Acredito que ele foi além do que podíamos esperar no contexto real da América Latina”, ressalta. “Ele nunca se classificou como um revolucionário, então não peçamos a um homem o que ele nunca disse ser.”
Luciana Taddeo/Opera Mundi

Para Carlos Baráibar, da Frente Ampla uruguaia, Lula fez uma boa gestão e correspondeu as expectativas
Edgar Augusto Ortiz, do Partido Alternativa Nova Nação (ANN), da Guatemala, também argumenta em defesa do mandatário brasileiro. “Para chegar ao poder, Lula teve que ampliar suas alianças e diminuir as transformações que propôs”, ressalta. “Ele governa o sistema capitalista de uma das maiores economias do mundo. Realizar una transformação social radical será processo longo e difícil.”
Otimista, o senador Carlos Baráibar, da Frente Ampla uruguaia, elogia a gestão petista. “Lula correspondeu às nossas expectativas”, afirma. “Construiu um modelo alternativo, que teve sucesso, e pelo que tudo indica a Dilma vai sucedê-lo, dando continuidade a esta política transformadora.” Já para José Agarraberes, da Frente Grande argentina, o ponto positivo deste governo foi o aumento da distribuição de renda no Brasil: “Houve uma transformação gradual, importante, consolidando uma força popular entre os setores mais necessitados. Milhões de brasileiros estavam na miséria e hoje comem todos os dias. Temos que perguntar para eles se o problema da fome foi resolvido.”
Jorge Schafik Hándal Vega, dirigente da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (de El Salvador), afirma que a avaliação do presidente brasileiro deve basear-se em uma comparação entre a situação do país no momento em que Lula assumiu a presidência com os índices de hoje. “Talvez ele não tenha feito tudo o que se esperava dele. Mas estamos lutando pela transformação de um sistema que existe há mais de duzentos anos, que construiu pilares políticos, econômicos e sociais que não podem ser alterados da noite para o dia”, argumenta.
Política Externa
Os esforços para a integração regional, por parte do governo brasileiro, talvez sejam o tema que receba melhor avaliação. “O Brasil teve um protagonismo fundamental e foi um dos propulsores para a construção da União de Nações Sul-Americanas (Unasur) como força política, social e, principalmente, econômica. Para a América Latina, o Brasil é o eixo e, para a Argentina, nosso maior sócio e maior aliado”, garante Agarraberes.
Luciana Taddeo/Opera Mundi
Agarraberes acredita que Brasil é fundamental na integração sul-americana
Matamoros afirma que, ao abrigar o ex-presidente Manuel Zelaya na embaixada brasileira após o golpe que o derrubou no ano passado, o governo ganhou “afeto e um carinho especial” da população hondurenha. “O Brasil defendeu nosso presidente e mantém a mesma postura firme há um ano, com coerência. Este é um símbolo que nosso país não vai esquecer, entrou para nossa história”, afirma.
O salvadorenho Schafik Handal menciona as relações com o Irã como um dos aspectos saudáveis da política externa brasileira. “Falamos de um país com seu próprio modelo, sua própria cultura e devemos lutar pela modernização de alguns aspectos relacionados aos direitos humanos, como a proibição do estudo para mulheres”, ressalta. “Mas não podemos contrapor esta diferença de cultura ao roubo dos recursos energéticos mundiais pelos Estados Unidos, para que fomente seu potencial bélico e continue dominando o mundo por este meio.”
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