Terça-feira, 7 de abril de 2026
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Nem só de heróis e vilões vive uma história em quadrinhos. Nem a História, com H maiúsculo, embora em casos de golpes e ditaduras fique bem claro o papel assumido por quem os defende e por quem resiste. Os norte-americanos Dan Archer e Nikil Saval tiveram isso em mente quando elaboraram uma versão quadrinizada do golpe militar em Honduras, lançada esta semana.

“Nosso impulso veio de um sentimento de que, da forma como estava sendo tratada na mídia, a questão de Honduras estava sem contexto histórico. Nós dois estudamos outros temas relacionados à América Latina e sentimos que era imperativo discutir o golpe em termos de raízes históricas, e menos como uma questão constitucional ou de duração de mandato”, contam Archer e Saval ao Opera Mundi.

Com apenas oito páginas e publicada na íntegra em suporte online (a versão em papel contém só a primeira parte e pode ser comprada aqui), a HQ “The Honduras Coup: a graphic history” começa com o retorno do presidente Manuel Zelaya e seu refúgio na embaixada do Brasil, e retorna no tempo até as intervenções norte-americanas na América Central, no início do século XX. Depois, a narrativa segue com as origens da crise econômica em Honduras e a mudança política do governo de Zelaya, até reconstituir, passo a passo, o processo de sua deposição.


A reportagem em quadrinhos ou graphic reporting (um desdobramento da graphic novel) foi o recurso que os dois jornalistas e artistas encontraram para chamar a atenção de um público em seu país que parece apático às notícias internacionais, mesmo que aconteçam logo ali, na América Central, antigo “quintal” dos Estados Unidos.

“O que o jornalismo em quadrinhos oferece a mais sobre o jornalismo convencional é a possibilidade de apresentar um volume denso de informações sobre um tópico complexo de uma forma concisa e acessível. Ao condensar um assunto polêmico em poucas páginas, os leitores têm a chance de se familiarizar com uma notícia que, de outra forma, poderiam ignorar ou só ler por alto”, explicam.

Os desenhos foram baseados em imagens da BBC, da TeleSur e do programa DemocracyNow!, produzido por jornalistas progressistas nos EUA. Archer e Saval, que também são pesquisadores da Universidade Stanford, na Califórnia (EUA), contam que procuraram usar diferentes fontes de informação, tanto para o texto quanto para as ilustrações – inclusive jornalistas independentes que estão em Honduras. Como novos fatos não param de acontecer, os dois tiveram de modificar a HQ várias vezes.

“Por exemplo, precisamos rever nosso desenho da reação oficial dos EUA de acordo com novas declarações feitas pelo Departamento de Estado. Mas também levamos em conta novas análises produzidas por intelectuais hondurenhos ou na imprensa local – por exemplo, nossa citação de Armando Sarmiento nesse contexto.”

Apesar da precisão e da busca por um olhar abrangente, os quadrinistas ponderam com humildade que “não se deve superestimar a importância da HQ” e que a resistência de verdade se faz em campo. “Jornalistas, intelectuais, políticos simpatizantes e ativistas em Honduras neste momento estão fazendo o trabalho relevante. Esperamos apenas que os quadrinhos estimulem o debate sobre o assunto e levem-no a uma audiência mais ampla.”

O trabalho de Archer e Saval com jornalismo em quadrinhos busca inspiração em um mestre do gênero, o maltês Joe Sacco – autor de “Palestina”, “Área de Segurança Gorazde” e “Uma História de Sarajevo” (todos lançados no Brasil pela editora Conrad). Admirador confesso, Dan Archer conta que o trabalho de Sacco foi uma referência quando fez seu mestrado em cartunismo.

“Sua grande marca [de Joe Sacco] é a habilidade para conferir seriedade de documentário à forma enquanto estimula um ceticismo saudável sobre suas fontes e seus pontos de vista contrastantes. Isso para não falar no trabalho que ele fez para ampliar nossa compreensão sobre os quadrinhos como muito mais que super-heróis”, diz.


Além de traduzir a HQ de Honduras para espanhol e francês, e talvez produzir uma continuação, os próximos projetos de Dan Archer e Nikil Saval incluem um trabalho sobre um choque entre operários e manifestantes contra a Guerra do Vietnã, ocorrido em Nova York em 1970, e sobre o golpe de 1973 no Chile, que levou à ditadura de Augusto Pinochet.

A reportagem “The Honduras Coup: a graphic history” pode ser lida na íntegra, em inglês, no site Archcomix.com e no portal Alternet.

Golpe em Honduras é recontado em história em quadrinhos

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