Sábado, 16 de maio de 2026
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Um conjunto de fatores indica que o atual governo italiano, liderado pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, vive uma profunda crise. A perda de apoio político, a queda da popularidade de Berlusconi – a taxa de aprovação é de 35%, a menor desde a eleição, em 2008 – e a convocação de novas eleições, parecem anunciar uma mudança de cenário.   



Nichi Vendola, governador da região da Apúlia, conhecido por no passado atuar no combate à máfia, desponta como um dos possíveis rivais do primeiro-ministro. Líder do partido Esquerda Ecologia e Liberdade (SEL, na sigla em italiano), nascido da fragmentação da Refundação Comunista, Vendola parece congregar apoio também fora de sua base eleitoral. Em nível regional, venceu por duas vezes o Partido Democrático nas primárias da coalizão, tornando-se o representante de toda a centro-esquerda.   

Divulgação



Vendola: “esquerda não soube usar as lentes adequadas para captar as transições e intervir com uma proposta eficiente”


Agora, ele quer repetir a experiência em nível nacional, não sem incomodar a dirigência do PD, o maior partido da oposição, que não garantiu candidato capaz de atender ao consenso popular. Os detratores de Vendola argumentam que sua candidatura afastaria os votos dos católicos e dos moderados, mas o líder do SEL, gay e católico, se diz capaz de contornar possíveis rejeições.   



Em entrevista ao Opera Mundi, Vendola articula sua visão particular da crise política e cultural na Itália, o impacto que Berlusconi teve sobre a vida política italiana, e explica porque para sair dessa situação é necessário gerar um programa de governo que volte a se ocupar dos problemas sociais. Para ele, a esquerda – que hoje conta com um panorama diminuto em todo o continente europeu – deve se estabelecer como alternativa concreta à crise mundial.   

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Qual é a origem da atual crise italiana e o que pode ser feito para inverter essa tendência negativa?

O ‘berlusconismo’ funciona como uma autobiografia da Itália hoje. O trabalho foi excluído por completo do debate público, como também a escola. Como não perceber que o 'berlusconismo' começou a vencer, enquanto a escola pública começou a perder e uma certa televisão começou a emergir como educador único, verdadeiro incubador de sonhos e medos privados? Hoje, vivemos um momento de transição. É preciso dar um fim ao do ‘berlusconismo’, inverter essa tendência, buscar meios para mudar o imaginário popular, intervir na formação das ideias gerais desse país. Isso implica em assumirmos um compromisso social fundamental como interlocutores de luta e de construção de uma nova imagem do futuro, contribuindo para ampliar a unidade à esquerda, para darmos a maior resposta possível à expectativa de mudança que há neste país.   

A esquerda italiana é obcecada por Berlusconi. Ele é realmente a origem de todos os males do país?

Ao compreender o conflito de interesses como uma peculiaridade italiana, passamos a identificar Berlusconi como uma anomalia, um fenômeno pré-político, uma transição folclórica e frívola, que teria mais a ver com a Bagaglino (controversa empresa de entretenimento) do que propriamente com a sociedade italiana. Acontece que Berlusconi não começou a vencer 20 anos antes de surgir na cena pública, mas na medida em que se intensificava uma visão cada vez mais subalterna da política como administração, que não podia mais representar a construção de antagonismo ou de ideias alternativas, ou seja, a política feita sob condições determinadas. E depois, porque os partidos de massa foram extintos na Itália, das grandes correntes de pensamento, das famílias. A esquerda não soube usar as lentes adequadas para captar as transições de época e intervir com uma proposta eficiente de sociedade e desenvolvimento.   

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Qual será a herança do ‘berlusconismo’?   

O 'berlusconismo' não terminará logo após uma eventual derrota do primeiro-ministro nas urnas. A cultura, a ideia de sociedade, a repressão e o extremismo doutrinário e racista que exprime devem ser eliminados, com empenho e dedicação, por meio da boa política e de uma profunda inovação cultural, a fim de erradicar suas nocivas sementes do imaginário dos italianos.   

A esquerda vive uma crise de identidade na Itália e, de forma geral, em toda a Europa. O que significa ser de esquerda no século 21?   

O Partido Esquerda, Ecologia e Liberdade adquire sentido no momento em que se apresenta como objetivo à esquerda do futuro, do século 21. Assim como a semente deve morrer para gerar o embrião, nós devemos vivenciar o partido como instrumento, em vez de ‘fetichizá-lo’. O objetivo é a esquerda, a Itália, a mudança, a transformação da sociedade. Ser de esquerda significa restabelecer uma ligação virtuosa entre trabalho, liberdade e conhecimento; construir uma crítica prática a um economicismo que consome a humanidade no processo produtivo, degradando a dignidade e a vida em nome do lucro.   

Fala-se insistentemente de “país bloqueado” e de fuga de cérebros. A Itália é um “país para velhos”? Qual é o horizonte para a geração dos jovens, que cresceu sob a ideia de que não conservarão o padrão de vida de seus pais?   

Se não houver uma intervenção imediata, o horizonte que se vislumbra é opaco, algo que consumirá duas, talvez três gerações. A política imprudente dos últimos anos na Itália, em um campo fundamental como o da formação escolar, constituíram um verdadeiro golpe na esperança dos jovens, considerados mais como um problema que um recurso. A educação em nosso país vive uma crise profunda, porque é encarada pela classe dirigente como um luxo insustentável e, com um ato de extrema miopia política, é submetida ao bisturi do governo a cada documento de planejamento econômico. Um ato míope, porque não se compreende que a pesquisa e o saber são setores estratégicos para o futuro produtivo, econômico e social do país. Acredito que este seja um dado indiscutível e irrefutável. Além disso, muitos jovens são obrigados a esconder em seus currículos o alto nível de formação alcançado, para ter acesso a ocupações precárias e não exatamente condizentes às suas aspirações.   

Se não assumirmos como conceito fundamental que a formação escolar, a cultura e o saber são elementos-chave para o futuro da Itália, dificilmente a mudança virá.   

 

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Uma camada da população desenvolveu uma sensação de impotência, frustração e desconfiança com relação à classe política. Qual é o seu plano para esses italianos?   

Podemos partir de um dado fundamental: se estancamos a precariedade do trabalho, reduzimos também a precariedade existencial. Recolocar o trabalho no centro da agenda política: esta é a receita. Conciliar saber e trabalho. Se temos em mente um objetivo claro e trabalhamos para atingi-lo, podemos até nos perder no decorrer do trajeto, mas depois retomamos a estrada que leva inevitavelmente à proteção dos direitos e ao desenvolvimento econômico. Se os objetivos são outros, se os interesses individuais prevalecem sobre os coletivos, então continuaremos a nos debater sem jamais analisarmos a verdadeira natureza dos nossos problemas.   

A Itália sai de um período de duas décadas de políticas que colocaram em questão (e de fato desmontaram) o status quo tanto da direita quanto da esquerda. O resultado dessas políticas, porém, não produziu um país economicamente mais dinâmico. É possível conjugar uma visão solidária do Estado a uma gestão virtuosa das finanças públicas?   

À morte do estado de bem estar social, destacadamente intencional, acrescentou-se ao fato de que a crise que atingiu o planeta é resultante da falha histórica das políticas liberalistas. O país não é dinâmico de um ponto de vista econômico porque na Itália não há regras no mercado, porque o estado não é o que deve ser, mas sim o ponto de vista do interesse global. É nisto que reside o financiamento da atividade produtiva. O lucro não existe para atender ao destino daqueles que se encontram em dificuldade, mas para enriquecer os já ricos. Por isso, embora exista, o virtuosismo dos indivíduos não compensa a ausência de um estado de bem estar imaginado. O governo corta os gastos sociais como nunca antes visto, enquanto continuam a crescer os gastos públicos. É um paradoxo. Na Itália, a política de contenção da dívida é posta em prática como fuga do crescimento, enquanto existe a necessidade de repensar o estado de bem estar social, não como despesa passiva, mas como motor do desenvolvimento, pensado pelos jovens e para a sua formação. Prova disso é que a Itália talvez seja um dos únicos países europeus a não fornecer renda básica aos cidadãos.

A crise que estamos vivendo é somente o início de uma mais estrutural? Ou é um episódio que poderá abrir novos cenários para o futuro?   

Em muitos países, a crise já corroeu consideravelmente importantes setores estrututurais da economia, fagocitando a produção e os rendimentos. Na Itália, por exemplo, estamos a toda hora assistindo a um perigoso desmoronamento social, com famílias inteiras, trabalhadores dependentes e todo o setor das pequenas e médias empresas ccorrendo o risco de entrar na faixa da ‘nova pobreza’. Nos últimos anos, nada menos que dez pontos do PIB passaram do bolso dos trabalhadores aos lucros e às receitas. Os dados sobre o crescimento da pobreza indicam que a miséria social não pode ser considerada um dado ornamental, incluído em um vazio discurso sociológico. A pobreza é um dado estrutural da Itália e da Europa, e acredito que as políticas postas em prática devem ter como prioridade a luta pela proteção às pessoas, às crianças, aos velhos, às famílias. Sair da crise requer um esforço definitivo e decisões políticas claras com vista à reestruturação do estado de bem estar social, dos direitos e da renda para a classe média baixa. A crise constitui, portanto, uma grande oportunidade, desde que enfrentada com antídotos apropriados, além da compreensão da advertência que ela transmite.   

A crise econômica evidenciou as falhas do modelo de desenvolvimento ocidenta. É possível um modelo diferente? O quanto pode incidir sobre esta dinâmica internacional a ação de governo de um só país?   

Um modelo diferente não é apenas possível, como urgente. A fábula do neocapitalismo nos remete a um mundo sujeito à lógica predatória de poucos, polarizado na distribuição de recursos e riquezas. Um mundo em que os valores do mercado se sobrepuseram ao valor do trabalho, como elemento de coesão social e produção de riqueza. A tecnologia está à serviço do capital, e não do trabalho. A globalização, por sua vez, ampliou o quadro, anulando os direitos dos trabalhadores e propondo um modelo ancorado na exploração selvagem de recursos. Permanecem na memória as imagens do desastre que atingiu o Golfo do México – uma mancha negra que representa uma clara advertência à espécie humana. Então, é preciso partir de um modelo em que a tecnologia seja um elemento que ajude a combater o esgotamento físico, ao invés de eliminar o trabalho humano. Devemos buscar um compromisso avançado entre crescimento econômico e ecologia, tendo a coragem de empenhar sob esses temas toda a governância global.

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