Fusão Deutsche Borse-Euronext pode esvaziar bolsa de Paris
Fusão Deutsche Borse-Euronext pode esvaziar bolsa de Paris
O nascimento da maior bolsa de valores mundiais, oficializado nesta
terça-feira (15/02), provoca incertezas quanto ao papel da bolsa de
valores de Paris, dentro do novo cenário do mercado financeiro. Os
operadores Deutsche Börse, responsável pela Bolsa de Frankfurt, na
Alemanha, e Euronext, que gera as Bolsas de Paris, Lisboa, Amsterdã,
Bruxelas e Nova York, juntaram forças. A megabolsa será a número um em
volume de negócios e capitalização. Ela vai movimentar em torno de 20
trilhões de dólares anuais.
O novo gigante passa a responder por cinco
praças financeiras europeias e pode redistribuir os papéis que cada uma
ocupa atualmente no mercado.
De acordo com um comunicado conjunto
divulgado pelo grupo, as operações com derivados serão executadas a
partir de Frankfurt e as operações de cash (ações) e de listing
(emissão de títulos no mercado primário) serão concentradas em Nova
York. Em Paris, ficará apenas a gestão dos sistemas de tecnologia da
informação.
França enfraquecida
“É quase uma má notícia para Paris”, garante
Gunther Blancard, diretor adjunto do Centro de Estudos Prospcetivos e
de Informações Internacionais, (CEPII) e especialista em mercados
financeiros da Universidade Panthéon Sorbonne, na França. “A Bolsa de
Paris corre o risco de ser marginalizada, pois o essencial da atividade
deve ficar entre Nova York e Frankfurt, as novas sedes do grupo”,
afirma.
A capital francesa deixa de ser a sede da
Bolsa Internacional, como é atualmente dentro da Euronext, cedendo o
lugar para Frankfurt. É nas mãos da bolsa alemã que ficará 60% do
capital da nova empresa, que ainda não tem nome. Com a Euronext ficam
os outros 40% e a indicação de sete dos 17 membros do comitê diretor.
Paris Europlace, organismo que representa os
interesses dos atores do mercado financeiro francês, quer garantir o
espaço da Bolsa de Paris. As autoridades querem que ela continue sendo
líder na Europa em: seguros, número de empresas cotadas, força de
investidores institucionais, capitalização e volume e valor das trocas
de produtos no mercado monetário.
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A capital francesa abriga o mais importante
pólo de cotação dentro da Zona Euro e é a primeira na compensação de
títulos e na negociação de ações (cash equity). “Paris vai perder em
influência, mas é também uma oportunidade para que ela se especialize
em um setor ou mais”, acredita Gunther Tschiderer, gerente de fundos de
um grande banco francês.
No entanto, a Euronext-Deuschet Borse afirma
que as bolsas existentes vão manter seus nomes no mercado e devem
funcionar de acordo com a mesma estrutura e sistema de regulação atual.
Culpa da crise?
Para Blancard, a multiplicação dos acordos
entre bolsas de valores não está ligada à crise financeira que atingiu
em cheio o mercado europeu. “Se a crise não tivesse acontecido, nós
teríamos esse mesmo movimento de fusão, só que ele teria acontecido
mais cedo. A evolução das novas tecnologias permite a existência de
bolsas mundiais completamente informatizadas e facilita o processo”,
alega.
Em 2007, a Comissão Europeia abriu o mercado
para novos operadores privados impulsionando as uniões no setor. Para o
economista, as transações internacionais serão facilitadas beneficiando
investidores e empresas. “Hoje é mais fácil para os investidores
franceses comprarem títulos americanos e para os americanos terem
acesso ao mercado europeu”, exemplifica.
A união faz a força
A compra da Bolsa de Toronto (TMX Group)
pela London Stock Exchange (LSE) foi anunciada na última semana e deve
dar origem ao quarto operador mundial. A bolsa de Cingapura está em
negociação pela compra da australiana ASX.
Luiza Duarte
Prédio da Bolsa de Paris, símbolo de um nacionalismo que é aos poucos substituído por plataformas eletrônicas
A fusão das praças financeiras se traduz em
redução de custos para enfrentar a concorrência das plataformas
informatizadas alternativas e dos mercados emergentes. Cerca de 300
milhões de euros de economias anuais serão gerados com a criação da
megabolsa.
A capacidade desses operadores de conquistar
novos mercados também está ligada ao desenvolvimento de produtos
tecnológicos que garantam sistemas eletrônicos ágeis e seguros. Eles
representam 14% dos negócios da Deutsche Börse- Euronext. Já a troca de
produtos derivados representa 37% das atividades e aparece como uma
opção mais lucrativa diante da queda de rentabilidade do mercado de
ações, que responde pelos 29% restantes.
“A próxima etapa será certamente a fusão do
grupo com uma bolsa de um país emergente dentro desse processo de fusão
internacional dos mercados financeiros”, anuncia o economista, tendo em
vista a progressão das praças financeiras na Ásia e América Latina.
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