Quarta-feira, 20 de maio de 2026
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Maria Isabel Chorobik de Mariani não tem problemas em admitir que,
durante muitos anos de sua vida, votou por obrigação e não se
interessava por política. “Você não entende nada”, escutava do marido e
do filho a então professora de educação artística, quando demonstrava
sua falta de conhecimento sobre a situação do país.

Em uma das anedotas que costuma contar, relembra quando seu filho,
Daniel Mariani voltou de uma viagem ao norte argentino com os amigos e,
eufórico, contou que tinha dormido na mesma cama em que um dia se
deitou Che Guevara. “Quem é Che Guevara?” perguntou ela, sem entender.

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Mas, com a chegada da ditadura militar na Argentina, após o
golpe de estado de 1976, a política e a luta pela justiça passaram a
ser motores de sua vida. Chicha, como é conhecida, tornou-se um símbolo
da luta pelos Direitos Humanos na Argentina, ao fundar e ser a primeira
presidente da Associação Avós da Praça de Maio e por anunciar sua
suspeita de que sua neta seja Marcela Herrera de Noble, filha adotiva
de uma das donas do Clarín, principal jornal do país.

Luciana Taddeo



Chicha, de 90 anos, ainda reúne forças para descobrir a verdade sobre a neta.

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Chicha recebeu Opera Mundi em sua casa e, com um longo relato,
feito com sofreguidão devido aos seus problemas de saúde, entre eles
três lesões no coração, ela contou como foram seus anos de procura por
sua neta desaparecida. “Não posso te contar exatamente tudo o que fiz
para encontrar durante todo este tempo. Foram 35 anos de trabalho,
trabalho e mais trabalho”, afirma.

Segundo as poucas testemunhas que aceitaram passar-lhe alguma
informação, Clara Anahí, foi posta em um carro e levada com vida, aos três meses de idade, pelos militares que bombardearam durante quatro
horas a casa de seu filho. Neste dia, sua nora, Diana Teruggi, foi
assassinada.

As marcas de balas e os rastros de destruição da casa “30 55 56”,
como é conhecida em La Plata, capital da província de Buenos Aires,
foram mantidos desde aquela tarde de 1976, como prova material do
terror perpetrado por cerca de 200 homens, que cercaram o quarteirão,
desalojaram os vizinhos e, com artefatos de guerra, subiram nos
telhados que a circundavam.

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Poucos são os moradores da cidade que não escutaram o som do
bombardeio, dos tiros e dos helicópteros que sobrevoavam a área. Assim,
a casa da rua 30, no quarteirão entre a 55 e a 56, entrou para a
história de La Plata e foi declarada patrimônio cultural de interesse
municipal, provincial e nacional, por ser um impactante registro dos
anos de repressão.

Daniel e Diana mantinham no quintal uma gráfica clandestina onde
imprimiam um jornal o jornal Evita Montonera. Os dois já estavam
sendo vigiados pelos militares por integrarem o movimento peronista de
resistência à ditadura, conhecido como “Montoneros”. Chicha só
descobriu as atividades militantes do casal após o ataque à casa.

Naquele dia, Chicha não estava em sua casa, que também foi invadida
e destruída. Quando regressou e viu seus vizinhos chorando, por já dar
como certa sua morte, começou a perceber o motivo dos estrondos que
escutou durante a tarde. Daniel tinha viajado a Buenos Aires, mas sua
nora estava morta e a neta, desaparecida.

Luciana Taddeo



Chicha participa de um ato anual de aniversário da morte de Diana e do desaparecimento de Anahí.

A partir deste momento, Chicha dedicou sua vida exclusivamente a
encontrar Clara Anahí: percorreu delegacias, regimentos, juizados de
menores, igrejas, tribunais e casas de vizinhos que poderiam fornecer
alguma pista do paradeiro de sua neta. Em uma das visitas aos tribunais
de La Plata, depois de “portas na cara”, como ela mesma afirma,
descobriu que outras avós procuravam seus netos sequestrados.

Assim, em 1977, conheceu Alicia de la Cuadra, com que se associou
para buscar seus netos desaparecidos. A união com a avó na mesma
situação, e posteriormente com muitas outras, a quem foram conhecendo
ao longo dos anos, lhe trouxe a certeza de que a dificuldade para
encontrar os bebês não se devia à burocracia, mas sim a sequestros
planejados.

Com Alicia e outras avós, Chicha fundou a Associação das Avós da
Praça de Maio, da qual foi a primeira presidente. O trabalho para
levantar informação incluía tirar fotografias dentro de escolas,
acompanhar a rotina de famílias suspeitas de apropriação de bebês
sequestrados e até usar disfarces, como de vendedoras de livros.
Mariani conta que, perto de sua casa, havia uma menina de sete ou oito
anos de quem as Avós tinham solicitado as análises de DNA.

“Eu saía para comprar qualquer coisa no bairro e passar na frente da
casa. Ela sempre estava no jardim com um gatinho. Eu dizia ‘tchau’ e
ela respondia: ‘tchau, senhora’. No dia do exame, por medo de que
levassem outra menina no lugar dela, me disfarcei de enfermeira, com
avental e peruca. Poucas pessoas no hospital sabiam quem eu era, e ela
estava com a mãe a uns seis metros de mim. De repente, ela se separou
da mãe, veio caminhando na minha direção e me disse ‘oi, senhora!’. Com
medo de me reconhecerem, fui embora rápido”, relata.

Para driblar a vigilância dos militares e policiais, as avós se
reuniam em praças e em cafés, fingindo comemorar um aniversário.
“Quando íamos apresentar denúncias internacionais ou pedidos judiciais,
íamos passado o documento por baixo da mesa e assinávamos uma por uma”,
relembra. Espelhando-se nas Mães da Praça de Maio, organizadas
anteriormente, as avós se uniram aos protestos semanais em frente à
Casa Rosada, sede do governo argentino.

Além da árdua investigação, os anos de procura também foram
marcados pelas ameaças recebidas constantemente. “Uma vez, ligaram na
sede da associação para dizer que jogariam uma bomba na praça e nos
matariam a todas. Também picharam a palavra ‘terroristas’ nas fachadas
das casas de algumas Mães e Avós”.

Chicha lamenta a cumplicidade da Igreja Católica na Argentina com
os crimes cometidos na ditadura. “Muitas pistas chegaram aos meus
ouvidos e para comprová-las, conversei com três monsenhores”, conta. Um
deles, José María Montes, com quem conversava no subsolo da Catedral,
foi quem realizou a cerimônia de casamento de Daniel. “Ele tinha um
fichário com dados de todos os desaparecidos e disse que ajudaria”.

Mas uma semana depois, quando regressou ao local, Chicha escutou de
Montes que já não devia incomodá-lo porque a menina estava com “gente
de muito poder e que não estava disposto a colaborar”. “Hoje ele tem 90
anos e continua negando o que sabe”, declarou ao Opera Mundi. Outro
deles, Emilio Graselli, lhe confirmou que sua neta estava viva, mas que
tinha sido entregue a uma família influente e que a Igreja não estava
disposta a intervir para sua restituição.

Declarações como estas, fotos e outras informações levantadas, como data de nascimento dos bebês levaram a Avó a acreditar que a filha
adotiva da dona do diário Clarín, Ernestina Herrera de Noble, seja
Clara Anahí. “Desde 78 acredito que Marcela pode ser minha neta, mas
isso só será esclarecido quando o exame de DNA for devidamente
realizado. Há muitos fatos e circunstâncias que a vinculam ao caso, mas
até agora nada foi resolvido, porque eles se negam a
fazer o exame e tentaram enganar-nos durante a extração de amostras”,
diz.

Apesar da omissão do catolicismo na Argentina, Chicha ressalta “a
grande ajuda” que recebeu da organização Clamor, do Brasil. Fundada
pelo advogado e ex-deputado federal pelo PT, Luiz Eduardo Greenhalgh,
pela jornalista Jan Rocha e pelo pastor Jaime Wright, a organização
ajudou na restituição de Paula Logares, neta de Elsa Pavón, e primeira
menor a ser identificada pela justiça, por meio de exames de DNA.

Luciana Taddeo



Escombros da casa da família de Chicha que foi bombardeada em 1976
.

“Esta conquista foi graças ao arcebispado de São Paulo. O pastor
Wright foi quem me deu a foto que usamos para encontrá-la. Quando
tínhamos material que corria riscos aqui, levávamos para eles, que nos
ajudaram em todos os sentidos: segurança, companhia, dados, publicando
materiais com as listas dos bebeês desaparecidos, sempre com o apoio do
Conselho Mundial de Igrejas. Mantínhamos uma relação estreita com eles,
que sempre estiveram firmes a nosso lado, e a quem devemos muitíssimo”,
ressalta.

Após algumas divergências internas, sobre as quais prefere não
comentar por serem “muito dolorosas”, Chicha se afastou da associação
das avós em 1989. Anos depois, percebeu que não deveria desperdiçar
toda a informação acumulada sobre o roubo sistemático de bebês durante
a ditadura, e fundou a Associação Anahí, uma das partes querelantes do
julgamento que levou o ex-ditador Jorge Rafael Videla ao banco dos réus
nesta segunda-feira (28/2), ao lado de outros seis repressores acusados
por 35 casos de menores sequestrados e apropriados ilegalmente.

Para o atual julgamento, Chicha pediu que sua audiência fosse
antecipada e depôs à justiça em outubro do ano passado. Videla, que
estava sendo julgado em Córdoba no período, se negou a escutar a
declaração por teleconferência, segundo previsto.

A mudança da data foi aceita porque Chicha temia o agravamento de
sua saúde, e consequente impossibilidade de contar o que sabe. “Sofri
com dores terríveis produzidas pelo assassinato do meu filho, um ano
depois ao ataque da casa, pela morte de minha nora e pelo desaparecimento
de minha neta. Fui carregando isso ao longo da vida, que foi muito
vivida, mas que deixa suas sequelas”, afirma.

Há seis ou sete anos, Chicha perdeu quase a totalidade de sua
visão. “Uma das poucas coisas que identifico são as cores, e procuro
aproveitá-las muito. Olho a cada minuto este ramo de hortênsias, porque
não sei até quando poderei vê-las. Mas não tenho tempo de me amargar
com isso, porque continuo trabalhando o dia inteiro para encontrar
minha neta e para dar continuidade aos processos que temos na justiça”. 

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Fundadora das Avós da Praça de Maio luta para encontrar neta sequestrada há 35 anos

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