Funcionários públicos param em Portugal em protesto contra salários congelados
Funcionários públicos param em Portugal em protesto contra salários congelados
A greve geral realizada hoje (4) em Portugal tornou inútil a viagem de aproximadamente 260 km feita pelos marroquinos Samira Alaoui e Mohamed Malou, do Algarve (no sul do país) a Lisboa. Saíram de casa às 4h, mas descobriram só às 11h30, ao descer do táxi já dentro do Hospital Dona Estefânia, que o filho não seria atendido mesmo tendo consulta marcada. “Não fomos informados da greve. E não nos dizem se seremos recebidos amanhã, pois poderíamos passar a noite aqui”, diz ela.
Os servidores públicos portugueses cruzaram os braços após o governo do socialista José Sócrates congelar os salários como medida anticrise. Portugal tem um déficit público três vezes maior do que o permitido pela União Europeia e sua economia é uma das mais frágeis do grupo, ao lado de Grécia, Itália, Irlanda e Espanha.
A paralisação é a maior desde 2007, de acordo com a imprensa local, com a união das três centrais sindicais nacionais. A estimativa dos grevistas é que a adesão tenha chegado a 80%, o que significa entre 350 mil e 600 mil trabalhadores, dependendo do sindicato consultado. A Secretaria de Estado da Administração Pública afirmou que a paralisação envolve menos de 15% dos funcionários. “A maioria aceitou que uma mensagem de realismo e responsabilidade se impõe”, disse o secretário da pasta, Gonçalo Castilho, em entrevista coletiva. O governo afirma não haver possibilidade de reajuste de salários.
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A Frente Comum, que diz representar mais de 300 mil servidores, promete manifestações em diversas cidades no mês de abril e uma nacional em maio, a princípio sem nova greve. Além do congelamento dos salários, os funcionários são contrários à entrada em vigor das penalizações pela antecipação das aposentadorias, prevista para ocorrer até 2015, e a mecanismos de avaliação de desempenho dos profissionais, que, segundo eles, impedem o acesso ao topo da carreira.
Serviços fechados
Como Samira e Mohamed, o ourives brasileiro Marcelo Queirós, de 33 anos, também foi surpreendido pelas portas fechadas no Hospital Dona Estefânia, ao chegar com a filha recém-nascida para uma consulta de oftalmologia. “Há duas semanas me enviaram uma carta marcando para hoje. Não avisaram nada”, disse.
Escolas como a Luísa Ducla Soares, em Coração de Jesus, centro de Lisboa, ficaram de portas fechadas. Um cartaz informava que, devido à falta de profissionais não docentes, seria impossível abrir. Com escolas, creches e centros de saúde fechados, de acordo com os sindicatos, os serviços de saúde e educação teriam sido as áreas mais afetadas pela greve e também os mais percebidos pela população. Nos hospitais, a adesão também foi considerada grande, mas houve manutenção de atendimento mínimo previsto em lei.
Tiveram as atividades pelo menos parcialmente interrompidas – no atendimento ao público ou atividades internas – justiça, segurança social, cultura, finanças e manutenção das cidades, como recolhimento de lixo. Os transportes, no entanto, não pararam. “É um contrassenso. O país está na desgraça e estão a fazer greve. A Grécia e a Irlanda também reduziram salários. Por acaso somos mais ricos que eles?”, questionava o empresário Paulo Bárbaro, 48 anos, pela manhã, em frente às portas fechadas do Serviço de Finanças no bairro de São Jorge de Arroios, em Lisboa.
No Tribunal do Trabalho de Anjos, na região central de Lisboa, audiências foram canceladas e uma junta médica estava fechada pela manhã porque só metade dos 80 servidores estavam trabalhando, disse o funcionário da área administrativa Paulo Costa.
Mercado internacional
Às vésperas do anúncio do pacote governamental de redução de gastos públicos, o PEC, a greve recebeu críticas por ir contra o saneamento das contas. Em reportagem, a BBC ligou o protesto à desconfiança internacional de que a melhora das condições econômicas do país pode ser mais difícil que o esperado. “Acabemos com esta ideia de que os salários são apenas um custo. Os salários são um fator de sustentação da dinâmica da economia”, disse o secretário-geral da central sindical CGTP, Carvalho da Silva, à rede de notícias portuguesa RTP.
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