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Há exatos dois meses, a freira italiana Marcella Catozza estava prestes a inaugurar uma pequena clínica pediátrica na favela de Wharf Jéremie, conhecida por ser a mais perigosa, violenta e pobre do Haiti. No entanto, naquele dia de novembro, a religiosa italiana encontrou os primeiros doentes de cólera diante da porta e teve de começar a atendê-los em regime de urgência. Desde então, o pequeno consultório em Wharf Jéremie se transformou em um centro de atendimento para os doentes de cólera de toda a favela, que tem cerca de 70 mil habitantes. 

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Aqui, o dia 7 de dezembro foi um dia como os outros. Enquanto na capital haitiana imperava a tensão pré-eleitoral, em Wharf Jéremie as pessoas esperavam angustiadas que o relógio batesse 16h, porque havia uma partida de futebol na nova quadra esportiva construída por irmã Marcella em sua Vilaj Italyen – ou “vila italiana” em crioulo, a língua local que é mais disseminada que o francês.

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Federico Mastroggiovani/Opera Mundi



É o primeiro campeonato de futebol organizado em Wharf Jéremie. São 12 times, cada um com cinco jogadores. Ao longo dos 90 minutos de jogo, não se pensou em mais nada: nem no terremoto que matou tanta gente; nem nos ciclones que, nos meses anteriores, varreram os tetos e paredes de papelão; nem nos mortos de cólera de Wharf Jéremie, que no último mês chegaram a dezenas; nem nos doentes recém-contagiados, antes 60 por dia, agora cerca de dez, atirados em camas com recipientes ao lado para receber os líquidos corporais da desidratação. Só se pensa em futebol, e sequer a batalha política de alguns candidatos dispostos a qualquer coisa pela presidência ou os milhões de dólares de ajuda humanitária internacional poderão distrair a atenção dos moradores.

O espírito de rivalidade é bom, as jogadas são habilidosas e o ritmo é intenso. A narração de Reynold entusiasma o público, que participa como em um jogo de primeira divisão. Em campo, a seleção de Wahrf Jéremie vence a da “Itália” por 10 a 2. A “Azzurra” da favela haitiana é formada por dois colaboradores e um médico voluntário italianos, dois jovens haitianos e um porteiro mexicano, enquanto no time adversário jogam cinco rapazes com menos de 20 anos, moradores de Wharf Jéremie. 

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“Ninguém pode querer viver aqui. Este lugar é asqueroso, não agrada a ninguém”, resume a freira Marcella Catozza ao descrever sua experiência em Wharf Jéremie. “Mas aqui é onde se encontra a esperança, o lugar onde é preciso começar. Muitos vêm ao Haiti e vão embora com desespero, acreditando que este país nunca poderá sair de sua pobreza, de sua condição. E talvez tenham razão, talvez eu esteja errada, mas nesta favela tão nojenta e violenta, hoje se joga a partida de um campeonato de futebol”.

Ninguém se esquece do horror e da miséria que rodeiam a comunidade. Todos estão cientes de que, depois dos 90 minutos, tudo retomará o aspecto de antes. O jogo serviu para distrair todos do cotidiano difícil. Os médicos aproveitaram uma partida dura que os tirou dos turnos massacrantes que fazem na clínica curando os doentes de cólera. Já o bairro ganhou assunto para semanas a fio, e uma razão para zombar dos italianos.

Federico Mastroggiovani/Opera Mundi



Naquele mesmo dia, em poucas horas, as ruas se encheram de manifestantes enfurecidos com os resultados da eleição, que ergueram barricadas, queimaram pneus e uma das sedes do partido Inite (“unidade”, em crioulo), do candidato presidencial Jude Célestin, acusado de fraude eleitoral. Ficou impossível transitar pela capital do Haiti, dificultando até os movimentos das organizações de saúde. Mas para Wharf Jéremie, no entanto, tudo isso não teve grande relevância.

Torcida e religião

No Haiti, o futebol é coisa muito séria. Tão séria que o candidato governista, Jude Célestin, usou em sua campanha eleitoral as cores da seleção brasileira e o número 10 de Ronaldinho Gaúcho a fim de parecer mais atraente para um povo torcedor roxo. Durante os dias da Copa na África do Sul, a segurança pública no Haiti esteve em risco em muitos momentos, por causa das diferentes facções de torcedores, divididas entre o apoio ao Brasil e à Argentina, como confirma um funcionário de logística do World Food Programme.

Onde muitos não conseguiram obter nenhum resultado, o grupo de haitianos colaboradores de ONGs italianas e brasileiras, coordenados e guiados por irmã Marcella, realiza uma distribuição diária de comida para as crianças do bairro em dois turnos, divididos por idade, sem que haja nenhum tipo de distúrbio. A freira é respeitada não por ser religiosa – só em Wharf Jéremie, há muitas igrejas diferentes, católicas ou evangélicas, presentes e ativas na ilha – mas porque demonstra há anos seu comprometimento com os habitantes do bairro.

“Na verdade, não concordo com os santos de Marcella”, admite o auxiliar da clínica David, que esvazia e desinfeta os recipientes usados pelos doentes de cólera várias vezes por dia. “Sou evangélico e, em termos de religião, irmã Marcella está um pouco equivocada. Não gosto de seus santos, mas gosto do que ela faz. E ela nunca nos traiu. Agora estamos construindo juntos uma escola, sabemos que vamos conseguir. Para nós, haitianos, o mais importante que se pode ter na vida é o trabalho e a escola. Ainda que não haja luz nem água, é preciso ter escolas”. 

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Rostos sorridentes

Às 14h de cada dia, são distribuídos sabão e recipientes para facilitar a higiene pessoal e limitar as causas de contágio. O líder comunitário Lucien é um verdadeiro braço-direito de irmã Marcella. Com sua atitude calma, distribui senhas às pessoas enfileiradas para retirar seus recipientes ordenadamente, mas sem evitar uma certa confusão.

Antes de começar a trabalhar na clínica, Lucien fazia parte dos bandos locais, e as pessoas ainda guardam absoluto respeito por ele. Sua autoridade permite organizar inclusive a distribuição de alimentos sem que haja grandes distúrbios – e, principalmente, sem a necessidade dos capacetes-azuis da ONU com seus fuzis apontados para as pessoas, como ocorre em outros lugares do Haiti considerados perigosos. Já o enfermeiro Pushon, o mais velho da clínica, era envolvido com o crime antes de ser ajudante de irmã Marcella, e andava pela favela carregando uma arma. O trabalho da freira italiana ajudou a mudar a vida deles e de dezenas de outros moradores.

“Só desde o terremoto, já foram construídas 122 casas, um refeitório para crianças e uma escola, e há muito mais rostos sorridentes na comunidade do que se poderia esperar”, comemora irmã Marcella.

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Freira italiana leva saúde e esperança em meio à miséria de Wharf Jéremie

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