Sábado, 16 de maio de 2026
APOIE
Menu

“A partir do ano 2000, as redes sociais se configuraram de um modo que sirva ao modelo capitalista de triagem”, é o que avaliam os autores de Comunicação em rede na década do ódio: afetos e discursos em disputa política.

Durante o lançamento da obra, na última terça-feira (14/06), os pesquisadores Heloisa Prates Pereira, José Luiz Aidar Prado e Vinicius Prates discutiram “os sentidos da política construídos pelos discursos e percursos passionais nas redes sociais” entre 2010 e 2020.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Lançado pela editora Estação das Letras e Cores, o livro reúne artigos realizados por integrantes do grupo de pesquisa “1 dia, 7 dias”, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Conseguimos olhar e perceber que havia coisas acontecendo e, se juntássemos alguns artigos e fechássemos lacunas, criaríamos um arco narrativo entre 2010 e 2020 que pode explicar a situação política de hoje”, afirmaram os autores.

Segundo a jornalista e uma das autoras Heloisa Prates Pereira, as redes sociais e a comunicação digital, apesar de não determinarem, contribuíram para a formação da realidade política brasileira entre 2010 e 2020. 

Mais lidas

“O ambiente das redes aglutina uma série de discussões que estão em nosso dia a dia. Perfis falsos e fake news vão sendo cada vez mais utilizados para criar um ambiente de desconfiança, colocando em jogo discursos antagonistas sobre a compreensão da realidade”, afirmou.

De acordo com os estudos e análises do livro, o fenômeno das fake news pode ser compreendido a partir da existência de um “sujeito protomodelizado”, quando, diante de uma situação fragmentada, “as pessoas estão pré-dispostas a acreditar em determinadas verdades”. 

Dessa forma, certos discursos são “repercutidos porque são aderentes aos valores que aquela pessoa quer transmitir”. “Quando existe a protomodelização, essa racionalidade, que ajudaria a analisar um fato, acaba perdendo força e eficiência”, conclui. 

‘Comunicação em rede na década do ódio: afetos e discursos em disputa política’ analisa o papel dos meios digitais no cenário eleitoral brasileiro

Duda Blumer

‘Comunicação em rede na década do ódio: afetos e discursos em disputa política’ foi lançado na terça-feira (14/06), na Livraria da Vila

Para Vinicius Prates, que também é jornalista, as redes sociais têm uma “arquitetura” que “favorece a separação”. “Uma vez que o discurso da esquerda é o da ‘mistura’, o da direita é de ‘triagem’. Se as redes são afeitas a fazer triagens, são afeitas a cair para o campo da direita”. 

“O bolsonarismo usou as redes de maneira mais eficiente e efetiva e atingiu mais seus propósitos com essa ferramenta. Assim ele é um fenômeno das redes, mas claramente está em crise agora”, completa Prates.

Analisando a conjuntura brasileira na última década, Aidar disse que as Jornadas de Junho de 2013 são um “quase acontecimento”, pois “poderiam ter aberto uma nova governança, mas acabou se invertendo e levando a 2018, com a reunião de várias correntes da extrema direita”.

Eleições presidenciais de 2022

Mencionando o papel que Comunicação em rede na década do ódio: afetos e discursos em disputa política pode ter para compreender as eleições presidenciais brasileiras em 2022, Pereira afirma que o livro pode “trazer reflexões” de como as redes são utilizadas dentro do “circuito dos afetos”, tendo as fake news e perfis falsos como “mobilizados para fazer reverberar determinados discursos”.

“Mais do que uma descrição desses mecanismos, o livro tenta mostrar quais os valores fundamentais que estão sendo negados ou afirmados por esses discursos que se colocam em conflito na rede, e essa eleição vai colocar em cena esses mesmos valores”, declarou.

A autora pontua que, apesar da familiaridade das pessoas com o funcionamento das redes, o Brasil ocupa uma posição de “campo de testes” para novas formas de manipulação digital, mencionando conteúdos como o deep fake – forma de adicionar falas a vídeos já existentes por meio da inteligência artificial.