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Com uma taxa de investimento de apenas 18,5% do PIB (Produto Interno Bruto), o Brasil terá dificuldades para sustentar um crescimento forte durante os próximos anos, segundo economistas. A infraestrutura do país precisa ser desenvolvida rapidamente para evitar gargalos na produção. O mesmo acontece com a mão de obra. Segundo Patrick Hollard, diretor-geral para a América Latina da Michael Page, uma das maiores empresas globais de recrutamento de executivos, o cenário começou a ficar preocupante, com um aumento espetacular dos salários.

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Em entrevista ao Opera Mundi, o executivo francês disse que um dos maiores alertas está na falta de engenheiros. No Brasil, cerca de 30 mil engenheiros saem das universidades todos os anos. Na Coreia do Sul, o número chega a 80 mil. Na China, são 400 mil engenheiros por ano e na Índia, 250 mil. Em sua avaliação, o problema – de natureza estrutural – tende a piorar diante da constatação de que a economia entrou num ciclo constante de crescimento, prestes a ser turbinado pelas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Copa do Mundo de 2014, Olimpíadas de 2016 e investimentos no pré-sal.

Para Hollard, houve uma mudança na imagem da empresa brasileira. Antes, o sonho do executivo brasileiro era integrar uma firma estrangeira e hoje essa meta vem perdendo força. O executivo brasileiro tornou-se um dos mais caros do mundo.

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Com a recuperação da economia, as empresas voltaram a investir e contratar. Qual é o principal problema que enfrentam?

Fala-se muito da falta de infraestrutura no Brasil, mas pouco da escassez de profissionais. Não se trata de uma novidade, mas o problema piorou recentemente por causa do forte crescimento econômico. Há, sobretudo, uma carência expressiva de engenheiros. Por exemplo, calculamos que somente duas empresas – Petrobras e Vale – podem absorver a totalidade dos engenheiros que irão se formar nos próximos cinco anos. Governo e universidades estão tentando acelerar a formação de mais profissionais, mas o esforço não consegue acompanhar o mercado. A guerra pela conquista dos talentos é mais forte que nunca.


Quais profissionais são os mais cobiçados?

Eu diria que todos. Especialistas em marketing, informática, logística conseguem emprego em poucos dias. Mas há setores onde as tensões são mais fortes, como o de energia (petróleo, gás, petroquímica), bancos, agronegócio, construção civil e mineração.

Do ponto de vista geográfico, a demanda por executivos é muito concentrada no eixo Rio de Janeiro-São Paulo?

Nesse tema também aconteceu uma mudança importante dos últimos anos: a demanda se espalhou por todo o Brasil. São Paulo continua sendo muito importante, mas o Rio de Janeiro virou, para nós, o pólo mais dinâmico do país. A cidade se beneficia da cooperação entre os três poderes políticos (federal, estadual e municipal), o que possibilita uma estratégia de desenvolvimento mais coerente. Os Jogos Olímpicos de 2016 os investimentos na área do petróleo contribuíram para o aquecimento do mercado. Em breve, o Rio de Janeiro será tão importante como Houston, nos Estados Unidos, a meca do petróleo do ponto de vista dos negócios e das contratações.

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No entanto, cidades do interior perto do eixo São Paulo-Rio de Janeiro tornaram-se pontos bastante atraentes. É o caso de São José dos Campos e Campinas. Por outro lado, no Nordeste – onde a economia está acelerada – tivemos de abrir um novo escritório no Recife, pela demanda. As empresas nessas cidades procuram contratar executivos locais, não querem mais importar mão de obra da região Sudeste.

Qual foi o impacto da crise econômica mundial no Brasil?

Até o final de 2008, os salários dos executivos atingiram níveis astronômicos. A crise abriu um parêntese violento. Desse ponto de vista, as empresas estrangeiras foram as mais conservadoras. Apesar de o mercado interno brasileiro ser parcialmente poupado pela crise, elas demitiram rapidamente, sob a pressão das matrizes. As brasileiras foram mais cautelosas e hoje colhem os frutos dessa atitude: perderam menos profissionais que as estrangeiras, condenada agora a correr atrás de contratações.

Os salários refletem a falta de mão de obra?

De forma impressionante. Durante muito tempo, as empresas mandavam. Agora são os bons candidatos, especialmente no caso dos engenheiros. Os salários aumentaram 30% desde setembro de 2009. As empresas precisam aceitar a valorização nas remunerações para não perder os talentos, ainda mais no Brasil, onde não existe cultura de fidelidade e os empregados não vêem problema em trocar de emprego. Partindo desse ponto de vista, as empresas estrangeiras são as que mais sofrem, porque as filiais não têm espaço para decidir quanto vão pagar a um executivo. As matrizes falam que o salário máximo para tal tipo de competência é X e não aceitam pagar mais. As empresas brasileiras são bem mais criativas e agressivas quando encontram um talento excepcional, pois topam pagar mais, seja salário ou bonificações. Os bancos estrangeiros no Brasil têm muita dificuldade para pagar tão bem como os bancos nacionais.

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A atração em trabalhar em empresas estrangeiras desapareceu?

É menor que há dez anos atrás. Primeiro, porque as empresas nacionais podem pagar melhor. Além disso, as grandes companhias brasileiras estão se preparando para um movimento de internacionalização. Com isso, buscam estudantes brasileiros onde quer que eles estejam, tanto no Brasil, como também os que estudam fora, cursando MBA nos Estados Unidos, Europa ou Ásia. As perspectivas de construir uma carreira internacional são mais atrativas dentro de um grupo brasileiro do que em uma empresa européia ou norte-americana. A única exceção são as empresas asiáticas, que vivenciam também uma expansão.

O executivo brasileiro tornou-se caro no cenário global?

É um dos mais caros do mundo. Além da escassez de mão de obra, é importante destacar o impacto da valorização do real. Nos últimos quatro anos, a moeda valorizou 40% em relação ao dólar e euro. O resultado, exemplificando, é que quando uma empresa francesa quer pagar bônus igual ao do ano passado em euros, o executivo brasileiro protesta, porque exige a mesma coisa em reais. No final, as multinacionais estrangeiras voltaram a importar funcionários. Essa prática foi progressivamente abandonada nos últimos anos, por ser cara demais, uma vez que se pagava o aluguel da casa, escola das crianças etc, mas agora compensa. Além disso, os executivos que saem de seus países são mais fiéis.

A Michael Page está presente em muitos países. Como o senhor compara o mercado brasileiro ao europeu, por exemplo?

É uma realidade muito diferente. No Brasil, é possível crescer rapidamente dentro da empresa, mas também existe a facilidade em cair. Mas para um jovem recém-formado, as oportunidades são enormes. Antes o brasileiro queria sair do país e isso mudou. Hoje recebemos diversos currículos de jovens executivos europeus que ouviram falar do crescimento da economia brasileira. A imagem do Brasil mudou totalmente durante a última década. 

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Executivo brasileiro tornou-se um dos mais caros do mundo, afirma head hunter francês

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