Eventual acordo com Kadafi divide cúpula rebelde; Zawiya é palco de violentos confrontos
Eventual acordo com Kadafi divide cúpula rebelde; Zawiya é palco de violentos confrontos
Em mais um dia de violentos confrontos na Líbia, as tropas rebeldes que lutam pelo fim do atual regime transpareceram publicamente divergências a respeito de um eventual acordo com o líder líbio Muamar Kadafi: ele deixaria o poder e o país com sua família e bens para o destino que escolhesse, além da garantia de que não seria perseguido julgado em qualquer instância de seu país ou internacional.
Enquanto isso, a cidade de Zawiya foi palco dos conflitos mais violentos entre os rebeldes e as tropas pró-Kadafi. Uma ofensiva pesada contra a cidade, a mais próxima da capital Trípoli nas mãos dos rebeldes, teria deixado dezenas de mortos.
À noite, em Trípoli, Kadafi apareceu quase de surpresa no hotel Rixos, onde estão hospedados cerca de cem jornalistas internacionais. Minutos depois, saiu sem falar com ninguém, quando todos os profissionais no hall de entrada aguardavam por uma coletiva de imprensa. Ele teria dado uma breve entrevista a um canal de TV turco. O governo líbio negou ter recebido qualquer contato com os rebeldes, segundo a rede Al Arabiya e a France Presse.
Divergências
O líder do Conselho Nacional de Transição Interino (CNTI), nome dado aos grupos de militares e civis que se uniram pela derrubada do regime, Mustafá Abdel Jalil, teve sua autoridade publicamente contestada nesta terça-feira, após diferentes versões e visões sobre o susposto diálogo com Kadafi.
A polêmica se iniciou quando Bara al Katib, membro do conselho de informação do Conselho, declarou nesta terça-feira que, se Kadafi deixasse a Líbia, o conselho estaria disposto a renunciar à emissão de qualquer ordem judicial contra o coronel. As informações são da Agência Efe e da rede de notícias Telesur.
Al Katib confirmava assim, uma informação divulgada pela emissora Al Jazeera e antecipada pelo jornal Sharq al Awsat na segunda-feira, segundo qual, o regime tinha dialogado com os líderes rebeldes sobre essa questão.
No entanto, nesta amanhã, o vice-presidente e porta-voz do CNTI, Abdelhafiz Ghoga, após falar com membros do conselho, dirigiu-se sem prévio anúncio ao povo que se encontrava naquele momento na praça dos Julgados de Benghazi, segunda cidade do país e sede da rebelião, para desmentir as supostas negociações. Ghoga demonstrava muita irritação.
“Não há diálogo e não há nada chamando uma saída segura do país”, disse Ghoga, em referência às conversas, perante as pessoas que se concentravam na praça sob a chuva e que ao longo do discurso somaram 500 pessoas.
Ghoga ressaltou: “Não daremos marcha ré, não há rendição. Não há diálogo” e se questionou: Quem vai permitir (a Kadafi) uma saída segura? Após seu discurso prometeu uma entrevista coletiva para as 16h do horário local (às 11h do horário de Brasília), com o objetivo de explicar a situação à imprensa.
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Pouco antes do comparecimento de Ghoga perante a imprensa, Jalil, concedeu em entrevista telefônica à Al Jazeera, e declarou sua disposição em renunciar à perseguição judicial de Kadafi caso este abandone o país nas próximas 72 horas.
“Se ele deixar a Líbia imediatamente, em 72 horas, e parar com os bombardeios, nós, líbios, não vamos persegui-lo por seus crimes”, disse Jalil, que advertiu que o prazo não seria prorrogado.
Na coletiva, minutos depois Ghoga voltou a contestá-lo: “o conselho não ofereceu nem apresentou nenhuma iniciativa, nem pretende fazê-lo, nem manter um diálogo desse tipo porque a situação está clara para nós.
As exigências de nossa revolução, da revolução de nosso povo são claras: nós não dialogamos”, afirmou o revolucionário. Ghoga também ressaltou não haver contato de nenhum tipo entre os revolucionários e o regime e que ninguém podia renunciar às exigências do povo.
Apesar destas claras divergências, Ghoga tentou diminuir a tensão. Ele assegurou que não existem divergências entre Jalil e o Conselho, e que todos desejavam o mesmo. Segundo Ghoga, o presidente do CNTI queria expressar a necessidade de se deter o derramamento de sangue.
Atritos antigos
Estes atritos, entre o conselho e seu presidente não são novos e se remontam inclusive até antes da formação deste órgão. No dia 26 de fevereiro, Jalil anunciou que ele presidiria um governo de união nacional e que seriam realizadas eleições em três meses.
Um dia depois, Ghoga desmentia as palavras de Jalil, que foi ministro da Justiça de Kadafi ded janeiro de 2007 até o começo dos conflitos contra o regime, no dia 16 de fevereiro, ao renunciar em protesto pela repressão das manifestações.
Ghoga anunciou no dia 27 de fevereiro a intenção do então principal órgão revolucionário, a Coalizão da Revolução do dia 17 de fevereiro, de criar um Conselho Nacional Revolucionário transitório, mas não um governo, e não fez menção nenhuma ao ex-ministro de Kadafi.
Mas no dia 2 de março, Ghoga surpreendia a todos anunciando que Jalil presidiria o CNTI, enquanto ele mesmo se transformava no porta-voz e vice-presidente do órgão. O CNTI aspira a ser reconhecido internacionalmente como o único representante político do povo líbio.
Esta situação volta a evidenciar a falta de coesão do recente criado comando revolucionário. Uma carência que se estende aos comandantes do Exército e às milícias rebeldes que tentam dobrar as brigadas do governo.
Confrontos
Enquanto os rebeldes se contradizem, as tropas de Kadafi lançaram um fortíssimo ataque na cidade de Zawiya, 50 km ao oeste de Trípoli, e deixaram um grande número de mortos, ainda não determinado.
A cidade, que é o bastião rebelde mais próximo da capital, foi alvo de uma pesada ação das forças pró-Kadafi com 50 tanques e 120 veículos armados, além de artilharia aérea, segundo a rede britânica BBC. “Eles [as tropas do governo] reduziram a cidade a cinzas”, disse uma fonte na cidade.
A cidade portuária e petrolífera de Ras Lanuf, ainda nas mãos dos rebeldes, também foi duramente bombardeada. Ras Lanuf é a base rebelde mais avançada na zona leste do país em direção a Trípoli. Os ataques continuaram durante a noite.
A oposição teria assumido o controle de Zenten, 120 km ao sudoeste de Trípoli, mas as forças de Kadafi estavam mobilizadas ao redor da cidade, informou uma testemunha à France Presse por telefone.
Sanções
A União Europeia aumentou nesta terça-feira suas sanções econômicas contra o país, congelando os ativos do fundo soberano e de outras instituições locais. Até sexta-feira, as medidas serão aprovadas formalmente, em uma reunião de cúpula ente chefes de Estado e governo.
A possibilidade de criar uma zona de exclusão aérea sobre o país tem aumentado cada vez mais na comunidade internacional. Além de muita pressão da França e do Reino Unido, que elaboram um projeto de resolução a ser aprovado no Conselho de Segurança da ONU, a Organização da Conferência Islâmica (composta por 57 países) declarou-se a favor da ação. “Nos unimos àqueles que pedem o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, e pedimos ao Conselho de Segurança da ONU que assuma suas responsabilidades neste sentido”, disse o turco Ekmeleddin Ihsanoglu, que chefia a associação.
Entretanto, Rússia e China, membros do Conselho com poder de veto, ainda resistem à ideia. A Rússia afirmou ser completamente contra qualquer tipo de ingerência militar estrangeira no país árabe.
A Liga Árabe, órgão que suspendeu a participação da Líbia realizará uma reunião de urgência neste sábado, e também estuda a possibilidade. Segundo analistas do Pentágono, a eficácia de uma zona de exclusão só seria possível com a cooperação dos países vizinhos.
Por outro lado, o ministério de relações Exteriores da Líbia acusou Estados Unidos, Reino Unido e França de conspirar para dividir o país.
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