Especialistas ressaltam diferenças entre os casos de Fukushima Daiichi e Chernobyl
Especialistas ressaltam diferenças entre os casos de Fukushima Daiichi e Chernobyl
Não demorou muito para que o acidente nuclear japonês, provocado pelo terremoto e o tsunami que atingiram o país no último dia 11, fosse comparado ao desastre ocorrido na central nuclear ucraniana de Chernobyl, então União Soviética, em 1986.
A situação mais preocupante para os japoneses neste momento é a da usina de Fukushima Daiichi, a 240 km da capital Tóquio.
Especialistas e profissionais da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), evitam classificar o acidente japonês como um “novo Chernobyl”, apesar de entenderem a gravidade do caso.
“Pouco provável, apesar de ser possível”, afirmou o físico nuclear e professor da USP José Goldemberg a respeito da possibilidade do acidente japonês se agravar nos próximos dias e equiparar-se ao caso soviético. Em entrevista ao Opera Mundi, o físico explicou que a diferença é que a usina de Fukushima Daiichi, assim como as outras afetadas, possuem um invólucro de contenção.
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“A quantidade de radioatividade dentro do núcleo do reator (e na piscina onde são armazenadas as barras de urânio já usadas) é enorme. Só um pouco escapou até agora. Poderia ocorrer uma ruptura de algum dos vasos de contenção, o que liberaria muito mais. Este foi o caso de Chernobyl, que não tinha um invólucro protetor”, explicou Goldemberg.
O acidente nuclear de Chernobyl é considerado o pior acidente nuclear da história e a nuvem de radioatividade atingiu a Europa Oriental, parte da União Soviética e chegou até mesmo ao Reino Unido. Os efeitos da catástrofe permanecem até hoje: Chernobyl é uma cidade fantasma. Números oficiais indicam que 2,3 milhões de pessoas foram afetadas.
Na ocasião, o quarto reator da usina de Chernobyl sofreu um incêndio proporcionando uma explosão. O acidente levou a uma série de explosões adicionais que ocasionaram em uma catástrofe nuclear.
Segundo Goldemberg, o acidente de Fukushima Daiichi lembra mais o de Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979. “Os reatores são de desenho e concepção muito diferentes. O que houve em Fukushima é que o circuito de refrigeração deixou de funcionar, como ocorreu em Three Mile Island, o que levou ao derretimento do núcleo do reator. Em Chernobyl o reator pegou fogo e explodiu”, explicou. Quando ocorreu, o acidente norte-americano foi considerado o pior da história, até ser superado por Chernobyl.
Em entrevista à AFP, Albert Vasiliyev, diretor do Rosatom (centro de segurança ecológica da agência nuclear russa) confirmou a opinião de Goldemberg e ainda afirmou que, em termos de escala, os dois acidentes são incomparáveis.
“Em Chernobyl, o reator foi levado a uma situação de emergência por falha humana. Mas em Fukushima não houve e nem deve haver uma explosão do reator. Não tem nada a ver com Chernobyl, e em termos de escala também é incomparável”, disse.
A expectativa do especialista, no entanto, é de que a tragédia tome proporções ainda maiores com o tempo. Na última sexta-feira (18/3), a Agência de Segurança Nuclear do Japão elevou o nível de gravidade do acidente de 4 para 5, em uma escala internacional que varia de 0 a 7.
O nível 4 refere-se a acidentes nucleares com alcance local, enquanto o nível 5 trata dos que tenham consequências de em áreas de maior abrangência. Até hoje, apenas Chernobyl chegou ao nível máximo, o 7.
Mesmo com a correção no nível, o professor Goldemberg afirma que a ideia dos especialistas, na verdade, é outra. “A opinião generalizada dos especialistas é que o acidente de Fukushima é de nível 6 [o mesmo de Three Mile Island]”, revelou.
Também em entrevista à AFP, Valeriy Glygalo, diretor do Centro Chernobyl para a Segurança Nuclear, afirmou que os reatores japoneses são projetados para suportar terremotos. No entanto, a força do tremor, de magnitude 9, que atingiu o país no último dia 11, excedeu o limite suportado.
“Os reatores japoneses são de um tipo moderno, e projetados para área sujeitas a terremotos – apesar de o que aconteceu ter excedido as normas vigentes. Não deve haver consequências sérias como as de Chernobyl”, disse.
Comparado ou não à catástrofe de Chernobyl, o professor Goldemberg finaliza com a certeza de que, após o ocorrido no Japão, o mundo deverá rever o uso da energia nuclear para evitar que tais tragédias se repitam.
“Se o desastre for controlado, haverá um reexame completo das condições de segurança de todos os outros reatores do Japão e do mundo. Vários serão abandonados por não serem muito seguros”. Glygalo tem a perspectiva de que, em médio prazo, alguns países gradativamente abandonem por completo a opção nuclear.
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