Terça-feira, 7 de abril de 2026
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Juanita Castro, a irmã de Fidel Castro que colaborava com o serviço secreto dos Estados Unidos, foi recrutada por uma diplomata brasileira em Havana. Foi em 1961. Quem conta a história é a própria Juanita.

A brasileira era Virgínia, mulher de Vasco Leitão da Cunha, nessa época embaixador brasileiro em Havana e mais tarde ministro das Relações Exteriores do governo Castello Branco (1964-1967).

“Ela tinha muita confiança em mim e eu, nela. Um dia, Virgínia pediu que eu fosse na casa dela, me disse que umas pessoas da CIA queriam falar comigo e perguntou se eu estava disposta a correr o risco”, contou Juanita Castro, em entrevista concedida ontem (26) para promover seu livro de memórias “Fidel e Raúl, meus irmãos: a história secreta”.

A própria irmã do ex-presidente cubano admitiu que nessa época encontrava-se totalmente envolvida na contrarrevolução, escondendo pessoas em casa, transportando correio clandestino e prestando apoio a diversas organizações, junto a sua mãe, Lina Ruz.

Juanita pediu a Virgínia três dias para pensar na proposta. Mas, em menos de 48 horas, telefonou para a embaixatriz e disse que estava disposta a acompanhá-la ao México. Lá, as duas encontrariam “Enrique”, codinome de Anthony Sforza, um dos principais estrategistas da Operação Mangoose, um plano fracassado de derrubada do governo de Fidel concebido sob o governo de John Kennedy.

No dia 24 de junho de 1961, num dos quartos do Hotel Sheraton Camino Real, na Cidade do México, Sforza convenceu Juanita a manter a CIA a par das atividades do irmão. No entanto, ela colocou como condição – disse na entrevista – que não participaria de nenhum atentado contra seus irmãos Fidel e Raúl. E escolheu um nome de guerra: “Donna”.

Mensagens enlatadas

Dias depois, voltou a Havana cheia de latas de conserva que escondiam mensagens secretas para a contrarrevolução na ilha e um objeto muito precioso: o livro de códigos para decifrar as mensagens que recebia, num rádio de ondas curtas que a CIA enviou a Havana uma semana depois.

Durante a guerra de guerrilha, antes do triunfo da revolução de 1959, Juanita foi uma fervorosa partidária de Fidel e Raúl. Entretanto, depois da chegada deles ao poder, diz ter começado “a ver o rumo que o país estava tomando, com tantos fuzilamentos e nacionalizações”, desiludiu-se e entrou na dissidência clandestina.

Antes da revolução, o casal Leitão da Cunha – então acreditado perante o governo do ditador Fulgencio Batista – demonstrava simpatia pelos revolucionários, a ponto de acolher na embaixada do Brasil, como refugiados, importantes membros do Movimento 26 de Julho, a organização política de Fidel.

O caso mais relevante foi o do general Raúl Díaz-Argüelles e sua mulher, a jornalista Mariana Ramírez. O militar morreu em 1974 em Angola, onde foi o primeiro comandante do contingente cubano, quando era membro do batalhão de tropas especiais do Ministério do Interior.

Juanita desertou no México em 1963 e se estabeleceu em Miami, onde foi dona de uma farmácia até dois anos atrás, no coração do bairro conhecido como Little Havana.

“Agente de propaganda”

De um modo geral, mas sem grande destaque, a imprensa oficial cubana sempre acusou Juanita de colaborar com a agência de inteligência norte-americana. A entrevista concedida esta semana e a publicidade promovida sobre seu livro de memórias enfatizam o fato de ela ter sido agente da CIA, ainda estando dentro de Cuba, como se isto estivesse sendo revelado pela primeira vez.

Mas não é verdade. A 4 de julho de 1964, o jornal The Times-Picayune, editado em Nova Orleans, publicou um despacho da Associated Press sobre o trabalho de Juanita para a CIA em Havana, sob o título “Juanita Castro informou a CIA em Cuba durante quatro anos” (na verdade, foram três), citando “fontes confiáveis”.

Em 1975, o ex-agente da CIA Phillip Agee escreveu em seu livro Inside the Company que “a irmã de Fidel Castro é uma agente de propaganda da CIA”. No caminho inverso de Juanita, Agee desertou da agência no início da década de 1970 para viver em Cuba e faleceu em Havana no ano passado.

E, em 2005, Ted Shackley, um dos principais especialistas em assuntos cubanos da CIA, escreveu em seu livro de memórias Spymaster: my life in the CIA, que a agência de espionagem sempre esteve em contato com Juanita por intermédio de Virginia Leitão da Cunha, desde o início da revolução.

Embaixatriz brasileira recrutou irmã de Fidel para a CIA

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