Em Portugal, morte de Saramago suscita homenagens entre admiradores e indiferença em desafetos
Em Portugal, morte de Saramago suscita homenagens entre admiradores e indiferença em desafetos
Criador de polêmicas na religião, na literatura e na política, o escritor português José Saramago, morto nesta sexta-feira (18/6), foi reconhecido em honras fúnebres pelo governo de Portugal como “cidadão de consciência política e cívica” e recebeu elogios de alguns desafetos. Nos próximos dois dias, o país estará oficialmente de luto com a morte do escritor – como definiu a reunião extraordinária de ministros à tarde – e pronunciamentos continuarão a ser feitos. O escritor Lobo Antunes, no entanto, permanece em silêncio.
Foi a mesma reação tida em 1998, quando Saramago entrou para a história como o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel. De seu conterrâneo, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira já recebeu a definição de “É um pobre coitado. Existem muitos escritores que são propagandistas de si mesmos”. Em 2000, diante de um pedido de entrevista do jornal Folha de S.Paulo, Lobo Antunes respondeu: “Deixem o Brasil para o Saramago. É o único lugar que ele tem”.
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Outro antigo rival de Saramago, o ex-presidente e escritor Mario Soares se disse entristecido e não poupou elogios à obra do que considerou “um grande escritor, um dos maiores do século XX”, em declarações ao jornal português i. Explicou que a fase de relações cortadas entre os dois, na época da Revolução dos Cravos (1974), foi contornada e tornaram-se amigos. “Era um homem rígido, severo e senhor do seu nariz, se assim se pode dizer; mas também um homem que se emocionava e que compreendia bem tudo aquilo que o cercava”.
Ainda assim, o escritor disse ser contra a necessidade de um pedido de desculpas por parte do governo português por conta da exclusão do livro Evangelho segundo Jesus Cristo da lista de candidatos a um prêmio literário europeu, em 1992. A decisão foi do então secretário da cultura português, Antonio Sousa Lara, e a resposta foi a saída de Saramago para a ilha de Lanzarote, na Espanha, onde morreu hoje. “As desculpas não servem para nada. Realmente não tem sentido. O que é preciso é esquecer esses aspectos e valorizar aqueles que são extremamente positivos dele”.
A grandiosidade da obra do escritor foi reverenciada pelo governo e o mundo político português. O primeiro-ministro José Sócrates disse ao jornal português Diário de Notícias – do qual Saramago foi diretor-adjunto – que “os portugueses apreciaram muito a obra e a carreira de José Saramago. Ele foi um dos grandes vultos da nossa cultura e o seu desaparecimento torna-a mais pobre”. O presidente português Cavaco Silva enviou nota à família do escritor dizendo que “será sempre uma figura de referência da nossa cultura e sua obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras”. A projeção mundial do Prêmio Nobel de 1998 também foi mencionada nas notas enviadas pelo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e pelo ex-presidente da república Jorge Sampaio.
A Sociedade Portuguesa de Autores considera que Saramago internacionalizou a literatura portuguesa e dignificou a condição dos escritores com seu profissionalismo. Para José Eduardo Agualusa, escritor angolano que falou à agência de notícias Lusa, foi importante para toda a literatura em língua portuguesa, mas admirava “a combatividade de homem que acreditava em causas”. A escritora Lídia Jorge falou ao Diário de Notícias da coragem com que ele se entregou à escrita e o definiu como “um escritor genial”. “Acho que morreu feliz porque escreveu até ao fim da vida, entregando-se sempre com a mesma coragem ao ofício que escolheu, e acreditando piamente nas suas convicções”. O escritor João Tordo, vencedor do Prémio Literário José Saramago do ano passado, disse ao DN que foi o primeiro escritor português que o fez dizer “é isto que eu quero fazer da minha vida”. “É super-complicado lermos um livro do Saramago e não nos sentirmos profundamente mudados com aquilo, não mudar o nosso ponto de vista acerca das coisas”.
Patrimônio
O escritor Manuel Alegre, um dos ferrenhos defensores de Saramago em Portugal, publicou nota em seu site destacando o escritor como estimulador da “decência, insubordinação cívica, humanismo e força transformadora da liberdade, mesmo nas circunstâncias mais rudes, quando parece dar-se um eclipse da própria esperança”. Em 2009, Alegre deu declarações à emissora TSF dizendo que o país não perdoava a grandeza do Prêmio Nobel. “Isto é uma história portuguesa cheia de preconceitos e fantasmas. Em primeiro lugar é preciso ler o livro de José Saramago. Ele é um grande escritor, mas parece que não se perdoa a Saramago, ser um grande escritor da língua portuguesa, ser um Prêmio Nobel e não ser um homem religioso”, afirmou à época.
É o que se vê nas ruas ainda hoje, no dia de sua morte. No bairro de São Jorge de Arroios, centro de Lisboa, várias foram as negativas a sequer comentar a morte do escritor para a reportagem do Opera Mundi. “Não me apeteceu o que ele diz no seu último livro [Caim]. Dizer que Deus não existe… quem é ele?” questiona o pintor Cléber Tiago de Araújo, de 27 anos, brasileiro residente em Portugal há seis. Foi a polêmica que fez a estudante Ana Soares, de 18 anos, ler a obra, “de escrita complicada e confusa”. Não gostou, mas achou grande perda. “Foi dele o primeiro livro que li em português [O Ano da Morte de Ricardo Reis]”, diz o sérvio Petar Tosković, de 27 anos, que trabalha com audiovisuais. “Ele foi uma grande figura para a consciência. E uma persona non grata”.
A igreja, por meio de um comunicado do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, expressou pesar pela morte do escritor, reconheceu o “patrimônio literário” deixado por ele e até a beleza da aproximação de seus escritos e o texto bíblico, literário. “O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença”.
Origens
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a origem humilde e o caráter autodidata de Saramago, chamando-o de um “dos maiores nomes da literatura mundial”.
“José Saramago contribuiu de maneira decisiva para valorizar a língua portuguesa. De origem humilde, tornou-se autodidata e se projetou como um dos maiores nomes da literatura mundial”, disse Lula em comunicado enviado pelo Planalto.
Para o presidente, o autor português foi um intelectual “respeitado no mundo todo”, que nunca “esqueceu suas origens” e foi um defensor “das causas sociais e da liberdade por toda a vida”.
*Com agências.
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