Em La Paz, pobres e ricos esperam resultados diferentes na eleição
Em La Paz, pobres e ricos esperam resultados diferentes na eleição
O clima em La Paz é de feriado. As ruas amanheceram desertas neste domingo de eleição – só podem transitar veículos autorizados, e não há transporte público de qualquer tipo. O comércio também permaneceu fechado, já que a lei proíbe eventos públicos e a venda de álcool. Algumas cholas – indígenas Aymará, com as famosas saias rodadas e chapéu-coco – vendem refrigerantes e salgadinhos para os poucos pedestres, que caminham sob sol forte.
O clima de calma contrasta com a importância histórica do dia. Não só a eleição terá o maior número de eleitores em toda a história – 5,1 milhão, incluindo 170 mil habilitados no exterior – mas também é a primeira vez que um presidente concorre à reeleição no país. A calmaria também diverge dos últimos dias de campanha, em que tanto governo quanto oposição falaram de “possível violência”.
Na sexta-feira (4), uma candidata a deputada da oposição foi agredida em Sucre; teve ferimentos no rosto e uma fratura no nariz. A ONU (Organização das Nações Unidas) reclamou. “Eu não vi nada de anormal até agora”, disse o observador internacional Alexandro Tulio. No pátio do Bautista Savedra, bairro de Rio Seco em El Alto, o Diretor Nacional Eleitoral da Argentina constatava o óbvio: muita fila, muita confusão, demora na votação. “Nada que não vá se resolvendo durante o dia”, garantiu. “Não vi nenhum problema ou dificuldade até agora”.
Ao seu redor, indígenas aymará formavam filas contorcidas, confusas, lentas. Muitos tiveram dificuldade pra votar. Este ano, foi preciso localizar as salas de votação a partir de listas com seus sobrenomes afixados na parede. Muitos analfabetos não encontravam seus nomes. Uma senhora, que pouco falava castelhano, repetia: seu nome “no hay” nas listas eleitorais. Sentada sob o sol no centro do pátio lotado, ela apenas esperava. Não bastasse isso, havia mais, muito mais gente do que nas eleições anteriores. “Aumentamos as mesas de 18 para 47”, disse o delegado eleitoral Nicholas Uluri. “Deve ter umas 10% pessoas a mais”.
Do outro lado do pátio, um menino trazia sua cabra na coleira, pois ela “iria chorar” se ficasse em casa sozinha. Alguns homens e mulheres vendiam salgados e sorvetes para as centenas de eleitores. Do lado de fora, barraquinhas com suco e refrigerante já estavam armadas desde as 8 da manhã; ao seu redor estavam as ruas de pouco asfalto e muitos montes de terra que marcam a paisagem de El Alto, cidade pobre na periferia de La Paz, um dos maiores redutos do MAS (Movimento ao Socialismo).
“Você já viu aqui em volta? Viu as casas, que pobreza, a rua sem asfalto?”, pergunta Julia Salaba Quispe (foto abaixo), sentada no pátio da escola sob seu chapéu-coco. “Evo tem que ganhar. É o único que nos dá dinheiro, os outros não davam nem um centavo!”. Aos 51 anos, ela vende verduras nas ruas de El Alto. Dá pouca receita. Agora, seus três filhos recebem a bolsa Juancito Pinto – um incentivo de 200 bolivianos (cerca de 50 reais) por mês para permanecerem na escola. “São 600 por mês. Dá pra viver”.
Fotos: Ynaie Dawson
Sentado um pouco adiante, Juan Saire Quispe, de 22 anos, e seus amigos, mostram o dedão pintado de azul depois da primeira votação de suas vidas. “Nunca tinha me registrado pra votar antes porque não me interessava muito”. Diz ele que como os governos “embolsavam todos os recursos da Bolívia”, votar nem dava gosto. Passou pela eleição da assembléia constituinte e pelo referendo sem se importar. Agora, diz ele, é diferente. Para o ajudante de pedreiro, o emprego aumentou: em El Alto, obras públicas de novas escolas e hospitais trouxeram mais trabalho. “Evo está botando a Bolívia de pé, não estamos mais de joelhos”.
É verdade que falar mal de Evo nesta escola é quase um pecado, mas a jovem Herminia Quispe mal esconde sua irritação. “Assim não dá, como posso enfrentar essa fila com meu bebê?”, perguntava. Enrolado sob sua manta no carrinho, o filho de 9 meses nem dava bola pra a bagunça do lado de fora. “Não se sabe o nome, daí se sabe não acha, o da minha mãe não achei e o meu demorou uma hora…”, esbravejava. Mas vai votar em quem? “Não falo”. No entanto, confessa: está decepcionada com o governo de Evo. “Esperava mais, pensei que as coisas iam melhorar”.
Hermínia poderia receber alguns dos bônus do que o governo tem dado aos mais necessitados, como o Juana Azurduy, para mães e recém-nascidos. Mas diz que a fila demora dois dias, e ela precisa trabalhar em casa. Além disso, diz, teria que vacinar seus filhos – e de vacina, ela não gosta. “Eles acabam ficando doentes com isso”.
Classe média
Em El Alto Hermínia pode estar sozinha nas críticas, mas a meia hora dali, na zona sul da cidade de La Paz, onde a classe média faz filas (bem menores) para votar no colégio Amoretti, bairro de Sopocachi, grande parte concorda com ela. A mesma irritação – ódio, pra usar a palavra exata – sente a psicóloga Ana Maria Calancha, de 54 anos. Sentada à frente do colégio, esperando seu filho votar, ela começa falando baixo (especialmente a frase “eu o odeio”) e aos poucos vai subindo o tom.
Votou nulo. “Nenhum deles me convence”. Para ela, o governo de Evo estimulou o ódio racial. “Nós mais brancos temos sofrido muito preconceito. E não é só de cor não; é de conhecimento. Quem tem estudo é deferido em cargos públicos”. Para ela, isso só pode gerar um pensamento “atrasado”. “Querem voltar ao século 16”. Além disso, ela é radicalmente contra os bônus sociais. “Só vão vai acostumar a gente a sempre receber esmolas e nunca melhorar, nunca criar trabalho, indústria. E para que? Para nada”.
Diante da escola, a calçada bem-acabada dava lugar a grupos de amigos e famílias – algumas decidiam a que restaurante iriam após votar. Uma vez depositada a opinião na urna, é hora de esperar. E, para o engenheiro de sistemas Ricardo Martinez, 25, torcer pra que o “processo de mudança” não seja, afinal, não radical assim. “Tomara que não tomem as terras, como aconteceu depois da Constituinte, e que as coisas sigam em ordem. Mas tudo pode acontecer”.
Para ele, que voltou por Samuel Doria Medina, da Unidade Nacional – “único que mostrou propostas concretas em vez de ficar atacando os outros” – resta conformar-se. “Já sei que Evo vai ganhar, já coloquei isso na cabeça”.
À mesma hora, no centro da cidade, a polícia fazia ronda na praça Murillo, em frente ao palácio do governo. Ali foi a festa da primeira vitória eleitoral de Evo Morales há quatro anos; ali deve ser a comemoração hoje à noite, se as previsões das pesquisas eleitorais – que apontam vitória já no primeiro turno – forem confirmadas.
“Ah, ele vai ganhar”, diz um policial. “Já estamos nos preparando. A festa vai ser boa”.
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