Sexta-feira, 3 de abril de 2026
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No último dia de 1968, o então general Vernon A. Walters enviou ao secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, um memorando onde sugeria que os Estados Unidos deviam apoiar o regime militar brasileiro, caso contrário o Brasil poderia se tornar “uma nova China”.

O memorando encontra-se entre uma série de documentos que se tornou pública recentemente pelo gabinete de História do Departamento de Estado, todos relacionados à política norte-americana no período entre 1968 e 1972.

Veja o documento na íntegra, em inglês, clicando aqui

 

Walters partiu do princípio de que, após o governo militar ter decretado o AI-5, o Brasil estava a ponto de ser cenário de uma nova revolução, a qual poderia se alastrar a outros países da região.

“Penso que temos apenas três alternativas perante o governo brasileiro atual. A tomada do poder por parte dos partidos comunistas – e no Brasil há dois – e de gente como o [ex-deputado federal] Márcio Moreira Alves, cujo discurso provocou a crise atual. E as consequências disto serão enormes”, escreveu Walters, que naquele momento era o adido militar na embaixada norte-americana em Paris.

Como segunda possibilidade, Walters antecipa o surgimento de um governo formado pela oposição que, no mínimo, “nos será tão hostil como foi o de Goulart antes de 1964”, o qual “assustaria os investidores estrangeiros, privando-o [Brasil] dos recursos econômicos necessários para enfrentar o crescimento populacional”.

A terceira alternativa seria a criação de um governo democrático, “em termos norte-americanos”, amigo dos Estados Unidos e com políticas “similares às nossas”.

E isto, “na minha opinião, é uma possibilidade muito remota na conjuntura atual e nos próximos tempos”, acrescentou Walters.

 

O general propõe então três opções para a política norte-americana lidar com o Brasil. “Em primeiro lugar, cortar toda ajuda ao governo atual e ter a esperança de que aparecerá uma alternativa”, escreveu também o ex-adido militar em Brasília, no início da década de 1960.

 

Como segunda opção, sugeriu que Washington se separasse do atual governo brasileiro e tratasse de conquistar a confiança dos grupos políticos que se opusessem a ele. No entanto, “foi o que fizemos em Cuba e os resultados são conhecidos”.

 

Por isso, a terceira alternativa, sugere ele, seria a de continuar com o apoio ao governo chefiado pelo marechal Artur da Costa e Silva, injetando recursos para construir a infraestrutura necessária para garantir a produtividade, e não “uma assistência baseada nas necessidades do dia a dia”.

 

“Devemos fazer todo o possível para reconhecer que o desenvolvimento deve ganhar a batalha à subversão. E só o conseguiremos se convencermos discretamente o governo da existência de um problema de relações públicas nos Estados Unidos, se continuam com determinados atos, que são rejeitados por amplos setores de nossa opinião pública”, explicou Walters a Kissinger, numa referência óbvia ao início da tortura como prática de perseguição à oposição política.

 

No entanto, disse o general, era preciso ter cuidado com o tema, porque “se tivermos desavenças com [Costa e Silva], perderemos toda influência sobre ele”.

 

“Não podemos nos dar ao luxo de cometer erros. Se perdemos o Brasil não vamos ter uma nova Cuba. Será uma nova China”, sentenciou quem no ano 1972 seria nomeado diretor-adjunto da Agência Central de Informações, a CIA.

AI-5

 

Além do golpe de Estado de 1964, que derrubou o governo de Goulart, o ingrediente que agravou a crise política e deu origem às recomendações de Vernon Walters foi o Ato Institucional número 5, que Costa e Silva assinou em 13 de dezembro de 1968, como consequência de uma “revolta” parlamentar, que teve sua origem num discurso de Márcio Moreira Alves, a quem Walters se referiu no memorando a Kissinger como um dos oposicionistas com possibilidades de tomar o poder com o apoio dos partidos comunistas da época.

 

Moreira Alves, conhecido como “Marcito”, não era comunista, mas sim um jovem deputado federal de 32 anos eleito pelo MDB, que, em setembro de 1968, teve a ousadia de criticar os militares, em plena Câmara, pela invasão dias antes à Universidade de Brasília e pela repressão aos estudantes.

 

Em seu discurso, Moreira Alves exortou à sociedade brasileira boicotar o governo e o que chamou de “militarismo”, sugerindo que não participasse das comemorações do Dia da Independência. E, de passagem, pediu às moças brasileiras que não namorassem cadetes ou outros militares.

 

“Marcito” se transformou, de imediato, num alvo a ser abatido pelos militares, e Costa e Silva exigiu sua cassação da Câmara de Deputados para poder julgá-lo. Em dois meses de enormes pressões e perseguições, mais ou menos veladas, o pedido foi rejeitado pelos deputados.

 

Na noite em que votaram pela negativa, 12 de dezembro de 1968, Moreira Alves descreveu, em outro discurso memorável, a situação que vivia naquele momento.

 

“Apagado o meu nome, apagados os nomes de quase todos nós da memória de todos os brasileiros, nela ficará, intacta, a decisão que em breve a Câmara tomará. Não se lembrarão os pósteros do deputado cuja liberdade de exprimir da tribuna o seu pensamento é hoje contestada. Saberão todavia dizer se o Parlamento a que pertenceu manteve a prerrogativa da inviolabilidade ou se dela abriu mão”, afirmou.

 

A Câmara não abriu mão e, em menos de 24 horas, Costa Silva assinou o AI-5, dissolvendo o Parlamento, suspendendo a Constituição, retirando os direitos políticos dos cidadãos, enviando centenas de brasileiros para a clandestinidade. Moreira Alves foi um deles. Conseguiu sair do país e só voltou em 1979, com a anistia. Viveu exilado no Chile, Cuba, França e Portugal. As autoridades norte-americanas nunca o deixaram entrar no país e apoiaram os governos militares brasileiros até ao final.

 

Vernon Walters morreu em fevereiro de 2002 em sua casa em Maryland, nos braços do namorado, um desconhecido major do Exército.

Costa e Silva sofreu um derrame cerebral em agosto de 1969 e faleceu em dezembro seguinte, um ano depois da proclamação do AI-5.

 

Márcio Moreira Alves morreu em abril passado, no Rio de Janeiro, sem nunca ter conseguido voltar a ser deputado federal, mas atuando como um jornalista cuja única preocupação era fazer do Brasil um país democrático.

Documento de 1968 revela medo de que Brasil virasse "nova China"

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