Segunda-feira, 11 de maio de 2026
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Gustavo estudou em um colégio judaico e fez bar mitzvá. Seus pais esperavam que ele continuasse os passos conforme a religião manda. Mas isso nunca aconteceu. Um dia, sua mãe encontrou cartas de amor dele para outro homem e entrou em depressão. Os amigos também não aceitaram sua homossexualidade e ele se afastou da comunidade. 

A história de vida de Gustavo é o fio condutor do documentário Otro entre otros, do diretor Maximilano Pelosi. Este não é um caso isolado na Argentina que abriga a maior comunidade de judeus da América Latina, cerca de 250 mil pessoas. Calcula-se que de 6 a 8% sejam homossexuais. O documentário, estreado na Argentina pouco antes da aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo, retrata os conflitos entre a prática religiosa e a homossexualidade dos judeus no país.   

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São entrevistados para o filme quatro integrantes da JAG (Judeus Argentinos Gays), organização fundada em 2004 para fomentar a adaptação e inclusão da diversidade na comunidade da qual fazem parte.

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Em entrevista ao Opera Mundi, Pelosi fala sobre problemas de inserção de homossexuais na coletividade judaica e sobre a resistência das correntes conservadoras e ortodoxas em relação ao casamento gay.



O diretor Maximiliano Pelosi



Por que fazer um documentário sobre judeus homossexuais na Argentina?

Na Argentina, diferente dos EUA e outros países, não há movimento reformista, apenas o conservador e o ortodoxo. Como consequência, os gays sofrem uma exclusão pelos próprios judeus.

Como surgiu a ideia de fazer o filme?

Meu namorado vem de uma família judia muito ortodoxa. Um dia, fazendo compras no bairro Once, um dos principais centros comerciais judaicos em Buenos Aires, encontrei com a minha sogra. Eu sei quem ela é mas ela não tem ideia de quem sou eu e de que o filho é gay. Trocamos algumas palavras e fiquei muito nervoso. Quis abordar este conflito e procurei histórias parecidas com a que eu enfrentava.

O judeu homossexual sofre mais discriminação do que o que não é judeu?

Não sei dizer, mas os gays são excluídos da economia e de todo o circuito da comunidade judaica que tem mais apego às relações familiares do que os católicos. Depois do Bar Mitzvá, o próximo passo é casar, ter filhos e mandá-los ao colégio da comunidade. É um círculo fechado, onde todos se conhecem e se ajudam também. Acho que por esta razão os judeus gays se unem, para preservar a cultura e manter os laços sociais que teriam ao frequentar um clube ou ao casar com uma judia. Eles estavam acostumados a uma vida em comunidade e perderam isso por serem homossexuais. Eu, como católico, posso não ir à missa, não rezar, não confessar meus pecados e não perco nada, meus vínculos são alheios. Mas os judeus têm esta necessidade e a meu ver isso os torna mais fortes.

O documentário cita alguns exemplos da discriminação dentro da comunidade?

Sim, um dos entrevistados, o Gustavo, conta que foi expulso de uma festa quando seu amigo descobriu que ele era homossexual. Ele achou que sua mãe entenderia, mas ela entrou em depressão. Em um outro caso foi particularmente difícil porque a mãe se suicidou quando soube que o filho era gay.

Como você tomou conhecimento da JAG?

Um dos meus melhores amigos, que é judeu e personagem do documentário, me convidou para conhecer a associação. É um espaço gay muito interessante porque não existe tensão sexual todos se reúnem ali por um objetivo maior do que simplesmente conhecer alguém. Eles promovem atividades a cada duas ou três semanas, como reuniões para assistir filmes, peças de teatro, ou organizam palestras sobre algum tema relacionado à homossexualidade entre judeus e aos pontos da Torá que remetem ao tema. Além disso, o JAG participa de encontros das instituições judaicas e as pessoas estão começando a prestar atenção neste movimento.

Por que todos os retratados fazem parte do JAG?

Não foi de propósito, eu simplesmente preferi incluir somente os entrevistados que aceitassem mostrar o rosto e pedi para que olhassem diretamente para a câmera, como se estivessem falando com o espectador, o que marca bastante a estética do filme.

Qual é a sua relação com o judaísmo?

Tenho contato com a comunidade judaica desde pequeno, por um casal amigo do meu pai. Também fiz um curso superior em em uma instituição judaica. Esta religião tem muitas coisas com as quais não concordo e não entendo.  Meu companheiro faz jejuns, frequenta a sinagoga e janta na casa da mãe todas as sextas-feiras. A comida na nossa casa é kasher, alimento judaico, nunca misturamos com lácteos. É estranho, mas consegui me adaptar. No yom kippur, um dos principais feriados judaicos, ele não pega em dinheiro e não usa carro. As leis judaicas tem normas fundamentadas há três mil anos, quando comer mariscos era perigoso por causa da maré vermelha e a carne de porco matava as pessoas. Mas a defesa desta cultura com tanta veemência, crença e orgulho me convence de que esta fé é muito especial.

Como o filme repercutiu entre a comunidade judaica?

Um dos grandes problemas que enfrentamos foi o horário das sessões, que muitas vezes coincidia com horários em que os judeus já não podem fazer algumas coisas. Em uma das sessões, vi uma senhora tentando convencer o segurança para entrar sem pagar, já eram seis da tarde de uma sexta e ela não podia tocar em dinheiro. Acabou desistindo. A mãe do Gustavo comenta no documentário que não sabia se suas amigas sabiam ou não da homossexualidade do filho e preferiu não ir à estreia. Não estava preparada e teve medo. Três dias depois assistiu e foi reconhecida na saída por umas meninas que se aproximaram para conversar. Suas amigas também ligaram para cumprimentá-la. Ela ficou contente.

Com a recente aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, como a comunidade judaica se posiciona a respeito?

Nós dependemos da doutrina dos Estados Unidos, onde os rabinos podem casar duas pessoas do mesmo sexo. Mas aqui, a corrente conservadora, que é majoritária e menos rígida que a ortodoxa, ainda não permite. Eles dizem que o judaísmo não pode infringir as leis do país, mas os judeus já se divorciavam antes da legalização do divórcio na Argentina. A ideia do filme é que o seminário rabínico discuta esta questão. Durante o debate sobre o casamento gay, alguns rabinos estavam a favor e outros contra. Um chegou a dizer que homossexualidade era doença. O documentário foi feito antes da aprovação da união entre homossexuais, agora é mais fácil pensar em mudança.

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Documentário retrata drama de judeus gays na Argentina

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