Diplomatas franceses se rebelam contra a política externa de Sarkozy
Diplomatas franceses se rebelam contra a política externa de Sarkozy
“A voz da França no mundo sumiu”. É com este titulo sem ambiguidade que um punhado de diplomatas anônimos decidiu denunciar, em uma carta publicada pelo jornal francês Le Monde, a política externa do presidente Nicolas Sarkozy.
Com este texto, o coletivo, formado por funcionários de diversas gerações, alguns na ativa, outros já aposentados, acaba com a tradicional discrição dos diplomatas franceses.
A incapacidade do governo francês em encontrar uma resposta adaptada à situação nos países árabes é o principal argumento da carta. O “Grupo de Marly”, assim chamado em referência ao famoso café do museu Louvre onde os funcionários se reuniram pela primeira vez, lamenta o fato que o palácio presidencial do Eliseu optou por um apoio aos ditadores Zine el Abidine Ben Ali, da Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito, sem tomar em conta “as análises das embaixadas”.
Efe

A ministra de Relações Exteriores da França, Michelle Alliot-Marie, durante sua visita ao Brasil no início da semana
Poucos dias após o começo da revolta popular na Tunísia, a ministra francesa de Relações Exteriores, Michelle Alliot-Marie, desencadeou uma polêmica propondo ao governo de Ben Ali o “auxilio” da polícia francesa para lidar com manifestações públicas da oposição.
Após a queda do ditador, a chanceler teve que reconhecer que parte dos gastos de suas férias passadas no sul da Tunísia durante as festas do final do ano foi paga por um empresário ligado a Ben Ali. Logo depois, a imprensa francesa noticiou que o primeiro-ministro François Fillon, tinha, por sua vez, viajado em um avião oficial do governo egípcio com sua família durante as festas de fim de ano.
Wikileaks à francesa
“É a presidência da República que fez de Ben Ali e Mubarak os “pilares” do sul do Mediterrâneo”, insiste o grupo Marly, rejeitando as criticas sobre a cegueira da diplomacia francesa. “Um Wikileaks à francesa mostraria que os diplomatas franceses escreveram textos críticos e sem concessões”, sobre as autoridades da Tunísia e do Egito. “Se tivessem ouvido os diplomatas, muitos erros poderiam ter sido evitados”, continua a carta, atacando uma política “amadora” e “impulsiva”, dependente apenas de “preocupações midiáticas de curto prazo”.
A saia-justa na África do Norte não é a única critica dos diplomatas. Eles consideram que o isolamento do Eliseu explicou o fracasso das negociações de Copenhague sobre as mudanças climáticas, e a tensão em torno da francesa Florence Cassez no México. “Um caso que tinha que ser negociado com discrição”, precisa a carta.
Leia mais:
Calderón sobe o tom contra a França e diz que seu país não se dobrará por caprichos pessoais
Governo mexicano cancela participação no Ano do México na França após declaração de Sarkozy
Premiê francês admite ter viajado em avião oficial egípcio durante férias de fim de ano
Juízes franceses entram em choque com Sarkozy após críticas
“Política migratória europeia é uma farsa”, denuncia especialista espanhol
Sarkozy ignora críticas e França começa a deportar ciganos
A xenofobia europeia
A política no Oriente Médio é chamada de “pouco coerente”, e “ilegível”, enquanto “as prioridades evidentes como a África francófona são negligenciadas”. Para o grupo anônimo, França perdeu sua autonomia seguindo a política externa dos Estados Unidos, o que provoca o “espanto de muitos parceiros”. Nem os argumentos da “real-politik” explicam este alinhamento, já que os grandes contratos anunciados (como a venda dos aviões caça Rafale ou da tecnologia nuclear) não saíram do papel.
Marginalização
A tensão entre os diplomatas e Sarkozy não é recente. Desde 2007, ano da eleição do presidente, o “Quai d’Orsay”, como é chamado o ministério de relações exteriores em referência ao seu endereço em Paris, resmunga contra sua marginalização, lamentando que a política externa do país dependa mais do secretário-geral do Eliseu Claude Guéant.
A crítica é recusada pelo entorno de Sarkozy, que lembra que a política externa é, segundo a Constituição, uma prerrogativa da presidência. “A política externa sempre foi decidida no Eliseu, o trabalho do Quai d’Orsay [nome informal dado ao Ministério de Relações Exteriores, semelhante ao Itamaraty] é somente de aplicá-la”, explica Axel Poniatowski, deputado da UMP, o partido de Sarkozy, e presidente da comissão de Relações Externas da Assembleia nacional.
Em julho passado, dois ex-chanceleres, um de direita (Alain Juppé) e outro de esquerda (Hubert Védrine), também publicaram uma coluna no jornal Le Monde para alertar sobre a redução “sem precedente” do orçamento do ministério.
A revolta dos diplomatas segue as dos juizes, que lançaram uma greve branca no começo do mês para protestar contra as declarações do chefe de Estado. Outro grupo anônimo, dessa vez chamado “Surcouf”, também foi criado por militares para denunciar as escolhas do presidente.
Siga o Opera Mundi no Twitter
Conheça nossa página no Facebook
NULL
NULL
NULL























