Desafio do novo premiê japonês é cortar US$ 170 bilhões em gastos públicos
Desafio do novo premiê japonês é cortar US$ 170 bilhões em gastos públicos
A vitória do Partido Democrático do Japão (PD), que conquistou 308 dos 480 assentos da Câmara Baixa na votação e que levou cerca de 70 milhões de pessoas às urnas ontem, traz consigo o maior desafio que um primeiro-ministro japonês já assumiu nas últimas cinco décadas: a promessa de reduzir os gastos públicos em 16,8 trilhões de ienes (mais de US$ 170 bilhões) nos próximos quatro anos.
Esse é o montante que o futuro premiê, Yukio Hatoyama, se comprometeu a cortar da própria carne para recuperar a segunda maior economia do mundo, que desde o ano passado tem amargado uma sucessão de baques históricos. O mais recente deles foi a maior taxa de desemprego desde a Segunda Guerra Mundial, estimada em 5,7% nas últimas semanas.
Hatoyama, líder da maior sigla oposicionista do Japão, assumirá o cargo de primeiro-ministro na semana do dia 14, pouco depois de pôr fim a uma hegemonia de 54 anos do Partido Liberal Democrata (PLD). Entre os principais pontos de sua campanha estão a criação de um subsídio anual de US$ 3 mil para crianças em idade escolar, o direito a seguro-desemprego para trabalhadores com contrato superior a 31 dias e o fim dos empregos temporários, medida que deve afetar diretamente a vida dos estrangeiros que dão expediente nas fábricas do país.
“Para que a meta de criar estabilidade no emprego dê certo, é necessário que funcione primeiro o projeto central do PDJ, que é reduzir os gastos públicos. Se a reforma começar a mostrar resultados já em 2010, ainda acredito que os japoneses terão a preferência [na disputa por novas contratações]. Não sei se os imigrantes podem esperar tanto tempo”, analisa Isami Hoshino, doutor em Política pela Universidade de Tóquio.
Desde o segundo semestre de 2008, quase 55 mil brasileiros deixaram o Japão, cerca de 10 mil deles com a ajuda de retorno voluntário paga pelo Estado, estipulada em US$ 3 mil por pessoa. Antes do estouro da crise, há dois anos, aproximadamente 317 mil brasileiros viviam no arquipélago. “De qualquer forma, os democratas têm sido mais sensíveis aos direitos dos estrangeiros do que o PLD, inclusive propondo que, no futuro, os imigrantes tenham direito ao voto”, pondera o cientista político.
De acordo com a lista de projetos do novo premiê, empresas que terceirizam a contratação de mão-de-obra (conhecidas como “empreiteiras”) devem oferecer contratos regulares aos seus trabalhadores, e não de prestação de serviço, como ocorre com mais frequência hoje em dia. Hatoyama promete ainda estipular um piso mínimo nacional de US$ 8 por hora de trabalho, valor que depois deve chegar a US$ 10. O líder do PDJ diz também que vai promover a capacitação técnica de um milhão de trabalhadores em três anos.
“Nós gostaríamos de promover a recuperação econômica, bem como trazer à tona a questão das aposentadorias em um futuro próximo, além de colocar em pauta políticas que sirvam para os próximos 30, 50 anos”, afirmou o sucessor de Taro Aso em carta pública, divulgada no site do PDJ após a confirmação da vitória.
Confiança abalada
Para entender o desgaste do PLD, é preciso fazer uma retrospectiva dos últimos três anos, período em que três primeiros-ministros – Shinzo Abe (2007), Yasuo Fukuda (2008) e Taro Aso (2009) – exerceram o posto por não mais que 12 meses cada um. Todos tiveram gestões marcadas por fraudes financeiras, gafes envolvendo o primeiro escalão do governo e altos índices de rejeição. No início deste ano, Aso chegou a registrar menos de 10% de popularidade entre os eleitores.
“Nenhum deles conseguiu superar o legado de Junichiro Koizumi, um político pouco comum dentro do cenário japonês. Embora tenha sido um dos principais responsáveis pela piora das condições econômicas do país, ele sempre teve cabeça fria e conseguiu fazer o PLD funcionar. Além disso, seu estilo populista foi único”, compara Isami Hoshino, referindo-se a um dos líderes mais bem-sucedidos da história recente do Japão. Koizumi comandou o país entre 2001 e 2006.
Nem todo mundo, porém, vê com confiança os novos rumos da política nipônica. Para o brasileiro naturalizado japonês Luciano Tsuda, de 33 anos, a derrota de Aso pode comprometer ainda mais a tímida melhora da economia do país, que começou a entrar nos eixos com o arrefecimento da crise.
“Para mim, [o governo atual] foi muito bom. Comprei uma casa financiada com juros de 3,5% ao ano, ganhei um subsídio de 100 mil ienes [US$ 1 mil] para trocar de carro e ainda mudei todos os meus eletrodomésticos”, enumera ele, que pela primeira vez participou das eleições no Japão, onde vive há 12 anos. A esposa, Cintia Tsuda, também votou a favor do PLD. “A oposição prometeu muito em seu manifesto e acho difícil que consiga cumprir com tudo aquilo”, completa Luciano.
Falta popularidade
Contraditoriamente à vitória esmagadora que protagonizou no fim de semana, Hatoyama, 62, não é uma figura popular no Japão. O político nunca ocupou um cargo público e assumiu a presidência do Partido Democrático há cerca de três meses, depois que o polêmico Ichiro Ozawa, então líder da legenda, deixou o posto por conta de um escândalo envolvendo doações ilegais.
A exemplo de Aso, o futuro líder do governo é neto de um ex-primeiro-ministro e membro de uma das famílias mais abastadas do Japão, dona da fabricante de pneus Bridgestone. Casado e pai de um filho, ele conta ainda no currículo com um doutorado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.
Mas o novo premiê destaca-se também por outras peculiaridades, como o fato de ser um fã de karaokês e Internet. Enquanto Aso é conhecido no país como leitor inveterado de mangás, os quadrinhos japoneses, Hatoyama chegou a gravar um disco em 1988 com o seu irmão, intitulado Take Heart.
Reação internacional
A Rússia comemorou a eleição de Hatoyama, que se comprometeu a estreitar os laços com o governo do presidente Dmitri Medvedev. “Em Moscou, se considera que a vitória do PD representa a expressão da vontade dos eleitores que apóiam o programa do partido”, diz um texto da Chancelaria russa em cumprimento ao próximo premiê.
O presidente da Comissão de Exteriores da Duma (Parlamento russo), Konstantin Kosachev, no entanto, descartou mudanças “substanciais” na política do novo líder japonês em relação às ilhas Curilas, em poder de Moscou desde 1946 e cuja soberania é reivindicada por Tóquio.
“O primeiro-ministro verá limitadas suas tentativas de avançar neste tema, já que a opinião pública japonesa não toleraria nenhum tipo de compromisso sobre os Territórios do Norte”, disse ele, em referência à forma como os japoneses chamam o arquipélago.
O presidente da França, Nicolas Sarkozy, felicitou Hatoyama por sua vitória nas eleições legislativas que, “abrem uma nova página na História” do Japão.
Depois de mais de 150 anos de relações diplomáticas com o Japão, o presidente francês expressou seu desejo de trabalhar com Hatoyama “na definição de objetivos comuns frente a desafios mundiais, em particular, a ajuda ao desenvolvimento e a mudança climática”.
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