Terça-feira, 19 de maio de 2026
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O ocidente não deve temer a saída de Hosni Mubarak do poder e as mudanças pelas quais o Egito deve ser submetido nos próximos meses. O país árabe reúne condições  muito diferentes às do Irã e o risco do surgimento de uma nova república islâmica é “zero”. A opinião é do sociólogo José Farhat, diretor de relações nacionais e internacionais do Instituto de Cultura Árabe.

“O Egito caminha inevitavelmente para a democracia, mas isso vai incomodar muita gente. Tanto Israel quanto os demais países árabes. Todos eles estão temerosos pela velocidade com que ocorreu [a Revolução de Jasmin] na Tunísia e a facilidade com que tudo se repetiu em um país do tamanho do Egito. Foram quase três semanas para acabar com três décadas. E o máximo que o povo usou foram pedras”, afirmou Farhat, que acredita que o fenômeno poderá se espalhar ainda em outros em outros países da região, como o Iêmen.

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Perguntado sobre a possibilidade de o país se tornar uma nova república islâmica, semelhante ao Irã, Farhat considera que a chance é nula. “Risco zero. Nem agora, nem a curto ou longo prazo. Assim como Mubarak, [o ex-presidente tunisiano Zine El Abidine] Ben Ali angariava o apoio de Israel e das nações do ocidente utilizando essa mesma desculpa. Ao invés da Irmandade Muçulmana, era o movimento Al Nahda (“O Levante”) que tomaria conta do país caso ele saísse. E o Al Nahda nem conseguiu se reorganizar como o esperado na Revolução de Jasmin”.

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Para Farhat, apenas três países adotam regimes fundamentalistas, e dois são islâmicos: Arábia Saudita e Irã. O outro é Israel. “Caso a Irmandade Muçulmana disputasse uma eleição livre e democrática no país agora, não conseguiria 5% dos votos. O fundador da Irmandade, Hassan Al Panna, disse desde a criação do grupo, em 1928, que não permitiria ninguém de seu movimento pegar em armas. Depois do Estado de Israel, foi aberta uma exceção, apenas caso fosse necessário para proteger a Palestina. Mas a Irmandade não é um movimento de tendência militar”.

Farhat lembra que as condições do Irã em 1979, quando eclodiu a revolução islâmica, era muito piores. “Foi uma escalada de erros cometidos pelos EUA, a CIA e do Xá [Reza Pahlevi], pois praticaram uma política extremamente prejudicial ao povo”, afirma Farhat. Para ele, o país está muito mais próximo de adotar o modelo da Turquia, um país laico com maioria muçulmana. O sociólogo lembra que até mesmo membros da Igreja Ortodoxa Copta estiveram presentes e organizados na praça Tahrir, epicentro das manifestações da capital Cairo, o que assegura a laicidade das manifestações.

O sociólogo também lembra que a estrutura das Forças Armadas egípcias são muito mais fortes e que a instituição conta com enorme respeito da população. “Elas terão um papel enorme nessa transição. A maior prova de que as Forças Armadas estão com o povo é que eles não deram um tiro e defenderam a população em todas as praças. Os problemas e conflitos ocorreram com a polícia”, lembrou. O momento-chave da queda de Mubarak, na opinião de Farhat, foi quando o Conselho Supremo das Forças Armadas reuniu-se de emergência na quarta-feira (10/02) sem a presença do mandatário “Já foi a indicação de que alguma coisa poderia acontecer. Sem dúvida ele (Mubarak) foi pressionado [pelas Forças Armadas]”.

Erros

Farhat acredita que, além de Mubarak, Estados Unidos e Israel foram os principais derrotados com as mudanças. A intenção dos dois países, embora não declarada, seria manter Omar Suleiman [ex-vice-presidente e ex-ministro da Inteligência] no comando da transição para manter o status quo do país como aliado do Ocidente. “Nada do que eles planejaram e anunciavam de fato aconteceu. Suleiman era ministro da Inteligência, tinha ligações muito estreitas com a CIA e o Mossad. Tentaria acalmar a situação e enganar o povo. Seria mil vezes pior do que Mubarak, tanto em repressão como no conhecimento durante o serviço secreto”.

Cotidiano

Após as comemorações pela queda de Mubarak, Farhat acredita que a vida brevemente voltará ao normal nas ruas. “O povo que estava na praça vai atender o convite feito pelas Forças Armadas para voltar ao trabalho. Porque, a partir de agora as manifestações começariam a fazer mal para o país. Tudo deve voltar ao normal em torno de dez dias”, acredita.

Entretanto, há uma séria de medidas que a junta militar que assumiu o poder no lugar de Mubarak deverá tomar com certa urgência. “A primeira providência seria levantar o estado de emergência, que dura desde 1981. Depois, abrir mais o país, devolver as liberdades e incentivar os negócios. Porque o Egito tem também outro grande problema: a fome, foi ela quem levou muita gente à praça [Tahrir]”.

Uma medida econômica prática, na opinião de Farhat, e que causava muita indignação dos egípcios, era o preço do gás. “Era vendido a Israel por um preço insignificante. Já o povo, quando encontrava um botijão, tinha de pagar uma fortuna. Lá, ninguém faz comida sem gás, pois estamos falando de um país carente produtos como madeira e carvão”, lembrou o sociólogo.

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Democracia laica no Egito é um caminho inevitável, afirma especialista

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