Crise na Irlanda põe benefícios sociais em risco enquanto governo prefere pagar credores
Crise na Irlanda põe benefícios sociais em risco enquanto governo prefere pagar credores
Imagine uma família que viveu desde sempre na pobreza. Os vizinhos prosperavam, reformavam os imóveis e adquiriam novos bens, enquanto essa família continuava a ter apenas o suficiente para se alimentar. E, ainda assim, sem muita variedade no cardápio. Os filhos, bem educados e tendo frequentado ótimas escolas, não conseguiam emprego e começaram a sair de casa para tentar a vida em lugares distantes. Quem ficou não tinha muito o que fazer no quintal ou na sala, já que o orçamento apertado deixava pouco ou nenhum espaço para o lazer.
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Muitos anos se passaram e, de repente, a família de poucos recursos aprendeu uma maneira de ganhar dinheiro. Muito dinheiro, de forma lícita e sem nenhuma ligação com loteria ou qualquer outro tipo de jogo. Foi uma euforia. A casa ganhou novos andares, piscina, salão de jogos, televisores gigantes, equipamentos de som profissionais. A garagem teve de ser aumentada em 10 vezes para caber todos os novos veículos adquiridos da noite para o dia. Os filhos que um dia partiram retornaram cheios de orgulho e logo foram contratados para empregos com excelentes ganhos mensais. Todos se sentiam tão importantes que ninguém mais queria fazer as tarefas do dia-a-dia da casa, agora transformada numa mansão.
Ernani Lemos
Protesto na Grafton Street – famosa rua de Dublin – contra o alto preço dos aluguéis
As portas então foram abertas para que os vizinhos menos abastados entrassem e trabalhassem como empregados da família. O salário oferecido era tão generoso que até pessoas de outros continentes decidiram atravessar o oceano para se candidatar a um trabalho nas tarefas domésticas daquele lar tão próspero. E havia emprego para todos. Tamanha era a ânsia de consumir que a família acabou se tornando muito mais rápida em gastar do que em ganhar dinheiro. Mas isso não parecia um problema, afinal os bancos locais, muito gentis, liberavam enormes empréstimos praticamente sem exigir garantias.
Um dia, no entanto, como quem acorda de um transe, o gerente de um dos bancos percebeu que não tinha mais fundos suficientes para continuar emprestando. Pior. Não havia sequer recursos para cobrir tudo o que fora emprestado. Alertados, os gerentes dos outros bancos foram checar seus cofres e também não ficaram contentes com as poucas moedas que encontraram onde deveria haver milhões de notas para garantir os depósitos de seus clientes. Ao saber da notícia, a família finalmente se deu conta de que tampouco tinha ela o suficiente para pagar de volta os exorbitantes empréstimos que fizera com o intuito de devolver ao longo de décadas. E o sonho dos moradores daquela pequena casinha, um dia tão humilde e noutro dia tão próspera, passou a ser um grande pesadelo.
Se você conseguiu visualizar a vida dessa família, já é possível ter uma breve noção da trajetória econômica de uma pequena nação no topo da Europa – uma ilha de cerca de 4 milhões de habitantes chamada Irlanda. O país enfrenta agora o mais grave momento da crise que se instalou em sua economia no começo de 2008, com bancos à beira da falência, políticas de protecionismo polêmicas e moradores sob risco de perderem as casas por causa da inadimplência com o sistema de financiamento imobiliário. Os pessimistas temem que a Irlanda possa voltar à pobreza em que viveu por décadas antes de se tornar uma das maiores economias do continente. Mas a verdade é que isso dificilmente vai acontecer, já que o país é membro da União Europeia e pode contar com a proteção do bloco para evitar a falência.
O professor de economia Morgan Kelly, da University College de Dublin, publicou na semana passada um polêmico artigo no jornal The Irish Times, dizendo que a Irlanda deixou de ser respeitada como nação soberana e está agora nas mãos de estrangeiros. Tudo porque o país decidiu honrar o compromisso de pagar as dívidas dos bancos irlandeses com outras instituições bancárias europeias e agora os cofres do Estado devem ficar com um rombo bilionário.
Dívida irlandesa
A economia da Irlanda cresceu espantosamente de meados dos anos 1990 até o fim de 2007, baseada principalmente no investimento de empresas estrangeiras e no mercado imobiliário nacional. Os preços das propriedades cresceram sem controle em todo o país e os bancos alimentaram o sistema com enormes financiamentos oferecidos a construtoras e pessoas físicas. A política de empréstimos desmedidos, seguida de uma deflação repentina no setor de imóveis, deixou os bancos sem liquidez para honrar todos os depósitos e títulos dos correntistas. As instituições bancárias foram obrigadas a recorrer ao capital estrangeiro. Em setembro de 2008, o governo irlandês colocou em ação um plano para proteger os bancos nacionais, garantindo o pagamento de praticamente todos os compromissos devidos por eles.
“Como se vê agora, essa garantia provavelmente foi muito além do que se desejava”, comenta o professor John FitzGerald, do Instituto de Pesquisa Econômica e Social da Irlanda.
Dois anos depois de assumido o compromisso, em setembro de 2010, o governo irlandês poderia ter tomado a decisão legal de encerrar a garantia, o que transformaria a dívida em ações dos bancos devedores.
“Mas o governo decidiu honrar a palavra em vez de tomar a decisão mais adequada para o país. O pagamento de 55 bilhões de euros em títulos bancários deixa felizes os credores – no caso os bancos ingleses, franceses e alemães – e os ricos banqueiros da Irlanda. Além disso, a decisão ainda fez os governantes posarem de bons moços no cenário internacional. Mas a política protecionista aos bancos vai custar caro aos contribuintes, já que a cobertura das perdas das instituições excede em muito a capacidade fiscal do país”, escreveu Morgan Kelly.
Ernani Lemos
Fachada do poderoso Banco da Irlanda, um dos causadores da crise financeira, no centro de Dublin
Terapia intensiva
O professor é considerado um dos maiores pessimistas em relação ao delicado momento que vive a economia irlandesa. Em seu artigo, até ironiza, dizendo que a economia do país está na terapia intensiva, respirando com pulmões artificiais e que os vizinhos europeus é que tomarão a decisão de desligar ou não os aparelhos. Kelly prevê um cenário ainda mais complicado para os próximos meses.
“A recuperação dos bancos foi ruim, provocou um déficit no orçamento e derrubou a confiança do mercado internacional nos títulos da Irlanda, mas o pior ainda está por vir. O próximo passo será o colapso do mercado imobiliário”, prediz.
A maior parte dos proprietários irlandeses adquiriu imóveis à base de empréstimos a serem pagos em períodos de 20 a 30 anos. Muitos compraram na época em que os preços estavam perto do topo e agora pagam prestações exorbitantes, enquanto assistem de mãos atadas aos valores das casas despencarem. Sem poder negociar os bens, já que teriam prejuízo ainda maior, alguns compradores ficaram sem dinheiro e começaram a atrasar o pagamento das mensalidades.
Evidentemente, outros fatores da crise, como a diminuição do consumo e a saída de algumas multinacionais do país, também influenciaram esse quadro. Morgan Kelly prevê que a inadimplência deve aumentar no próximo ano e, como os bancos serão obrigados a seguir uma política mais severa de pagamento de títulos, é provável que muitos irlandeses sejam despejados de suas residências para que elas sejam vendidas pelas instituições bancárias.
As medidas
O governo irlandês apresentou um projeto no qual se compromete com a União Europeia a cortar 15 bilhões de euros em gastos nos próximos quatro anos. O objetivo é diminuir o déficit – a diferença entre o que o país arrecada e o que ele gasta – para 3% até 2014. O déficit estimado para 2010 é de 32% do PIB. Os cortes no orçamento devem afetar até áreas essenciais, como saúde e educação. Os subsídios às universidades devem diminuir, provocando aumento nas tarifas pagas pelos estudantes. Também já se fala em diminuição de gastos na área social. Os benefícios concedidos pelo governo devem encolher.
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Mas enquanto mexer com a área de educação pode ser uma medida discutível, é quase consenso entre a classe média irlandesa que os benefícios sociais têm de ser revistos. Hoje, um desempregado recebe cerca de 200 euros por semana até que consiga emprego, não importa quanto tempo demore. O benefício se soma a outros como ajuda com aluguel (ou moradia gratuita), remédios e assistência médica para alguns casos específicos e mais um auxílio para cada filho dos casais. Mães solteiras também ganham uma quantia extra.
Parte deste pacote pode ser desfrutado por estrangeiros que vivem no país. A carga tributária atinge cerca de 40% dos ganhos de alguns assalariados. Algumas profissões, no entanto, são apontadas como responsáveis por gastos excessivos – como médicos e professores universitários e, claro, políticos.
Em manifestação recente, os estudantes saíram às ruas de Dublin para pedir que sejam feitos cortes nos salários dos professores, para que não fossem aumentadas as taxas cobradas dos universitários.
Destino parecido
Diante dos acontecimentos, é difícil deixar de imaginar se a Irlanda terá o mesmo destino da Grécia, que afundou na crise financeira alguns meses atrás e precisou contar com uma ajuda de 110 bilhões de euros da União Europeia e do FMI para poder honrar seus compromissos. A União Europeia, por meio do Banco Central Europeu, pode ajudar a Irlanda, oferencedo liquidez em troca de severas políticas monetárias que assegurem a diminuição da dívida do país.
Mas a ajuda pode custar caro aos irlandeses. Se o país for forçado, como foi a Grécia, a pagar juros de 5% sobre o valor emprestado, o débito irlandês crescerá mais rápido do que sua capacidade de pagá-lo, levando o país a uma inevitável falência. Ainda assim, representantes do governo da Irlanda negaram várias vezes nos últimos dias que tenham pedido ajuda à UE. Eles afirmam que o país tem recursos suficientes para pagar todas as suas obrigações até junho de 2011 e depois disso contará com os resultados da nova política de impostos e dos grandes cortes orçamentários para equilibrar as contas públicas.
Morgan Kelly diz que a Irlanda é uma nação muito pequena e de pouca relevância proporcional dentro da União Europeia. O grupo está mais preocupado com a situação de Itália, Espanha e Portugal, que também enfrentam crises internas. “Os irlandeses podem ser punidos e acabar servindo de exemplo para que os vizinhos não tomem decisões precipitadas em resgates de bancos e que em vez disso se esforcem mais para diminuir seus déficits”, considera o professor.
Futuro incerto
“Eu não vejo nenhuma solução para isso. A Irlanda enfrentou uma difícil escolha entre deixar seus bancos quebrarem ou bater às portas da falência – e, por alguma razão, escolheu a segunda opção. Nações soberanas têm de fazer escolhas políticas e nós já não somos uma nação soberana, em nenhum sentido da palavra”, conclui Kelly. “Quando as pessoas comuns começam a perceber que isso não apenas está acontecendo, mas está acontecendo com elas, nós podemos observar a ansiedade abrindo caminho para a raiva e o desespero. Dentro de cinco anos, essa crise deverá ter modificado profundamente o cenário político na Irlanda”.
Já para John FitzGerald, o futuro é mais otimista. “A economia está sendo puxada do buraco pelas exportações. Esse foi um dos setores menos afetados pela crise. Em 2011, devemos ter um balanço mais positivo, com os pagamentos do setor privado excedendo os empréstimos do governo. O problema dos empréstimos da Irlanda é uma questão de liquidez e a recuperação das exportações deve ajudar a resolver esses débitos. Os gastos internos, no entanto, devem continuar baixos por causa do pouco investimento feito no período. Isso deve se agravar no próximo ano como efeito do aumento de impostos e do corte de gastos previstos pelo governo. Mas, apesar de atrasar a recuperação, essas medidas provavelmente vão nos dar a chance de olhar para trás em 2012 e dizer: o pior já passou”.
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