Segunda-feira, 4 de maio de 2026
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O cenário de tentativa de recuperação da crise econômica mundial, o BAD (Banco Africano de Desenvolvimento) apontou as telecomunicações como fator chave para fortalecer o crescimento do continente africano. A instituição não está sozinha nesse pensamento e esforços internacionais aparecem para alavancar o setor, com suas fichas apostadas no uso de fibras ópticas, meio pelo qual se transmite voz, imagem e dados simultaneamente.

Moçambique é um retrato dessa situação transitória entre a infra-estrutura africana precária e a implementação de novas tecnologias. A fibra óptica foi a opção escolhida para aproximar os extremos geográficos do país, porém toda a comunicação fica dependente de um único cabo submarino que parte da província de Maputo e chega até Nampula, na região norte.Os potenciais problemas dessa dependência vão desde a ausência de conexão de internet à impossibilidade de realizar telefonemas em províncias do centro e do norte caso ocorra algum dano ao cabo. E foi exatamente o que aconteceu no dia 17 deste mês, último sábado.

“Não consigo falar com meus familiares em Manica há quase uma semana, o telefone não chega nem a chamar. Tenho assuntos importantes a tratar, mas por enquanto não há muito o que fazer. Já com Sofala consigo falar sempre, naquela região está funcionando”, conta Maria Cecília, original da região central, mas moradora de Maputo há dois anos.

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A sete quilômetros da costa de Xai-Xai, o cabo de fibra óptica sofreu uma avaria a 25 metros de profundidade no oceano Pacífico. A comunicação com regiões ao norte da província de Inhambane está comprometida desde então e não há alternativa. Devido à grande profundidade  do local onde fica o cabo, Moçambique não possui recursos suficientes para consertá-lo e fica dependendo da disponibilidade de embarcações estrangeiras para realizar os reparos necessários. As previsões iniciais dadas pela empresa estatal responsável pelo setor TDM (Telecomunicações de Moçambique) são de seis semanas para a normalização das operações.

Para contornar garantir um mínimo de comunicação no meio tempo, a TDM recorreu ao uso majoritário de satélites. Além disso, segundo uma fonte do setor, que não quis ser identificada, disse que o “projeto de redundância” – que está instalando outro cabo de fibra óptica terrestre para servir de alternativa ao submarino – está sendo acelerado. Sua conclusão, que estava prevista para a segunda metade de agosto, será realizada nos próximos 15 dias devido aos últimos acontecimentos.“O projeto, que deveria ser inaugurado no fim do mês que vem, foi acelerado pela empreiteira responsável para ser entregue em duas semanas para amenizar o problema”, disse ao Opera Mundi.

Recorrência

As comunicações só não foram totalmente cortadas dessa vez porque um evento semelhante já havia ocorrido no fim de abril deste ano, o que fez com que a TDM delineasse um plano de resposta mais rápido e eficaz para futuras crises. Na ocasião, além dos prejuízos na telefonia e internet, diversos outros setores foram afetados, inclusive o bancário, impossibilitando saques de caixas eletrônicos e transações com cartões de crédito. O comércio travou e até mesmo alguns canais de televisão ficaram fora do ar.

“Os transtornos foram muitos. Familiares meus tiveram que criar dívidas para poder comprar comida e tentar vender o máximo possível do que produziam na agricultura para ter algum dinheiro. Os salários estavam presos nos bancos e os comerciantes não gostam de vender fiado porque acontece de nunca receberem o pagamento”, explica Herder Lopes, proveniente da província de Tete.

A situação só foi normalizada depois de quatro semanas, após a vinda de uma embarcação francesa para realizar o reparo. O custo total do conserto ficou em mais de um milhão de dólares.

Novas tecnologias

Moçambique ainda tem um terceiro cabo construído pela Seacom com o intuito de ligar os países da África austral ao resto do mundo. O projeto foi concluído este ano e ainda será expandido, ligando o continente à Europa e à Índia. O cabo parte de Durban, na África do Sul, até Port Sudan, no Sudão, interligando-se a outros cabos submarinos internacionais.

O projeto foi orçado em cerca de 600 milhões de dólares, sendo que somente 76,25 milhões são provenientes de capitais do próprio continente. O restante é de investidores europeus e norte-americanos.Os investimentos em tecnologia na área estão surtindo efeito. Segundo o último African Statistic Year Book referente a 2010, um crescimento de 14% foi registrado no setor de transportes e comunicação no ano de 2008 em Moçambique, sendo que em 2003 a taxa de avanço não passava de 2,9%.



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Crise das telecomunicações em Moçambique revela precariedade do setor na África

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