Terça-feira, 12 de maio de 2026
APOIE
Menu

Impactado pela diminuição da provisão de gás argentino desde o final de 2007 e com um setor mineiro em crescimento, que demanda cada vez mais energia, o governo chileno tem enfrentado, nos últimos meses, a fúria de ambientalistas e mobilizações da sociedade civil pelas propostas de instalação de usinas termoelétricas a carvão e hidroelétricas de grande porte em distintas regiões do país.

O consumo de eletricidade no Chile oscila entre seis e sete mil megawatts, e a maior demanda é oriunda da mineração, segundo dados da organização Chile Ambiente. De acordo com a Modema (Movimento de Defesa do Meio Ambiente), 65% da potência geradora instalada correspondem a termoelétricas, 34% a hidroelétricas e 1% à eólica.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Leia também:

Chile deveria investir em energia geotérmica, afirmam especialistas

Um dos principais pivôs de discussão, que teve auge em agosto deste ano, foi a aprovação da instalação de um complexo termoelétrico em Punta de Choros, no litoral do país, outorgada pela Comissão Regional do Meio Ambiente (Corema). Em funcionamento, a Central Barrancones, composta por duas plantas de geração a carvão, teria capacidade para a geração de 540 megawatts, o que solucionaria parte do desabastecimento energético projetado pelo governo chileno para os próximos anos.

Mais lidas

A usina seria instalada, no entanto, em uma região localizada a 20 km de uma reserva marinha, considerada “Santuário da Natureza” por ser o habitat de 80% da população mundial dos pinguins de Humboldt, além de 800 espécies de animais. A possibilidade da construção em uma área ecológica protegida foi motivo de forte rechaço da opinião pública. Patrício Rodrigo, diretor executivo da Corporação para a Conservação e Preservação do Ambiente, acredita que construção foi freada “pela mobilização cidadã e pela decisão do presidente Sebastián Piñera de cumprir com o que tinha prometido em sua campanha, de se opor à instalação da termoelétrica nesta região”, declarou ao Opera Mundi.

Leia mais:

Honduras: movimentos sociais reage a privatizações de rios e de energia

Tradição em risco: aquecimento global ameaça produção de vinhos na França

Galeria de imagens: enxurrada destruiu a cidade de Kolontár

Na ocasião, celebridades chilenas se uniram para uma campanha televisiva e online contra o projeto e passeatas com adesão massiva foram planejadas pela Internet. “Foi impressionante. Em questão de horas protestos simultâneos foram organizados em várias cidades do país e mobilizaram milhares de pessoas”, contou Álvaro Molina, engenheiro ambiental da consultora Carbo-Ambiente.

Assista ao vídeo da campanha Salvemos Punta de Choros:

Três dias depois das manifestações e após ter recebido uma carta com 25 mil assinaturas reivindicando uma decisão negativa ao projeto, o presidente chileno afirmou ter solicitado à empresa GDF Suez que instalasse a termoelétrica “em outro lugar”. Em discurso, Piñera garantiu que o estudo de impacto ambiental derrogado pela Corema da região “se ajustou ao estado de direito do país”, ao que acrescentou: “Quero ratificar que esta decisão é absolutamente coerente com o que defendi em minha campanha”.

Para Carlos Montoya, professor de Saúde Pública da Universidade do Chile e autor do trabalho “Tendências do uso de fontes de energia favoráveis e adversas ao clima e à saúde no Chile (2009-2010)”, a grande questão que ronda a construção das termoelétricas não foi discutida: “Em nenhum momento se mencionou o aquecimento global, que é sem dúvida o maior dano que provoca uma central a carvão. As pessoas não entendem o que é a mudança climática, porque no Chile não há educação sobre o assunto”, garantiu.

Apesar da resolução favorável à proteção do meio ambiente no caso de Punta de Choros, tramita na justiça chilena a aceitação ou não da classificação de “contaminante”, que paralisou a instalação de outro complexo termoelétrico, desta vez na região do Atacama, também movido a carvão, e que teria um potencial de geração de 2100 MW, quatro vezes maior que o de Barrancones.

A Central de Castilla, como é conhecida, foi proposta pela MPX Energia, pertencente ao empresário brasileiro Eike Batista e classificada inicialmente como “contaminante” pela Secretaria Regional Ministerial de Saúde. Alguns meses depois, com a mudança do secretário, a entidade qualificou o projeto como “incômodo”, o que viabilizava sua construção.

A Corte de Apelações da região, no entanto, aprovou um recurso de proteção aberto por opositores ao projeto e declarou ilegal a mudança de classificação da central. Em um comunicado, a empresa afirmou que a termoelétrica “está analisando a resolução do tribunal para decidir futuras ações em relação ao processo” e que a empresa “se sujeita a todas exigências meio-ambientais da legislação chilena e às normas de organismos financeiros internacionais para projetos desta natureza “.

Para Jan van Dijk, do Modema, projetos como Castilla continuam sendo discutidos por que as usinas termoelétricas são a maneira mais barata de gerar eletricidade. “Além disso, como faltam normas e uma legislação eficiente das emissões de gases poluentes, as grandes empresas se aproveitam destas facilidades”, afirmou.

Patagônia energética

A construção de um complexo hidroelétrico de grande porte no sul chileno, onde os rios caudalosos que cursam em terrenos de grande desnível favorecem a geração de energia, é alvo de outra polêmica. O projeto HidroAysen, composto por cinco usinas em uma extensão de quase seis mil hectares, contribuiria com um aumento da produção de energia chilena em 2.750 megawatts. Para abastecer o centro do país, seria instalada uma rede de transmissão que atravessaria nove regiões, levando a eletricidade produzida até a capital.

Segundo a empresa, o projeto “responde às necessidades energéticas chilenas e ajudará a satisfazer a maior demanda, crescimento e desenvolvimento econômico do país, contribuindo para diversificar a matriz energética e a segurança e independência no abastecimento de energia”.

Leia mais:

Reportagem especial: Exportações brasileiras crescem 7 vezes na era Chávez

Empresas brasileiras apostam na economia venezuela

Revolução de Chávez tenta resistir à queda do petróleo

Mas para Molina, o projeto é um “experimento”: “Ultrapassa todos os limites seguros de tamanho das torres de alta tensão, que cruzariam mais de 1900 quilômetros de florestas nativas”, lamenta. Segundo Patrício Rodrigo o projeto descumpre o tratado de Proteção do Meio Ambiente e Recursos Hídricos Compartilhados firmado com a Argentina em 1991, que determina que a utilização das bacias devem ser aprovadas por ambos países. “Tanto a empresa como o governo se esquivaram do tema, sendo que os rios em questão drenam água de lagos chileno-argentino”, criticou.

Siga o Opera Mundi no Twitter

Crescente demanda por energia cria impasse entre governo chileno e ambientalistas

NULL

NULL

NULL