Quarta-feira, 22 de abril de 2026
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A região oeste da Nicarágua, tradicionalmente território de monocultura, está vivendo uma situação de emergência de saúde por causa dos altos índices de IRC (insuficiência renal crônica) entre a população, principalmente os trabalhadores da agroindústria açucareira e as comunidades que vivem nas proximidades dos canaviais.

Segundo dados da ANAIRC (Associação Nicaragüense de Pacientes de Insuficiência Renal Crônica), entidade formada por ex-trabalhadores de uma usina de cana-de-açúcar de propriedade do grupo nicaragüense Pellas, um dos maiores do país, seriam mais de 3,6 mil os cortadores de cana mortos pela doença. Já o Ministério da Saúde do país reconhece a existência de outros milhares de lavradores afetados nos departamentos (províncias) de León e Chinandega.

De acordo com a Sociedade Latino-Americana de Nefrologia, a incidência média de mortalidade por IRC, teoricamente, deveria ser de 130 pacientes por milhão de habitantes. No entanto, o diretor do CIVATOX (Centro Nacional de Prevenção e Controle de Substâncias Tóxicas) da Nicarágua, Jesús Marín, relatou no congresso “Epidemia de Doença Renal Crônica” que, nos dois departamentos o número chega a 500 pacientes por milhão e é três vezes maior nas estatísticas por municipio.

Embora o grupo Pellas rejeite taxativamente qualquer vínculo entre a doença e a produção açucareira, alegando inexistência de provas científicas, os membros da ANAIRC acusam a empresa de usar agrotóxicos indiscriminadamente, contaminar as fontes hídricas e manter péssimas condições de trabalho.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi



Manifestantes acampados: número de pacientes com IRC é até 12 vezes maior em certas áreas perto de canaviais

Invocando uma lei que reconhece a IRC como uma doença de trabalho na Nicarágua, os membros da ANAIRC vêm protestando em Manágua há 11 meses para que a empresa dona da usina entre em negociações para pedirem indenizações por danos à saúde.

Agressão à saúde

Segundo os resultados preliminares de uma investigação da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua, realizada para detectar os fatores de risco que causam a IRC, entre os principais estão os nefrotóxicos ambientais e os agrotóxicos, quando usados sem controle e sem critérios.

Para a pesquisadora Cecilia Torres, professora de saúde ocupacional da universidade, “o processo de produção da cana-de-açúcar é complexo, que une campo e fábrica”.

“O que acontece quando um trabalhador recebe 20 córdobas (equivalente a um dólar) por tonelada cortada? Esta pessoa vai se matar de trabalhar para poder ganhar um salário mensal. Realmente está ali o círculo perverso: baixos salário, em condições muito precárias, em que se trabalha sob temperaturas de até 50 graus, uma desidratação permanente, com ingestão de água muitas vezes contaminada. Trata-se de uma agressão física constante”, explica.

*Texto e fotos.

Cortadores de cana na Nicarágua atribuem epidemia de doença renal a más condições de trabalho

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