Corpo de Nicolae Ceausescu é exumado na Romênia
Corpo de Nicolae Ceausescu é exumado na Romênia
Mais de duas décadas depois da execução do ditador romeno Nicolae Ceausescu e de sua esposa, Elena, a Romênia acompanhou nesta quarta-feira (21/7) a abertura dos túmulos que sepultaram o medo e a escuridão de 24 anos de um sangrento regime totalitário. Um pedido do único filho vivo, Valentin, e do genro do casal para verificar a identidade dos restos mortais devolveu Nicolae e Elena ao primeiro plano da atualidade.
A sangrenta queda de Ceausescu em 1989 ainda é um episódio repleto de incertezas, um solo fértil para as suspeitas que motivaram os herdeiros a pedir um teste de DNA.
“Estou inclinado a acreditar que são eles, mas até o exame de DNA não estarei totalmente convencido”, declarou Mircea Oprean, genro do ditador. “Trataram os cadáveres como pagãos os tratam”, disse Oprean em referência aos dirigentes que sucederam seu sogro no poder.
Historiadores e jornalistas expressaram suas dúvidas sobre a presença do corpo dos Ceausescu nos túmulos. O arquiteto da família, Camil Roguski, também seguiu essa linha.
“Só Elena Ceausescu está enterrada ali, Nicolae Ceausescu foi levado ao crematório e incinerado”, afirmou Roguski.
A análise das evidências pode durar até seis meses, e promete não satisfazer a todos. O próprio Roguski se apressou em demonstrar que duvida da confiabilidade do Estado romeno nesta questão e defendeu que os exames sejam feitos fora do país.
Democracia
Até o momento, a Romênia foi incapaz de atribuir responsabilidades pelas mais de mil mortes ocorridas durante a derrubada de Ceausescu. A democracia romena, cuja legitimidade reside em uma revolução de origens confusas atribuída aos serviços secretos soviéticos e norte-norte-americanos, até agora não enfrentou a tarefa de jogar luz sobre fatos históricos que, sem dúvida, envolvem atores ainda ativos na vida pública do país.
Tudo parece ter começado com protestos pela expulsão de um sacerdote na cidade de Timisoara, que levou a manifestações contra o regime que não demoraram em chegar à capital. Em 22 de dezembro de 1989, o ditador e sua esposa fugiram de helicóptero da sede do Comitê Central em Bucareste depois de serem encurralados pela multidão e terem perdido o controle da situação.
O novo governo, dirigido por comunistas do segundo escalão do Partido Comunista – que tinham tomado o poder com rapidez surpreendente -, capturou os fugitivos e os fuzilou após uma farsa de julgamento. Enquanto isso, centenas de pessoas morreram nas ruas antes e depois da fuga do ditador, primeiro sob o poder de Ceausescu e, depois, pelo poder revolucionário da chamada Frente de Salvação Nacional.
Prestígio
A sombra dos Ceausescu volta a pairar sobre a vida pública romena enquanto a crise econômica dá seu enésimo golpe às tênues esperanças de prosperidade do país e amplifica a delirante nostalgia de alguns pelo suposto “bem-estar mínimo” sob o comunismo.
Nos táxis, cafés e mercados, os anos de ditadura têm prestígio. A lembrança das filas por pão e leite e as interrupções no fornecimento de luz e calefação no final dos anos 80 evapora diante das dificuldades da vida no capitalismo. Apesar disso, o passado ficou para trás e a sigla do PCR (Partido Comunista Romeno) representa um grupo marginalizado sem chances de conquistar lugares no parlamento.
Caso se confirme que os restos mortais analisados são de Nicolae e Elena Ceausescu, a exumação ficará no passado. Caso contrário, a transição romena ganhará uma nova mancha.
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