Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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O governo do Afeganistão vai assumir o controle de algumas províncias até o final de 2010 e as tropas estrangeiras vão entregar a segurança no resto do país no prazo de cinco anos. Entretanto, o exército do país e as forças policiais serão reforçados com mais de 300 mil novos homens em outubro de 2011 – enquanto 140 milhões de dólares serão investidos no primeiro ano para reintegrar na sociedade combatentes talibãs que aceitarem cortar os laços com a Al-Qaeda.

Junto com o anúncio de que um conselho de anciãos ou “Jirga da paz” vai se reunir para discutir a reconciliação nacional, essas são as principais conclusões do dia de hoje (28) na conferência sobre o Afeganistão realizada em Londres. Ao contrário da cúpula anterior, realizada no mesmo local, o clima entre as delegações dos 70 países presentes foi de que o tempo está se esgotando, ciente de que a opinião pública ocidental está cansada depois de oito anos de guerra.

A conferência tentou fazer uma mudança positiva na situação, criando indicadores de progresso para tentar mostrar que existe uma luz no fim do túnel. Mas as dúvidas começaram a surgir mesmo antes de seu início, quando o presidente afegão, Hamid Karzai, apenas repetiu “Vamos tentar” quando um jornalista da BBC perguntou se as metas estabelecidas eram alcançáveis.

Muitos observadores estão abertamente céticos de que a nova estratégia possa funcionar. Os talibãs, afinal, controlam mais da metade do país e o governo de Karzai é visto como corrupto e incompetente, com praticamente nenhuma presença fora das principais cidades.

“Alguém acha que a data estabelecida para retirada das tropas aliadas é realista, após oito anos de guerra? No início ainda era controlável, mas depois o Talibã recuperado, então se espalhou pelo cinturão pashtun (no sul e leste) e agora controla vastas porções do país, pode ser tarde demais”, disse ao Opera Mundi a analista Ayesha Khan, da Chatham House, uma das maiores especialistas em segurança afegã.

“Agora não há hipótese de dialogar com os talibãs, mas não há nenhum mecanismo de implementação para conduzir essas negociações” disse, ela. “No Paquistão, as negociações de paz entre o governo e líderes tribais acontecem desde a independência, assim você tem uma estrutura montada, mas não no Afeganistão”.

Khan também questiona a ambiciosa proposta de restauração do exército e das forças de segurança afegãs, uma vez que as tentativas anteriores foram cheias de problemas, principalmente o desequilíbrio étnico (a maioria pashtun está sub-representada e forma a base de apoio para o Talibã) e deserções devido a soldos baixos.

Grande ofensiva

Outros especialistas dUvidam de que os rebeldes irão mesmo estar dispostos a dialogar, já que realmente acreditam estar vencendo a guerra. O pesquisador Fernando Reinares, especialista em terrorismo da Universidade Rei Juan Carlos, da Espanha, escreveu que todas as esperanças de negociações substanciais com o Talibã foram uma “ilusão” e que os talibãs “nem sequer mostraram qualquer vontade de chegar a um acordo.”

Isso também foi expresso por Abdullah Abdullah, o candidato presidencial que se retirou das eleições em agosto do ano passado, em meio a acusações de fraude. “Eu não acredito que o Talibã, nesta fase, esteja disposto a entrar em negociações. Além disso, sua associação com organizações terroristas como a Al-Qaeda, que é a principal questão no momento, e eles estão trabalhando como uma organização”, disse ele. Como se refletissem sobre isso, o Talibã rejeitou imediatamente a conferência como uma manobra de propaganda, dizendo em um comunicado na internet que a cúpula poderia não produzir resultados.

Consciente deste problema, o comandante norte-americano, general Stanley McChrystal, está preparando uma grande ofensiva militar nas próximas semanas contra a resistência talibã no sul do país. Ele deve aproveitar a “explosão” de 30 mil soldados escalados pelo presidente Barack Obama (elevando o número total de soldados aliados no país para mais de 100 mil), visando de alguma forma fazer os insurgentes perceberem que as negociações são mais vantajosas do que o combate. Ele pode criar uma “dinâmica que não para” e forçar o Talibã a sentar à mesa de negociações, permitindo assim que as tropas norte-americanas comecem a se retirar do Afeganistão até julho de 2011, como prometido por Obama.

Conferência define metas para saída do Afeganistão, mas analistas duvidam da nova estratégia

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